Pisando com cuidado na sensível Birmânia

Para um visitante, a vida na Birmânia – oficialmente, República da União de Mianmar –, com seus pagodes dourados e monges vestidos na cor de açafrão pedindo esmolas pela manhã, dá a impressão de uma sociedade tradicional imutável. Esta imagem é enganosa. Por detrás da fachada de uma sociedade imutável, a Birmânia abre-se às tendências mundiais e a vida está mudando, mas o terreno também está sendo preparado para uma reação contra a globalização. É hora de o mundo ocidental e os Estados Unidos tomarem nota.

A Birmânia é um conjunto complexo de culturas e a maioria étnica birmane, ou bamah, tem ascendência de mais de um milênio. Compondo dois terços da população total de cerca de 60 milhões, com heranças sociolinguística e religiosa distintas, os budistas birmaneses dominam uma variedade de outros povos. Sua cultura tem sido forte resistindo ondas de influências indianas, chinesas e ocidentais. A música birmane permanece distintamente não-indiana e não-chinesa. A música clássica ocidental e a dança não penetraram na sociedade, apesar dos anos de domínio colonial britânico.

Em contraste com o Japão, Coreia do Sul, e outras sociedades, incluindo a China de hoje, a cultura birmane permaneceu até recentemente em geral impermeável à maioria das influências ocidentais, e não apenas por causa de seu relativo isolamento. Os birmaneses continuaram a usar suas distintivas longgyis, ou cangas, e as mulheres raramente usam roupas ocidentais. Apesar da competência no idioma inglês prover caminhos para o avanço social na época colonial, o birmanês permaneceu vital na educação e na sociedade como um todo. O budismo determina o meio cultural, penetrando profundamente no tecido social. Apesar de muitas tentativas de missionários cristãos, poucos birmaneses budistas se converteram a outras religiões, em contraste com culturas étnicas animistas, como os Chin, Kachin e alguns Karen, que assimilaram vários padrões do culto cristão.

Vulnerabilidade

Para o estrangeiro culto, a cultura birmane ainda parece eminentemente forte e resistente. Muitos desses observadores supõem que o país será capaz de manter esses padrões, mesmo sob considerável tensão social, como fez antes. Mas as ações de uma variedade de administrações birmane e de segmentos importantes da sociedade que parecem ter diferentes atitudes em relação à sobrevivência cultural: muitos acreditam que a cultura birmane é vulnerável, ameaçada por forças internas e externas – culturais, econômicas, políticas e mesmo geracionais. Talvez esse medo incipiente seja resultado da experiência colonial. Talvez o estresse nacional na cultura birmane seja uma reação a essa vulnerabilidade.

A profundidade desses sentimentos de vulnerabilidade é desconhecida, mas claramente evidente. Esta vulnerabilidade tem a forma de sentimentos xenofóbicos e medos de penetração e destruição da cultura, virtudes, valores e costumes tradicionais birmane. Independentemente do quão mítico isso possa ser, não deixa de ser vibrante. Durante anos, a administração militar anterior se recusou a admitir o problema do HIV/AIDS, alegando que isso não poderia se espalhar, porque era a antítese da cultura birmane.

Um foco atual de preocupação é a influência chinesa, seja na forma de “dominação” econômica, manifestações sociais antibirmane, vários projetos de infraestrutura que beneficiam a China, pelo menos no curto prazo, ou mesmo uma cidadã sino-birmane vencendo o concurso de beleza nacional.

Os birmaneses têm sido sensíveis desde os tempos coloniais a suas percepções de vulnerabilidade, especialmente de mulheres birmane. A partir do poema “The Road to Mandalay” de Kipling, exaltando as virtudes e belezas das mulheres birmane e seu apelo aos estrangeiros, como a depreciação militar precoce de Aung San Suu Kyi por se casar com um inglês, esta sensibilidade permeia e se estende muito além da política partidária. Muçulmanos, os alvos da atual violência birmane, têm sido acusados de estuprar mulheres budistas birmane.

Uma questão mais virulenta agora é o medo a respeito dos muçulmanos e a eliminação da cultura birmane. O sentimento antimuçulmano é praticamente onipresente. Assim, mesmo os chamados políticos liberais com fortes registros de direitos humanos, como Aung San Suu Kyi, se apoiam em platitudes sobre os direitos e evitam discutir os problemas muçulmanos. Ela foi citada em “Poder global muçulmano” e birmaneses se preocupam com a inundação demográfica, tanto que um político propôs que muçulmanos não sejam autorizados a ter mais de dois filhos ou a casar com birmaneses budistas. Alguns temem seguir o caminho da Índia, não mais uma terra budista. Mesmo os monges budistas sugerem boicotar lojas de propriedade muçulmana.

Alguns no governo afirmam que as animosidades são baseadas nas disparidades econômicas entre birmaneses e muçulmanos, mas as raízes podem ser bem mais profundas.

Mudança invasiva permeia

Anos atrás, o diretor de turismo na Birmânia disse que turistas ocidentais haviam destruído a cultura tailandesa em Bangkok, e que a Birmânia não deixaria isso acontecer em Rangoon, agora conhecida como Yangon.

A demografia interna está levando a mudança e inquietação. A juventude urbana tem contatos além das fronteiras por meio da tecnologia moderna, e o governo criou mais espaço entre o indivíduo e o Estado, permitindo o que pode eventualmente ser visto como intercâmbio cultural destrutivo e insidioso de padrões ocidentais, reforçando as preocupações entre os mais orientados tradicionalmente.

Numa cultura onde oficialmente até poucos anos atrás não seria possível ter um instrumento musical ocidental numa orquestra clássica birmane; tem chegado música moderna, hip-hop, jeans, shorts e toda a parafernália de costura pop ocidental. E a penetração se expande, com karaokês e tecnologia moderna complementando a influência turística, como precursores da cultura ocidental. Como a urbanização da Birmânia, sua população jovem pode voltar-se para as tendências internacionais, para consternação da maioria rural e da geração mais velha.

No último meio século, as administrações birmane tentaram eliminar as influências ocidentais, tanto a variante política como econômica. Mas agora as portas estão abertas, o dinheiro flui com turistas e ajuda externa, a cultura pop ocidental se espalha e a mudança generalizada permeia. Numa sociedade acostumada ao regime autoritário duro, muitos serão atormentados por sugestões de que sua cultura está sendo destruída, tanto por forças externas como por uma quinta coluna interna.

Observadores estrangeiros deploram os sentimentos antimuçulmanos e os motins, bem como a propagação do sentimento anti-China, mas o Ocidente também tem preocupações adicionais. As relações EUA-Birmânia são as melhores desde a independência da Birmânia em 1948. Mas parece provável que um senso mais equilibrado de “neutralismo” birmane nas relações exteriores seja retomado, como ocorreu durante a Guerra Fria – certo senso de equilíbrio sino-ocidental na Birmânia. Mas os padrões culturais estranhos também serão vistos por alguns como inimigos da cultura birmane.

Um sentimento de desilusão pode penetrar se a vida das pessoas não melhorar significativamente. E, talvez, mesmo que a vida diária apresente melhorias, uma reação ainda poderia surgir contra a força das influências culturais ocidentais que parecem minar as virtudes tradicionais birmane, quando julgada numa névoa utópica. O aumento da riqueza e interação internacional traz aumento do consumo, mas como U Nu, o primeiro-ministro da Constituição de 1947, observou: “A ganância não é uma virtude budista.” A potencial reverberação exige políticas hábeis dos Estados Unidos e outros Estados ocidentais – atitudes normalmente não associadas a esses países que muitas vezes exibiram extrema arrogância no trato com o mundo não-ocidental.

Caso contrário, as rápidas mudanças culturais, vindas de todas as direções, podem levar a crescentes sentimentos antiocidentais, antimodernização e, mais especificamente, anti-EUA. A vibrante cultura budista birmane pode parecer invulnerável para o mundo externo, mas se houver a menor aparência de que ela está sob ameaça, como birmaneses afirmaram várias vezes antes, então o Ocidente e os Estados Unidos devem se preparar, e andar sempre com muita gentileza no ambiente cultural da Birmânia.

David I. Steinberg é professor-emérito de Estudos Asiáticos da Universidade Georgetown e professor-visitante na Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins. Copyright 2014 Centro Whitney e Betty MacMillan de Estudos Internacionais e Regionais de Yale

 
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