A armadilha da dívida em “Um Cinturão, Uma Rota”: o preço de seguir a China

O objetivo do "Cinturão e Rota" é estabelecer um sistema com a China como centro, fazendo com que os países, no processo de cooperação com Pequim, estabeleçam uma alta dependência do Gigante Asiático

Por He Qinglian

Os países que deixaram Pequim depois da primeira cúpula da iniciativa “Cinturão e Rota” (OBOR, na sigla em inglês) em 2017 foram reunidos sob a bandeira chinesa em apoio mútuo à reunião da segunda cúpula.

Isso incluiu o novo membro, a Suíça, bem como a Malásia e Mianmar, que anteriormente reclamaram aos Estados Unidos e ao Fundo Monetário Internacional (FMI) que o investimento na China os fez cair em uma “armadilha da dívida”.

Os países apresentam sua lealdade. Qual é o atrativo do PCC?

Em comparação com a primeira cúpula realizada em maio de 2017, a segunda tem vários pontos atrativos.

Primeiro, os países ajustaram suas expectativas em relação ao Partido Comunista Chinês (PCC). Embora haja uma expectativa geral de grandes quantias de financiamento dadas pelo PCC, as estimativas são muito mais realistas do que a meta de 2017.

Durante a primeira reunião em 2017, as reservas de divisas da China estavam caindo acentuadamente, e em 4 de maio, Zhou Xiaochuan, diretor do Banco Popular da China, publicou um artigo assinado em uma revista financeira chinesa. Os principais pontos foram: investimento e cooperação financeira para o projeto OBOR não é um apoio financeiro unilateral, mas requer que todas as partes construam em conjunto uma comunidade com interesses comuns para compartilhar os custos, riscos e benefícios. Ao mesmo tempo, deve-se enfatizar o financiamento baseado no mercado e da utilização ativa do yuan chinês para incentivar um número maior de capital internacional e economia locais.

Para deixar claro, a China disse que o investimento futuro deve fazer do yuan chinês a principal fonte de capital e que deveriam fazer investimentos conjuntos. Isso desapontou os países que vieram na esperança de buscar apoio do dólar americano. Assim, um incidente internacional foi invocado em 2017: Os países membros do OBOR pediram o fim do projeto chinês, alegando ao FMI que a China aumentara suas dívidas, exigindo assistência do FMI e, finalmente, que os Estados Unidos apoiaram a descrição de que o OBOR criou uma “armadilha da dívida” para os países participantes.

Com essas experiências, as expectativas dos países participantes para a segunda cúpula não foram tão altas quanto na primeira, e muitos países se limitaram a testar o terreno. A atitude da Itália foi típica: desde que a China tenha dinheiro, está tudo bem.

A segunda reunião também incluiu vários novos membros importantes. Participaram dois países europeus, Itália e Suíça. A Itália é o primeiro país membro do G7 a participar do programa OBOR, e seu significado simbólico é evidente.

A participação da Suíça é ainda mais importante. O artigo publicado pela BBC um dia antes da cúpula tem um claro entendimento sobre o assunto. Em primeiro lugar, a Suíça possui a mais prestigiosa indústria de serviços financeiros do mundo; em segundo lugar, a Suíça é a sede de muitas organizações internacionais. Para a China, o status político “neutro” da Suíça é de extrema importância para a iniciativa OBOR. A Alemanha não está satisfeita com isso, mas seu problema com a Itália não é tanto sua participação. Pelo contrário, a Alemanha insiste em manter uma posição de liderança entre os líderes europeus no controle do poder de negociação coletiva da UE.

Em terceiro lugar, o regime chinês tem sido muito tático em se concentrar na cooperação econômica e prometeu obedecer aos padrões internacionais. Estas declarações deram aos países participantes muito boas razões para cooperar.

A China lançou a iniciativa “Um Cinturão, Uma Rota” em 2013. Segundo Lufite, o valor total do projeto é de 3,7 bilhões de dólares e cobre dezenas de países da Ásia, Europa, África, Oceania e América do Sul. Na primeira cúpula do OBOR, a China teve uma sensação de expansão, divulgando o modelo chinês e adotando a ideia de que a China se tornaria o novo líder da globalização. Isso acionou o alarme em alguns países. Durante a guerra comercial, os Estados Unidos fizeram várias críticas questionando a “expansão vermelha” da China, que também fez com que alguns países da iniciativa OBOR vacilassem.

Durante a segunda cúpula, Pequim baixou seu tom e mudou sua abordagem para resolver as dúvidas de diferentes países. Por exemplo, ele propôs realizar um estudo conjunto com o Banco Mundial sobre os padrões ambientais e sociais do projeto OBOR. “Criar uma estrutura para a análise da sustentabilidade da dívida a fim de evitar o risco da dívida” foi a explicação para as preocupações com a transparência e a exportação da ideologia do OBOR. O esboço da declaração também afirma claramente que os 37 líderes mundiais que participaram da cúpula de 25 a 27 de abril chegarão a um acordo sobre questões de financiamento de projetos, cumprirão metas de dívida global e promoverão o desenvolvimento sustentável.

Desde outubro de 2018, a Malásia e vários outros países acusaram a China de levá-los a uma “armadilha da dívida”. Os Estados Unidos também criticaram abertamente. Em 3 de outubro de 2018, o Senado dos Estados Unidos aprovaram a Lei de Investimentos para o Desenvolvimento de 2018 (BUILD) por 93 votos a favor e 6 contra. Segundo a lei, a Corporação de Investimento Privado no Exterior (OPIC) e outras agências de assistência ao desenvolvimento serão integradas para formar uma nova Corporação Internacional de Desenvolvimento Financeiro dos Estados Unidos.

A nova agência receberá US$ 60 bilhões em financiamento e é responsável por conceder empréstimos de assistência a países em desenvolvimento para projetos de infraestrutura, como energia, portos e abastecimento de água.

No entanto, quando se trata de usar recursos do Estado, os países democráticos são muito mais restritos e muito menos eficientes do que Estados autoritários como a China (essa eficiência se deve, é claro, ao desrespeito pelo sustento das pessoas).

Portanto, o investimento dos Estados Unidos é apenas parte do plano, mas a China investiu dinheiro real. Países ao redor do mundo agora enfrentam um problema comum; o desemprego interno é um problema sério.

Por exemplo, a taxa de emprego da Itália é agora a mais baixa em sete anos, e a taxa de desemprego dos jovens no final de 2018 era de 30,8%. A taxa de desemprego juvenil na Grécia em janeiro de 2019 também permaneceu em 39,7%. Para o respectivo líder de cada país, o importante não é ajudar a libertar o mundo de um regime tirânico, mas resolver seus próprios problemas de desemprego. Em meio à oposição das grandes potências da União Europeia, a Itália optou por cooperar unilateralmente com a China, uma atitude baseada em considerações realistas: “Da janela de sua casa, esta (a construção da China no porto de Vado Ligure) não é certamente um panorama agradável, mas pode gerar empregos. Então é uma coisa boa”.

Para Vado Ligure, uma pequena cidade italiana com uma população de 8 mil habitantes, o investimento chinês gerou cerca de 400 empregos, o que deixou o governo local e os moradores muito felizes. O prefeito de Vado disse à Deutsche Welle que um forte parceiro de investimento é capaz de trazer novas oportunidades e novos capitais.

Ao mesmo tempo, sob o controle de uma série de tratados, contratos e regulamentos, não há necessidade de se preocupar com o fato de o capital chinês causa problemas de dívida ou violações de direitos trabalhistas. “Os chineses não são um problema. Eles trazem dinheiro e são muito bem vindos”, disse o prefeito. É o mesmo princípio para a Croácia, Nigéria e outros países. O dinheiro é o elo mais importante para que a China mantenha relações com os países do OBOR.

Há dois anos, o Sri Lanka, devido à incapacidade de pagar os empréstimos à China relacionados à construção do porto de Hambantota, arrendou todo o porto à China por um período de 99 anos. Este incidente foi criticado como um caso clássico da armadilha da dívida do OBOR. Pelo que se vê, os países parecem ter esquecido o princípio do mercado de pagamento de dívidas. Na verdade, indo mais fundo, esse tipo de pensamento tem suas raízes.

A mídia ocidental é de esquerda e sempre colocou os sistemas de valores como prioridade. A importância da economia e, especialmente, o papel dos Estados Unidos na economia mundial sempre foram subestimados. No entanto, depois que o Partido Democrata venceu as eleições de meio de mandato em 2018, as políticas socialistas tornaram-se a preferência do Partido Democrata em sua campanha, afastando-se ainda mais da principal questão de preocupação para os eleitores americanos.

Preocupada, a mídia ocidental frequentemente menciona inconscientemente uma citação famosa que Bill Clinton usou para derrotar Bush na campanha presidencial de 1992: “É a economia, estúpido!” Portanto, quero aproveitar esta oportunidade para lembrar os políticos da esquerda em todo o mundo que apenas “jogar a economia” pode ganhar eleitores. De fato, essa verdade se aplica não apenas à política de todos os países do mundo, mas também é a razão pela qual os países correm para cair na armadilha da dívida do OBOR da China. Porque só conseguindo o dinheiro da China eles podem ter o capital para jogar a economia em casa e atrair os eleitores.

Originalmente, o desenvolvimento econômico era uma questão particular de um país. Mas depois da Segunda Guerra Mundial, a situação da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética fez com que outros países se acostumassem à abordagem “seguinte”: além das razões ideológicas, cada país (especialmente países sem ideologias muito fortes) podiam escolher um lado e receber ajuda financeira de uma grande economia.

Muitos países de pequeno e médio porte não têm métodos para desenvolver suas economias, mas fizeram uso da disputa entre os Estados Unidos e a União Soviética para brincar na “gangorra” política. Quem deu mais benefícios, eles fariam sua parte. Após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos assumiram o bem comum de manter a ordem internacional, acreditando que ela era a personificação de seu próprio “poder brando”. Outros países também dão como certo que isso é responsabilidade dos Estados Unidos e não sentem a necessidade de agradecer. Por outro lado, a China está muito consciente do poder do dinheiro e vem usando-o para combater as relações de poder dentro das Nações Unidas. Ele demonstrou plenamente a importante influência do dinheiro nos países em desenvolvimento em questões de direitos humanos.

Vestígios do modelo da Guerra Fria: meta da China deve ser restringida pelos Estados Unidos

De acordo com as estatísticas oficiais do Partido Comunista Chinês, até março de 2019, a China assinou diferentes acordos de cooperação com 125 países. Esses países representam 36% do PIB mundial e 60% da população total do mundo. Esses intensos esforços são realmente apenas para conquistar oportunidades de negócios?

Claro que não.

Durante a segunda cúpula do OBOR, a China fez um grande trabalho explicativo para acalmar as dúvidas do mundo exterior. Os países também aceitaram as explicações da China, e acreditaram que o uso por parte da China de um transporte e infraestrutura abrangente para aproximar os continentes da Europa e da Ásia é benéfico para o aprofundamento do comércio e do contato humano.

Mas esses países compreendem a importância geoestratégica da iniciativa OBOR: o objetivo do “Cinturão e Rota” é estabelecer um sistema com a China como centro, fazendo com que os países, no processo de cooperação com a China, estabeleçam uma alta dependência de Pequim. Através da implementação do OBOR, a China terá obtido o direito de formular regras e regulamentos e reformar a estrutura global.

Os países também entendem que os Estados Unidos há muito expressam insatisfação com o plano OBOR da China. A comunidade estratégica dos Estados Unidos em geral acredita que a promoção contínua da construção do OBOR pelo PCC não deve ser negligenciada. Não só tem o potencial de alterar o equilíbrio geoeconômico e geopolítico da Eurásia, mas também representa uma ameaça real aos Estados Unidos em muitos campos, como padrões tecnológicos, segurança militar e desenvolvimento internacional.

Inclusive abala os fundamentos da hegemonia mundial estabelecida pelos Estados Unidos desde a Segunda Guerra Mundial. Portanto, os Estados Unidos definitivamente não tolerarão os fortes desafios da China nesse sentido. A luta pelo poder entre as duas superpotências trará inevitavelmente oportunidades para muitos países do mundo em busca de apoio financeiro.

Quanto aos países que estão competindo para entrar na “armadilha da dívida” da China, eles estão apenas mudando ligeiramente o novo conceito de “depender da China para os interesses econômicos, depender dos Estados Unidos para a segurança política” formada por países asiáticos após a Guerra Fria, retornando ao modelo de gangorra da era da Guerra Fria.

Situações como a que houve em meados de outubro de 2018, quando países como a Malásia se queixaram ao FMI e aos Estados Unidos, inevitavelmente voltarão a acontecer, porque reclamar é também uma forma de vender o direito a quem seguir.

 
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