Relatos em primeira pessoa sobre como o regime chinês censura a imprensa

Mais de vinte jornalistas da China Continental falaram com a mídia de Hong Kong sobre suas experiências

Por Nicole Hao, Epoch Times

Já é bem conhecido que na China goza-se de pouca liberdade de imprensa. De acordo com o índice 2018 da organização Repórteres Sem Fronteiras, a China ocupa a posição 176 dos 180 países na lista.

Initium Media de Hong Kong entrevistou 23 jornalistas chineses de todo o país sobre suas experiências profissionais. A fim de proteger a identidade dos jornalistas, a cada um foi atribuído um número, que foi utilizado no relatório.

O número 1, que trabalha como jornalista há seis anos, descreveu a crescente severidade da censura: “No início eu recebia um aviso sobre um artigo dois ou três dias depois de tê-lo publicado, ou então era notificado quando saía para fazer uma reportagem. Naquela época, eu continuava fazendo o trabalho porque havia uma chance de que a história pudesse ser publicada. Hoje em dia, não existe possibilidade, então eu nem me dou ao trabalho”.

De acordo com o repórter, há somente dois tipos de meios de comunicação na China: as agências de notícias estatais que recebem instruções das autoridades centrais, e os meios de comunicação que reescrevem as notícias dos porta-vozes do Estado.

“Atualmente, os cortes feitos pela censura não consistem apenas em que certas coisas não podem ser relatadas”, disse o número 3, “mas que não é permitido relatar questões sociais delicadas em absoluto. Na realidade, os censores especificam os tópicos que podem ser trabalhados e que conteúdo deve ser incluído”.

O jornalista número 5 explicou o vocabulário de “palavras sensíveis” dos censores: “Existe uma função no sistema que compara o seu artigo com uma lista de palavras sensíveis e determina se o que você escreveu cumpre com o padrão ou não. Ninguém sabe o tamanho da lista. [A pesquisa] encontra palavras sensíveis constantemente e continua revisando o artigo até que [não] registre mais nenhum alerta”.

Para algumas mídias é dada mais liberdade de ação do que para outras, como descreveu um jornalista veterano: “Uma vez recebi informação sobre oficiais militares que haviam dado um golpe através de uma empresa de bens imobiliários e desviado bilhões de iuanes [várias centenas de milhões de dólares]. Meu superior me disse que não poderíamos divulgar esse assunto, mas que poderíamos enviá-lo a Caixin, que é a única mídia que tem certa liberdade para falar de questões sensíveis. Caixin até agora não publicou isso, mas o fato aconteceu há seis meses”.

“Quando um motorista de [sistema de viagens compartilhada] Didi Chuxing estuprou e matou uma aeromoça de 21 anos de idade, que foi sua passageira em 5 de maio em Zhengzhou, cooperamos com o departamento local de notificação e fizemos uma série de artigos detalhados com informações concretas. Eu vi o editor aprovar a cópia, mas no dia seguinte, esse artigo não apareceu nem impresso nem na Internet. Disseram-me que o editor-chefe excluiu o artigo sem comentar nada”, contou o jornalista número 10.

O número 12 mencionou o filme “Morrer para sobreviver”, uma comédia de 2018 baseada na história real do paciente com leucemia Lu Yong. “O filme atraiu muita atenção desde o dia da sua estreia. Mas no quarto dia, recebemos um aviso de que ninguém deveria falar sobre ele. Tínhamos até feito uma entrevista exclusiva com o diretor, mas não pudemos usá-la”.

“Morrer para sobreviver” conta como Lu Yong adquiriu, por meio de contrabando, um remédio barato, eficaz, mas tecnicamente ilegal vindo da Índia para si mesmo e para mais de mil pacientes com câncer depois de ter vendido todas as suas propriedades para pagar as despesas com os caríssimos produtos farmacêuticos da China. Lu foi preso em janeiro de 2015. O incidente colocou em evidência a má qualidade dos produtos farmacêuticos chineses.

Todos os jornalistas mencionaram o encerramento forçado de suas contas nas redes sociais. De acordo com a Tencent, proprietária da Weibo e WeChat, mais de 99 mil contas foram fechadas nos primeiros 130 dias deste ano.

O Partido Comunista Chinês (PCC) impôs muitos regulamentos sobre os meios de comunicação, focalizando especialmente a internet e as redes sociais, assim como a cobertura informativa tradicional.

Em 2015, o Congresso Nacional do Povo, o legislativo fantoche da China, aprovou uma lei de segurança nacional que define o conceito de “soberania da internet”. No ano seguinte, uma lei de cibersegurança obrigou as empresas estrangeiras que operam na China a armazenar seus dados no país e colocá-los à disposição do regime do PCC.

 
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