Publicado em - Atualizado em 16/09/2017 às 18:15

Novo documentário revela o preço oculto do iPhone

“É como se fôssemos uma só batida do coração — se eles sofrem, nós sofremos”

Shang Jiaojiao, 17, começou a trabalhar em uma fábrica para ajudar a sustentar seus pais trabalhadores. Depois de limpar numerosas telas de eletrônicos com n-hexano, sofreu dano severo dos nervos e não anda mais (Human Rights Watch)

Shang Jiaojiao, 17, começou a trabalhar em uma fábrica para ajudar a sustentar seus pais trabalhadores. Depois de limpar numerosas telas de eletrônicos com n-hexano, sofreu dano severo dos nervos e não anda mais (Human Rights Watch)

NOVA YORK — Como milhões de rapazes e mulheres na China rural, Yi Yeting viajou para uma cidade costeira em busca de uma perspectiva melhor de trabalho. Em Shenzhen, uma metrópole do sudoeste fronteiriça a Hong Kong, Yi encontrou emprego em uma grande empresa estatal de manufatura.

Com dois anos de trabalho, Yi, então com apenas 24 anos, soube pelos médicos que tinha leucemia, resultado da longa exposição ao benzeno, uma substância tóxica de cheiro adocicado que é estritamente regulado nos Estados Unidos e em outros países. Na China, Yi tinha que respirá-lo diariamente.

Yi e outras vítimas chinesas da cadeia de abastecimento global de produtos, que vão desde contêineres de carga até iPhones Apple, são o tema de ‘Cúmplice’, um novo documentário das diretoras Heather White e Lynn Zhang. Além de apresentar dezenas de vítimas testemunhas, como também reportagens chinesas e estrangeiras, o filme apresenta cenas gravadas por ativistas disfarçados.

‘Cúmplice’ estreou nos Estados Unidos durante o Festival de Filme do Human Rights Watch num teatro lotado no Lincoln Center em 12 de junho. A cena de abertura do filme, mostrando o funeral perturbador de um jovem operário, fez lembrar a alguns na plateia que eles também possuem uma participação na tragédia em questão.

A procissão do funeral de um jovem operário, Yi Long (Cortesia/Human Rights Watch)

A procissão do funeral de um jovem operário, Yi Long (Cortesia/Human Rights Watch)

“Eu senti culpa depois de assistir ao filme, por ter um celular em minha bolsa”, disse o espectador Jhoe Garay. “Eu não sabia nada sobre as pessoas morrerem por causa de celulares ou iPads.”

Como aponta o filme, 90% dos eletrônicos consumidos no mundo são produzidos na China. Muitas das fábricas — como a Foxconn, a fabricante de eletrônicos com maior contrato mundial e fornecedora da Apple — empregam trabalhadores migrantes que deixam suas cidades natais em busca de trabalhos melhor remunerados. Estatísticas oficiais registram mais de 280 milhões de trabalhadores migrantes em 2016, muitos dos quais adolescentes.

Famintos por mais lucros, contratantes chineses de marcas globais forçam os trabalhadores a usar solventes químicos tóxicos, como o benzeno e o n-hexano, porque são mais baratos ou mais eficientes do que as alternativas seguras.

Esta prática antiética no processo de manufatura levou a muitas histórias trágicas, algumas das quais estão documentadas em ‘Cúmplice’.

Em 2009, Ming Kunpeng foi diagnosticado com leucemia após dois anos limpando partes de componentes eletrônicos com benzeno em uma fábrica, então pertencente à companhia holandesa ASM International. Um porta-voz da ASM negou que Ming tenha sido exposto a benzeno, mas a companhia por fim ofereceu um acordo único à família de Ming depois de sua prolongada negociação.

“Nós consumidores em territórios de fartura estamos fundamentalmente conectados às pessoas que produzem nossas mercadorias” — Jody R. Weiss, membro da plateia

A saúde de Ming se deteriorou e, não querendo sobrecarregar sua família com altos custos médicos, ele cometeu suicídio, pulando do terraço do hospital onde recebia tratamento. Ele tinha 27 anos.

Em meio à tragédia, algumas vezes surgem figuras realmente inspiradoras, como mostra o filme com o caso de Yi, o trabalhador migrante em Shenzhen.

Apesar da luta contra a leucemia e das crescentes despesas com saúde desde 2005, Yi encontrou tempo para voluntariar em uma ONG sediada em Hong Kong para ajudar dezenas de vítimas de doenças ocupacionais ou com lesões relacionadas ao trabalho, cobrando compensações e reformas nos locais de trabalho de empresas como a Foxconn.

A diretora Heather White disse: “Ainda escorrem lágrimas quando assisto ao filme, porque me sinto conectada àqueles indivíduos”. White, que anteriormente chefiava uma ONG ambientalista, passou sua carreira inteira na China investigando violações trabalhistas em fábricas.

Fazer esse filme foi “uma jornada pessoal incrível”, disse ela.

A exibição foi seguida por um painel de discussão com White e Todd Larsen, o co-diretor executivo da Green America, que promove o consumo sustentável e boas práticas corporativas.

O painel apontou que, enquanto fabricantes de eletrônicos ao redor do globo violam direitos básicos nos locais de trabalho, sistemáticos malfeitos governamentais e abusos corporativos têm exacerbado a situação na China. Lá, as autoridades aceitam suborno de fábricas para reprimir ativistas e esmagar ONGs, ao invés de punir as omissões.

Devido a seu ativismo, Yi foi colocado sob vigilância, despejado de seu apartamento e impedido de deixar o país. Embora ele tenha conseguido comparecer ao recente lançamento europeu de ‘Cúmplice’, em Genebra, foi interrogado por horas pelas autoridades chinesas sobre o paradeiro de seu retorno.

Yi pode ser considerado uma pessoa com sorte. Um trabalhador que iria estrelar no documentário desapareceu em seu caminho para o trabalho. Anteriormente ele esteve mobilizando outros trabalhadores num bairro próximo à fábrica da Foxconn, onde um grupo de vítimas de leucemia foi descoberto.

“Simplesmente nunca mais soubemos dele”, disse White durante o painel de discussão. “Sua família nunca o encontrou.”

“A China é um caso mais extremo devido a seu governo repressivo e autoritário, e a impossibilidade de os trabalhadores terem uma voz”, acrescentou ela.

White apelou aos consumidores para que pressionem as grandes marcas globais assinando petições, escrevendo cartas, ou ligando para os centros de atendimento das companhias, para manifestar preocupação com as condições dos trabalhadores. Empresas como Apple e Samsung são “capazes de influenciar diretamente as condições de trabalho, no mínimo em suas próprias fábricas”, observou ela.

“Percebo que nós consumidores em territórios de fartura estamos fundamentalmente conectados às pessoas que produzem nossas mercadorias”, expressou o membro da plateia Jody R. Weiss.

“É como se fôssemos uma só batida do coração — se eles sofrem, nós sofremos.”

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  • Liliane Carlos

    É assim porque a China é comunista. É muito fácil acusar os ocidentais, mas a China invadiu o capitalismo, concorrendo igualmente mas usando mão-de-obra escrava, e as empresas ocidentais precisaram se valer da mão-de-obra chinesa para sobreviverem no mercado. No passado, A URSS empestou o rio Volga, principal rio da Rússia. Em Pequim a poluição é tão grande que é possível ver o ar. É assim porque a ideologia socialista não se importa com os seres humanos.

  • NIl Junior

    Eu já sabia desses absurdos, ainda mais do trabalho semiescravo que os chineses passam para sustentar uma minoria burguesa indiferente. Eu não compro, até porque são fúteis e exploram muitas pessoas ávidas por lucros altos e rápidos. Ocidentais que investem e chineses que vem atrás. Resultado do neoliberalismo sem o bem-estar social.

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