Publicado em - Atualizado em 17/04/2017 às 12:17

Justiça injusta: entrevista com advogado chinês Yu Wensheng – Part 2

O advogado chinês Yu Wensheng em Pequim em 12 de janeiro de 2017. (Fred Dufour/AFP/Getty Images)

O advogado chinês Yu Wensheng em Pequim em 12 de janeiro de 2017. (Fred Dufour/AFP/Getty Images)

Yu Wensheng, um advogado dos direitos humanos na China, deu recentemente uma entrevista para a edição chinesa do Epoch Times. A seguir está a segunda parte. (A primeira parte pode ser lida aqui.)

Epoch Times: Onde você costuma se inteirar das notícias diárias? Você assiste à televisão?

Yu Wensheng: Eu me informo principalmente pela internet. Eu olho primeiramente as fontes de notícias chinesas para obter algumas informações. As notícias não políticas ainda são precisas. Caso contrário, eu preciso contornar o bloqueio da internet para me informar. Eu também obtenho uma compreensão do que está acontecendo em outros lugares por meio de mídias sociais, como o WeChat, ou outros aplicativos de bate-papo estrangeiros.

Eu não assisto muita TV. Em minha opinião, a televisão chinesa se divide em programas de entretenimento ou de lavagem cerebral.

Vejamos os programas sobre os sentimentos antijaponeses, por exemplo. Eu sei claramente que foi o Kuomintang (o governo nacionalista chinês, agora em Taiwan), e não o Partido Comunista Chinês (PCC), que resistiu aos japoneses, mas o Partido diz que eles se opuseram aos japoneses. Isso é claramente falso, então por que assistir? Muitas coisas não são verdadeiras ou coerentes com os fatos históricos. Muitos programas de lavagem cerebral têm obliterado a verdade histórica. É uma completa mentira.

Epoch Times: Não foi a educação que você recebeu como criança parte da propaganda comunista?

Sr. Yu: Sim. A educação que recebemos foi doutrinação e a história que aprendemos era falsa. Quando eu era jovem, eu estava realmente determinado a dedicar minha vida a este país e ao Partido, lutar contra seus inimigos, libertar Taiwan e libertar a América porque os americanos estavam no abismo do sofrimento.

Só quando eu tinha 11 ou 12 anos eu senti que tinha sido enganado. Eu morava numa casa de classe média alta. Meu pai trabalhava numa agência de viagens e podia ler jornais de Hong Kong e de Taiwan. Ele vivia ocupado durante o dia, então ele trazia os jornais para casa para ler. Ele não deixava que nenhum de nós os lesse, mas quando ele ia dormir, eu me levantava e começava a ler os jornais. Assim, eu fui exposto às ideias democráticas estrangeiras. Eu lentamente comecei a questionar a educação que estava recebendo. Isso resultou que eu não me concentrasse em meus estudos no ensino médio ou secundário. Eu sabia que tudo o que era ensinado na escola era absurdo.

Quando eu era jovem, as autoridades chinesas nos diziam para usarmos lenços vermelhos e dar tudo para o Partido. Naquela época eu não considerei: Por que temos de dar-lhes qualquer coisa? Por que devemos nos sacrificar por eles? Qual é a razão? Se você acredita em mim, então você deve morrer por mim; se você não acredita em mim, então eu vou matá-lo. Isso não cria uma espécie de terror? Este é o comportamento de um regime totalitário.

As autoridades controlavam a mídia e não permitiam que outros dirigissem jornais ou programas de TV. Ninguém mais tinha o direito de falar. As autoridades dizem o que quiserem. Se eles dissessem que um mu (uma medida de área chinesa) de terra produzia milhares de quilos de grãos, então isso era inquestionável. No entanto, é tudo mentira e falsificação. A mídia oficial não pode ser confiável. Além disso, a mídia estatal CCTV tornou-se uma ferramenta política das autoridades. Se eles os disserem para mentir, eles têm que mentir, mas como se fosse a verdade. Eles frequentemente transmitem na TV pessoas fazendo confissões em exibições públicas e ensaios de mídia, mas antes do julgamento real. Isso viola as leis básicas do devido processo legal.

Minhas fontes de mídia eram um pouco melhores. Você poderia falar livremente, mas agora até isso não é permitido. Muitas pessoas foram presas por publicar suas opiniões e suas palavras foram apagadas. Minha publicação foi excluída. Apenas eu posso vê-la. A Constituição chinesa consagra a liberdade de expressão, mas na realidade sequer temos a liberdade para dizer o que queremos, então por que chamar isso de liberdade de expressão?

Epoch Times: Como você acha que o status quo da China pode ser mudado?

Sr. Yu: Em primeiro lugar, as pessoas precisam acordar. O povo chinês hoje está dormente. Eles só se preocupam em se proteger. Eles não se preocupam com os outros e só pensam sobre si. Eles não consideram que Nie Shubin, Jia Jinglong e Lei Yang [pessoas que morreram nas mãos das autoridades por defender seus direitos] eram pessoas que estavam do nosso lado. Um dia, podemos nos tornar o próximo Nie Shubin, Lei Yang ou Jia Jinglong. Quando isso ocorrer, quem os ajudará? Se ninguém fala nada, como uma pessoa pode enfrentar um regime poderoso? Isso é impossível. Só se todos realmente despertarem pode haver uma mudança no sistema social.

Não há muitas pessoas que despertaram. Eu me considero desperto. Embora no início eu não tenha corrido para a linha de frente, eu também já fui preso. As autoridades me motivaram a correr para a vanguarda com um advogado de direitos humanos, para me tornar um defensor dos direitos humanos.

As pessoas devem prestar atenção na política. A maioria dos chineses não se importa com a política. Muitas pessoas que estão no exterior estão na periferia. O povo chinês na sociedade norte-americana não tem status. Por quê? Eles só se preocupam em ganhar dinheiro. Eles não se preocupam com os outros. Se eles não se envolvem na política, então a política não se importará com eles ou lhes dará consideração, então eles não têm qualquer status. Só se todos se preocupam com a política, se preocupam com os outros e protegem os seus próprios direitos, então isso pode mudar a sociedade e seu status.

As pessoas também devem aprender a pensar. Por que elas deveriam dar suas vidas ao Partido Comunista? Por que elas devem amar o Partido? Por que elas deveriam amar e agradecer ao governo? O governo e o Partido devem agradecer ao povo! O Partido não nos criou e não nos deu o que comer ou vestir. Nós é que os alimentamos e vestimos. Se não cultivássemos e fabricássemos vários produtos, o que eles comeriam e beberiam? Eles não teriam nada. Na situação atual, para cada dez quilos de alimentos que produzimos, eles tomam nove e nos deixam um. E então eles dizem que nos alimentam. Como isso pode fazer sentido?

Epoch Times: Você pode discutir seu relacionamento com o incidente de 9 de julho?

Sr. Yu: Você quer dizer a caça de advogados de 9 de julho. Eu também fui pego. Na noite de 6 de agosto, a polícia invadiu minha casa e me prendeu. Eu fui abusado nas primeiras 24 horas de detenção. Eles limitaram minhas idas ao banheiro, o que foi muito desumano. Eu estive algemado por trás das costas pelas primeiras 10 horas e algemado pela frente pelas 14 horas seguintes, o que equivale à tortura.

Pouco depois da minha libertação, eu descobri que os dois defensores do advogado Wang Quanzhang, que foi capturado no incidente de 9 de julho, foram pressionados a recusar o caso. Eu procurei Li Wenzu, a esposa de Wang, e disse a ela que eu estava disposto a ser seu agente. Assim, eu me tornei o advogado de defesa de Wang Quanzhang.

Eu fui a Tianjin uma dúzia de vezes. Durante a fase de investigação, eu pedi às autoridades para ver Wang. Mas eles negaram, argumentando que isso poria em risco a segurança nacional. No entanto, a polícia aceitou meu status como advogado de defesa.

Em 7 de agosto de 2016, o caso foi transferido para a Procuradoria, que já não me reconheceu como advogado de defesa de Wang. Eles me dispensaram à força com a desculpa de que Wang Quanzhang teria declarado que não precisava mais de um advogado. De acordo com a lei, deve haver uma notificação por escrito para que o advogado de defesa seja dispensado. Ninguém viu qualquer documento demitindo-me ou ao advogado Cheng Hai. A chamada declaração oral não tem qualquer efeito jurídico.

O incidente de 9 de julho poderia ser chamado de revolução cultural em pequena escala. Em poucos dias, eles suprimiram os advogados e defensores dos direitos humanos. Este tipo de coisa só ocorre em regimes fascistas, contudo isso aconteceu na China no século XXI.

Por meio dos esforços de advogados e suas famílias, o incidente de 9 de julho recebeu atenção internacional. Admiro muito aqueles que “apoiam os caídos” nesta linha de trabalho. Como procurador de Wang Quanzhang, eu fiz um esforço. Mas preciso continuar esse esforço para que Wang possa voltar para casa o quanto antes. Sua esposa Li Wenzu é uma mulher forte e recebeu a aprovação de muitas pessoas em várias esferas sociais ao redor do mundo. Eu apoio e respeito tudo o que ela faz. Também me sinto muito feliz por Wang Quanzhang ter uma esposa tão boa.

Epoch Times: Você procurou o advogado Wang Yu?

Sr. Yu: Em outubro de 2014, eu fui preso por apoiar o Movimento do Guarda-Chuva em Hong Kong. Wang Yu e seu marido Bao Hongjun foram minha defesa. Eles fizeram muito por mim. Sem seu esforço, eu poderia ter sido processado como os outros. Havia 33 pessoas presas na época. Eu fui a única pessoa libertada depois de três meses.

As autoridades dizem que Wang Yu já foi libertada, mas ninguém a viu ainda. Acho que ela perdeu sua liberdade e pode estar em prisão domiciliar. Minha esposa e eu decidimos que deveríamos visitá-la e descobrir sua situação. Fomos a sua antiga casa na Mongólia Interior, mas não a encontramos, o que confirma que a liberdade de Wang Yu não foi verdadeiramente restaurada.

Epoch Times: Você está sendo monitorado atualmente?

Sr. Yu: Quando fui libertado, as autoridades me monitoraram rigorosamente. Havia olhos por toda parte. Às vezes, eu era seguido. Agora, estou acostumado com isso e não tenho mais medo de ser seguido ou monitorado.

Eu escrevi isso no WeChat: “Duas pessoas morrem em sete passos.” O que há para ter medo? É isso o que eu penso. Talvez eu seja um tanto corajoso demais ou muito despreocupado com a morte para o meu próprio bem. Pelo menos, isso expressa meu estado mental: eu sou destemido e não tenho medo. No entanto, eu realmente me preocupo com a segurança dos outros. Mas eu não me importo tanto com a minha segurança.

Uma vez eu saí para comer com alguns amigos quando um policial ligou para um deles para perguntar onde ele estava comendo e se estava com pessoas sensíveis. O policial então disse ao meu amigo para ir embora. Meu amigo observou que havia uma câmera no local e, portanto, eles poderiam claramente ver que eu estava com eles. Foi então que percebi quantas câmeras podiam ser usadas pelas autoridades. Enquanto as autoridades quiserem usá-las, eles podem, e é difícil de prevenir. Não há lugar seguro na China.

Epoch Times: Como você protege sua esposa e filhos em sua condição atual?

Sr. Yu: Antes do incidente de 9 de julho, muitos amigos disseram à minha esposa e filhos que fossem para o exterior, porque muitos familiares de advogados eram frequentemente afetados. No entanto, minha esposa não quis me deixar. Se eu não pudesse escapar, ela não aceitaria a separação. Ela queria estar comigo, então ela nunca partiu.

Eu não queria ir embora também. Permanecendo na China, eu ainda poderia fazer alguma coisa e contribuir para a causa dos direitos humanos. Eu tentaria o meu melhor para evitar riscos e reduzir o perigo e a preocupação para minha família. Minha esposa e eu usamos telefones especiais para que ela possa sempre me encontrar e eu possa informá-la em tempo hábil.

No entanto, na China de hoje, ninguém pode garantir verdadeira segurança. Em face das autoridades, eu não poderia proteger minha esposa e filhos com meu próprio poder. Ninguém pode proteger ninguém. É como a fome da década de 1960, quando dezenas de milhões de pessoas morreram. Quem poderia proteger quem? Uma pessoa não podia salvar a si mesma, muito menos a seus familiares. Qualquer um podia morrer de fome.

Da última vez, a polícia quebrou a fechadura da nossa casa para me prender sem razão, bem diante de minha esposa e filhos. O pensamento das autoridades é que se você não os escuta, então eles o prenderão. Eles têm armas e, para impor sua ordem, eles podem matar qualquer um. Eles podem até tirar nossas vidas um dia. Nas últimas décadas, houve muitos inocentes mortos. Eles são muitos para contar. O número é de dezenas de milhões. Eles não se importam se houver mais alguns. Aos seus olhos, a vida das pessoas não importa. Somente o poder importa.

Sob o regime do Partido Comunista na China, muitas pessoas que pedem democracia seriam mortas. Há muitos Zhang Zhixin, Lin Zhao, etc., todos deram suas vidas desta forma. Quando o regime comunista chegou ao poder, eles mataram milhões de “contrarrevolucionários”. A chamada “fome” matou mais de 40 milhões de pessoas. A Revolução Cultural matou mais alguns milhões. Depois de governar por mais de sessenta anos, quantas mortes não naturais houve? Não há como obter números precisos.

Devido aos esforços internos e externos, a sociedade de hoje parece ter melhorado em comparação com a sociedade do passado. No entanto, desde o 18º Congresso do Partido em 2012, o estado de direito na China tem se deteriorado cada vez mais. As autoridades podem prender qualquer pessoa a qualquer momento.

Ainda assim, as autoridades proclamam que há democracia, liberdade e estado de direito. Eles usam a democracia como um casaco e têm medo de tirá-lo. Se é assim, então devemos exigir que seja fundamentalmente democrático e nos proteger com essas leis, e devemos fazer mais coisas para despertar as pessoas. Se todos despertarem, então a democracia aparecerá naturalmente. Claro, aqueles que andam na frente podem pagar um alto preço, inclusive com suas vidas.

Até onde sei, todos os advogados envolvidos no incidente de 9 de julho sofreram vários tipos de tortura em segredo, que é o meio convencional das autoridades lidarem com prisioneiros políticos. Para que as autoridades mantenham seu controle, uma vez que você é pego, eles te obrigam a ceder. Não se submeter a suas demandas resulta em tortura brutal. Não ceder resultará numa situação em que a vida é pior do que a morte.

Se me prenderem novamente um dia, eu enfrentarei tudo calmamente. Se eu perder minha vida, espero que a comunidade internacional e os defensores dos cidadãos cuidem bem da minha esposa e de meus filhos.

Leo Timm contribuiu para este artigo.

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