Direito ao isolamento

Tribos isoladas no Brasil, em 2008 (Gleison Miranda/Funai)
Tribos isoladas no Brasil, em 2008 (Gleison Miranda/Funai/Survival International)

Imagens surpreendentes tiradas de uma tribo brasileira isolada há alguns anos chamaram a atenção das pessoas. Alguns ficaram surpresos ao saber que, com a Nasa enviando sondas espaciais aos planetas em busca de vida, ainda há pequenos grupos humanos em nossa própria Terra que permanecem em total isolamento do resto do mundo.

Tribos isoladas hoje residem em diferentes continentes, incluindo Ásia, Oceania, América do Sul e em áreas de densas florestas.

De acordo com Glenn Shepard, antropólogo do Museu Goeldi, em Belém,  os grupos mais isolados na floresta amazônica vivem ao longo das áreas de fronteira entre o Peru, Brasil, Bolívia e Colômbia.

É difícil saber a maneira exata de como estas tribos vivem e evitam o contato com o mundo exterior, embora alguns estudos possam ser feitos seguindo seus vestígios na floresta.

Isolamento para escapar do massacre

Glenn, que já trabalhou com diferentes tribos indígenas no Peru, Brasil e México por 25 anos, diz que os grupos mais isolados optam pela decisão de se afastar pois tiveram no passado um contato que marcou suas vidas: o massacre em larga escala do ciclo da borracha na Amazônia, na virada do século.

“As condições de trabalho desumanas e punições cruéis dos seringueiros na região Putomayo, entre Peru e Colômbia, foi denunciado ao Congresso dos EUA e ao governo britânico em 1913”, diz Glenn.

Um grande número de povos indígenas morreram como resultado dessas condições, e muitos outros se assimilaram aos grupos locais. Alguns, no entanto, decidiram pelo isolamento, explica Glenn.

“Alguns deles permanecem isolados até hoje”

Mudança na política

No início, no processo de colonização, a política indigenista do governo brasileiro era a de atrair e contatar os povos indígenas e tê-los integrados na sociedade. Mas, de acordo com a Fundação Nacional do Índio (Funai), o resultado observado com o tempo foi que essas políticas levaram à morte e à condições sub humanas de vida para alguns indígenas.

Após a constituição de 1980 , a política indígena brasileira se transformou de uma noção de integração para uma na qual se reconhece os costumes, línguas, crenças e direitos sobre as terras dos povos indígenas.

“A política adotada para os povos isolados passa, então, de uma ação de contato forçado para uma conduta de proteção e promoção dos seus direitos”, diz um representante da Funai.

“Isso quer dizer que o desejo destes povos de permanecerem isolados deve ser respeitado e, mais, o Estado deve proporcionar as condições para que isso ocorra”.

Hoje, a Funai monitora o território das tribos isoladas para afastar pessoas de suas áreas. “Existem 32 referências de índios isolados confirmadas, além de outras ainda em estudo. Cada grupo com referência já confirmada possui uma grande quantidade de informações sistematizadas, e seus territórios são monitorados de forma permanente e ininterrupta”, diz o representante da Funai.

Encontro mortal

As tribos atuais são deixadas sem contato pois encontros íntimos poderiam expor seus membros à contaminação por doenças infecciosas que resultaram em muitos encontros trágicos que provocaram uma elevada mortalidade dos membros da tribo no passado.

A probabilidade de confronto violento entre as pessoas das tribos e as que vêm de fora sobre suas terras é outro motivo para evitar o contato.

Glenn, que escreve e cria documentário sobre os povos da América do Sul, apresentou uma experiência com o grupo isolado nômade de Mashco-Piro. A tribo matou um de seus amigos nativos – que pensava estar ajudando-os em seu contato – mas aparentemente os assustou.

Os indígenas Mashco-Piro, explica Glenn, isolaram-se e abandonaram a agricultura depois de terem sido massacrados pelos caçadores da borracha.

“É importante respeitar o isolamento [das tribos] pois isso equivale a respeitar seu direito à sobrevivência”, diz Glenn.

“Alguns turistas têm um fascínio para ver indígenas primitivos, nus e “puros”, como se fosse uma espécie de ‘Jurassic Park’. O que alguns não percebem é que eles só querem ser deixados em paz, e não respeitar essa decisão, pode ser muito perigoso “, disse.

Este artigo faz parte do Especial Amazônia. Para conhecer os outros artigos, clique aqui.

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