A crise global da água

Água é vida. A água é o novo petróleo. Água é poder.

A água potável que sustenta a vida está sumindo. Ela está se tornando um recurso cada vez mais escasso em todo o mundo devido ao uso excessivo e à poluição. À medida que essas questões se intensificam, focos de tensão que já existem irão crescer e isso afetará a todos nós.

Alguns dizem que a água é o novo petróleo. Mas, ao contrário do petróleo, a água é essencial para a sobrevivência.

Uma observação aprofundada na situação da água do planeta revela que nas próximas décadas, todos os países, incluindo os Estados Unidos, terão que determinar como tratar a água como um bem econômico, um direito humano e um recurso esgotável.

Um olhar atento sobre três áreas-chave – Estados Unidos, Oriente Médio e China – mostra uma gama de desafios.

A América é simultaneamente rica em água e vive uma seca prolongada. Os casos de água potável contaminada estão aumentando, assim como as tensões com seus vizinhos sobre os recursos hídricos compartilhados.

Em 2025, estima-se que dois terços da população mundial viverão em áreas estressadas pela água, concentradas no Oriente Médio, Norte da África e Ásia Ocidental, de acordo com o World Resources Institute (WRI). A escassez de água, agora reconhecida como um fator fundamental que contribui para a guerra na Síria, quase certamente criará mais conflitos e mais refugiados.

A China, a nação mais populosa do mundo, é também a pior poluidora de água do mundo. Depois de décadas de políticas comunistas de desenvolvimento baseadas no slogan maoísta de “fazer a alta montanha curvar seu cume, fazer o rio gerar o caminho”, a gigante nação está ficando sem água potável e sem opções.

Reconhecendo que a água potável não poderia mais ser considerada um recurso renovável, as Nações Unidas declararam em 2010 que o acesso à água potável e ao saneamento é um direito humano. E foi incluído nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, aprovados por todos os 193 Estados-membros no ano passado, um compromisso para garantir o acesso universal à água potável até 2030. O Banco Mundial estima que isso exigirá mais de 1,7 trilhão de dólares para alcançar.

Tentar pintar um quadro do estresse hídrico em toda a América do Norte é complicado, enquanto a poluição, a seca e as disputas fronteiriças desempenham um papel. As questões vão desde a deterioração da infraestrutura em Nova York até o esvaziamento de aquíferos no Centro-Oeste.

Tensões nas fronteiras

EUA-Canadá

Os Estados Unidos são uma região de “alto estresse” segundo o WRI, enquanto o Canadá é uma região de “baixo estresse”.

No Canadá, que tem 20% da água potável do mundo, é um tabu para os políticos sequer sugerirem o apoio a exportações de grandes volumes de água.

No entanto, restrições ambíguas ao comércio de água do Canadá podem expô-lo a acusações de violar as regras do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA), que impede os países de tratar as empresas nacionais mais favoravelmente do que as empresas estrangeiras. O Canadá pode assim ser forçado a exportar em massa, à medida que a situação da água global, e particularmente a estadunidense, se torna mais desesperadora.

Gary Doer, ex-embaixador canadense nos Estados Unidos, previu em 2014 que nos próximos dois anos as disputas EUA-Canadá sobre a água se tornarão tão intensas que fará com que os atritos a respeito do oleoduto Keystone XL “pareçam ridículos”.

EUA-México

Dois grandes recursos hídricos, o Rio Colorado e o Rio Grande, são compartilhados pelos Estados Unidos e o México. Os tratados definem a quantidade de água atribuída a cada país a partir dessas fontes. Mas a escassez do fornecimento do México nos últimos anos tem irritado algumas partes interessadas estadunidenses, que afirmam que o México prioriza seu próprio uso da água enquanto os EUA priorizam as entregas acordadas e destinadas ao México.

Por outro lado, as partes interessadas mexicanas se mostraram irritadas no passado por entregas de água de baixa qualidade dos EUA que eram inadequadas para beber ou uso agrícola. A água é “entregue”, liberando-a em reservatórios e limitando o quanto é desviado para o uso em cada país.

Comunidade versus corporações

Propostas de instalações de engarrafamento de água têm enfrentado resistência da comunidade em toda a América do Norte. McCloud, na Califórnia, é um exemplo de uma pequena cidade com uma fonte de água pura cobiçada pela Nestlé, uma das maiores empresas de engarrafamento, que possui 56 marcas.

A proposta inicial da Nestlé em 2003 era construir a maior fábrica de engarrafamento do país (93 mil metros quadrados), que extrairia enormes volumes de água da bacia hidrográfica de McCloud durante 50 anos. Isso também resultaria em centenas de caminhões circulando pela cidade diariamente para transportar a água enquanto criariam poluição do ar e sonora. Por fim, a empresa reduziu o seu plano e, em 2009, finalmente desistiu do projeto, após seis anos de resistência local.

O porta-voz da Nestlé, Christopher Rieck, afirmou por e-mail que a água engarrafada é uma fonte confiável de água potável em caso de emergência. Além disso, ele disse que o uso da água para engarrafamento não é diferente de “outros na indústria que usam a água para produzir alimentos, bebidas e manufaturados”.

A Associação Internacional da Água Engarrafada observa que a água engarrafada representa apenas uma minúscula parcela do uso da água nos Estados Unidos, ou, por exemplo, 0.02% de toda a água usada na Califórnia anualmente.

Poluição

A poluição da água não se limita a torneiras em Flint, Michigan, mas é um problema nacional. Enquanto a água da torneira tem dominado as manchetes, um estudo do Environmental Working Group com amostras de água coletadas ao longo de cinco anos encontrou mais de 300 poluentes, dois terços dos quais são “substâncias químicas não regulamentadas”, na água da torneira dos EUA. As vias fluviais são submetidas a produtos químicos provenientes de escorrimento agrícola e vazamentos de sistemas sépticos, de tal forma que 40% dos rios e 46% dos lagos da América estão muito poluídos para a pesca, a natação ou a vida aquática.

Uso excessivo da irrigação

A agricultura usa cerca de 80% da água consumida na América e mais de 90% nos estados do oeste americano.

A irrigação suprida pelo Aquífero Ogallala, que se estende por oito estados desde a Dakota do Sul até o Texas, alimenta mais de um quarto de toda a área irrigada nos Estados Unidos usada para gado, milho, algodão e trigo. É o que fez o Centro-Oeste do país ser chamado de “celeiro da América”.

Mas o Ogallala é um excelente exemplo de uma fonte de água, outrora considerada infinita, que agora mostra sinais de grande tensão devido à drenagem insustentável. Em 1960, ele estava esgotado em 3%; até 2010, ele foi reduzido em 30%. Em outros 50 anos, 69% terá desaparecido, se as tendências atuais continuarem, dizem pesquisadores da Universidade Estadual do Kansas (KSU).

Os esforços de conservação estão começando, mas não são soluções rápidas. “Uma vez esgotado, o aquífero levaria uma média de 500 a 1300 anos para se reabastecer”, segundo o modelo da KSU apresentado em seu relatório.

Infraestrutura envelhecida

Infraestrutura deteriorada no abastecimento de água é um problema em todo o país. De acordo com a Agência de Proteção Ambiental dos EUA, cerca de 240 mil interrupções de água ocorrem por ano no país. Existem cerca de 75 mil esgotos sanitários descarregando bilhões de litros de águas residuais não tratadas, contaminando as águas recreativas e causando cerca de 5.500 casos de doenças. A infraestrutura de água potável exigirá mais de 384 bilhões de dólares em 20 anos para continuar a fornecer água potável para a população.

Seca

A Califórnia está em seu sexto ano de seca severa. Juntamente com outras políticas de conservação, em abril de 2015, o governador Jerry Brown anunciou as primeiras restrições obrigatórias do estado sobre a água potável, visando uma redução de 25%.

A seca também está afetando as regiões Sudeste e Nordeste, na medida em que quase 47% da população está agora sendo afetada; e espera-se outro inverno seco.

Soluções

Eficiência e conservação

A Califórnia é um dos estados mais atingidos pela seca, mas Los Angeles foi nomeada a segunda cidade mais eficiente do mundo (depois de Copenhague), de acordo com o Índice de Cidades Sustentáveis em Água ​​de 2016, da consultoria Arcadis. São Francisco também está bem posicionada. Ambas as cidades possuem altos níveis de reutilização.

A conservação também é uma solução importante. Regulamentos de medição na Califórnia e ferramentas para identificar o desperdício de água tiveram um grande impacto nisso.

A reciclagem de águas residuais é muitas vezes a solução mais rentável para o estresse hídrico.

Cynthia Lane, diretora de engenharia e serviços técnicos da American Water Works Association, é uma grande defensora da reciclagem de águas residuais para água potável, embora ela tenha notado que “o público em geral não está exatamente interessado em águas residuais tratadas”.

A dessalinização enfrenta mais complicações devido a licenças legais, disse Lane, porque ocorre na costa. O custo do descarte dos resíduos da água salgada também pode ser elevado, explicou Schneider. As importações em massa são outra solução e cada região tem que determinar por si mesma o que é mais benéfico em termos de custos econômicos, sociais e ambientais, disse Lane.

Para quem não vive na região, as questões do Oriente Médio parecem girar em torno da guerra, do petróleo e dos direitos humanos. Mas para quem vive na região, é conhecimento comum que a água é tão fundamental para a estabilidade como para a prosperidade. Oito dos dez países do mundo mais “estressados ​​por água” estão no Oriente Médio. Eles estão sujeitos à desertificação, desaparecimento de lençóis freáticos, secas de vários anos, disputas internacionais sobre direitos de água e práticas deficientes de uso da água; tudo isso agrega volatilidade a uma região já tensa.

Água e política

No Oriente Médio, água e política estão intimamente ligadas. Os acordos transfronteiriços típicos tratam a água como um recurso divisível. Mas de acordo com o economista de recursos naturais David B. Brooks, embora os acordos possam ajudar a prevenir conflitos no curto prazo, eles não garantem a gestão sustentável e equitativa da água no longo prazo.

Como é o caso do conflito israelense-palestiniano. Durante o verão quente de 2016, quase 2,8 milhões de residentes e líderes locais árabes na Cisjordânia reclamaram repetidamente de terem sido negados o acesso à água potável. Israel culpa os palestinos por não se sentarem para negociar como atualizar a infraestrutura defasada. De acordo com os acordos de Oslo, Israel controla os recursos hídricos. Um comitê conjunto israelense-palestino destinado a trabalhar nestas questões não se reúne há mais de cinco anos.

Essa complexa sobreposição de política e necessidades humanas básicas é semelhante em grande parte do Oriente Médio.

Bacia do Rio Jordão

O sistema do Rio Jordão, que flui através do Líbano, Síria, Israel, Cisjordânia e Jordânia, é um dos focos de constante conflito entre Estados locais a respeito da água. Ele tem sido uma fonte de tensão entre Israel e os Estados árabes há mais de 60 anos.

Em 1953, Israel iniciou o projeto Transporte Nacional de Água, uma rede de dutos de 130 quilômetros para transportar água do mar da Galileia, no norte, até o Deserto do Negev, no sul. Uma década mais tarde, quando o megaprojeto estava completo, a Síria tentou bloquear o acesso de Israel às grandes reservas dessa água por meio do Plano de Desvio da Cabeceira. Israel atacou esses esforços de desvio, que provou ser um fator-chave que levou à Guerra dos Seis Dias em 1967.

Pobreza de água

A capacidade dos líderes ​​de atender às necessidades básicas de água pode ser frustrada por conflitos, o que aumenta a pressão sobre situações já difíceis.

A Organização Mundial de Saúde estabelece o acesso mínimo à água diária por pessoa em cerca de 7,5 litros por dia. Muitos descrevem a existência humana abaixo deste limite como “pobreza de água”.

A demanda de volume de água mais que duplica numa emergência, como numa guerra. Para manter a higiene pessoal e lidar com alimentos corretamente, muito mais água é necessário por indivíduo: cerca de 20 litros por dia. O número sobe para lavar roupas e tomar banho.

Iêmen em perigo

Embora tecnicamente o Yemen não seja tão estressado por falta d’água quanto muitos de seus vizinhos, ele tem um problema especial: sua capital Sanaa e outras cidades estão em perigo iminente de ficar sem água. As estimativas variam entre um ano e uma década, se nada for feito.

A maior parte da água no Iêmen vem de aquíferos subterrâneos. Os métodos tradicionais de irrigação baseavam-se nessa água numa taxa sustentável, mas uma crescente população urbana e a preferência por culturas de cultivo mais intensivas em água (particularmente qat, um narcótico brando) estão fazendo com que a água do país aprofunde-se cerca de 2 metros por ano.

Os problemas de água do país foram exacerbados pela guerra civil e pelo desastre humanitário em curso. Três quartos da população, cerca de 20 milhões de pessoas, não têm acesso à água potável e/ou saneamento adequado.

O termo “refugiados da água” tem sido usado para descrever o que poderia ocorrer aos 2,9 milhões de habitantes da capital se a situação atual continuar.

Síria: seca e guerra civil

O Oriente Médio ainda não viu uma guerra explicitamente em função da água, mas a escassez de água agravou outros fatores que geram conflitos.

Enquanto a guerra devastadora na Síria é agora um problema global, a conexão entre conflito e seca só recentemente entrou na consciência geral.

De 2006 a 2010, a Síria foi atingida por uma seca épica, a pior em 900 anos. Ela devastou o gado, inflacionou os preços dos alimentos e empurrou cerca de 1,5 milhão de agricultores de suas terras secas para as cidades. O afluxo de refugiados da água, bem como o elevado desemprego e outras tensões, intensificaram a agitação civil que eventualmente levou à guerra civil, de acordo com conclusões recentes de especialistas.

A crise foi em parte criada por uma política mal concebida 30 anos antes. Na década de 1970, o presidente Hafez al-Assad (pai do atual presidente Bashar al-Assad) decretou que a Síria deveria ser autossuficiente em termos agrícolas. Os agricultores cavaram poços mais e mais profundos para acessar os lençóis freáticos do país, até que eventualmente os poços secaram.

Soluções

Gerenciamento da água

Pobres práticas de gestão da água criaram pelo menos alguns dos problemas da água na região, mas muitos especialistas concordam que abordagens mais inteligentes poderiam ajudar a reverter alguns desses efeitos. Por exemplo, estudos são necessários para determinar o número de animais que a terra pode suportar. A conservação poderia ser incentivada por meio do emprego do conceito de custo da água. Na Síria, um projeto experimental de irrigação por gotejamento se popularizou rapidamente depois que os agricultores viram que poderiam usar 30% menos água para obter 60% mais produção.

Dessalinização

A dessalinização faz parte da solução há mais de 50 anos no Oriente Médio. Dado que 97% da água do planeta é água salgada, é uma opção atraente, mas tem suas desvantagens. Por um lado, é altamente intensiva em energia, portanto, a maioria das fábricas foi construída em países ricos em petróleo como a Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Bahrein. Por outro lado, o sal que fica para trás no processo, frequentemente é despejado de volta no oceano, prejudicando a vida marinha.

Pesquisadores israelenses desenvolveram recentemente um sistema muito mais eficiente chamado dessalinização por osmose reversa, que usa membranas com poros microscópicos que permitem a passagem da água mas não das moléculas maiores de sal. O sistema foi revolucionário para Israel, e fornece agora 55% da água da nação.

De acordo com o budismo, os quatro elementos (água, fogo, ar e terra) compõem tudo no cosmos. No entanto, um dos quatro elementos tem sido tão maltratado na China que atualmente um quarto da população do Reino do Meio não tem acesso à água potável.

Poluição generalizada

Relatórios oficiais na China geralmente tentam evitar que o regime crie uma má impressão. Mas quando se trata do estado terrível dos recursos hídricos da China, pouco pode ser dito de positivo.

As autoridades estimam que cerca de 80% das águas subterrâneas da China não são aptas para beber, e 90% das águas subterrâneas nas áreas urbanas estão contaminadas. Eles classificam quase dois quintos dos rios da China como sendo inadequados para o uso agrícola ou industrial.

Mais de 360 ​​milhões de pessoas, ou cerca de um quarto da população do país, não têm acesso à água limpa.

Desde 1997, disputas de água resultaram em dezenas de milhares de protestos a cada ano.

As principais fontes de poluição da água na China vêm da fabricação de produtos químicos, fertilizantes, papel e vestuário.

De acordo com um relatório oficial, 70% dos rios e lagos da China estão tão poluídos que não conseguem sustentar a vida marinha. A poluição no Yangtzé, o rio mais longo da China, causou a extinção do golfinho baiji, um mamífero nativo apenas do Yangtzé.

O segundo maior rio, o Rio Amarelo, é conhecido como o berço da civilização chinesa. Ele também é chamado de “Rio das Aflições” por causa de sua história de inundações devastadoras. Hoje, essa tristeza se refere a um tipo diferente. As 4 mil fábricas petroquímicas em suas margens poluíram suas águas além da recuperação.

Escassez de água

A China é um dos países ​​do mundo mais estressados por água. A China tem um quinto da população mundial, mas menos de 7% da água potável.

A maior parte dessa água, cerca de 80%, é encontrada no sul do país. No entanto, o norte da China concentra a maior parte da agricultura e manufatura do país, além de grandes centros populacionais como a capital Pequim.

Enquanto um mapa pode mostrar centenas de rios e riachos fluindo para Pequim, no solo real praticamente todos secaram. Nos anos 80, as águas subterrâneas de Pequim eram consideradas inesgotáveis, mas sendo bombeadas mais rapidamente do que podem ser repostas, elas já retrocederam mais de 305 metros de profundidade nos últimos 40 anos.

Em 2005, Wang Shucheng, um ex-ministro de recursos hídricos, previu que Pequim ficaria sem água em 15 anos.

Projeto de Transferência de Água Sul-Norte

A tentativa do regime de corrigir a escassez de água no norte é o Projeto de Transferência de Água Sul-Norte, um sistema de canalização que percorre cerca de 4345 quilômetros, ou o equivalente a transportar água de Nova York até Los Angeles.

O projeto, considerado pelo regime como uma proeza de engenharia e fonte de prestígio, tem sido amplamente criticado por seu alto custo (81 bilhões de dólares até agora) e pela deslocação forçada de centenas de milhares de pessoas que vivem no caminho da construção.

Em 2010, milhares protestaram na província de Hubei, quando as autoridades os removeram à força de suas casas sem praticamente qualquer aviso. Aqueles que resistiram foram presos.

Ambientalistas dizem que o transporte de água poluída do sul não resolverá as questões do norte de forma alguma. Um funcionário chinês chegou a notar que o projeto criará novos problemas ambientais e “não tem nada de sustentável”.

Origens dos problemas de água

A maioria dos problemas de água da China é visto como um legado das políticas do Partido Comunista.

“Fazer a alta montanha curvar seu cume, fazer o rio gerar o caminho” soou como um slogan popular de propaganda comunista durante o reinado de Mao Tsé-tung (1949-1976). Para isso, foram construídos diques no Rio Amarelo para melhorar o transporte marítimo e reservatórios de desvio de água foram construídos a montante. O número de barragens na China subiu de 22 em 1949 para mais de 87 mil hoje.

O regime maoísta procurou “espremer cada última gota de água da Planície Norte da China”, escreveu David Pietz, professor de história chinesa e catedrático UNESCO de história ambiental da Universidade do Arizona.

As tentativas chinesas de industrialização em massa durante a política de Mao do Grande Salto para Frente (1957-1962) produziram enormes quantidades de esgoto e resíduos, e esses poluentes foram descarregados sem tratamento nos rios.

Por exemplo, no Rio Hai, que conecta a província de Tianjin a Pequim, 674 sistemas de esgoto descarregam 4400 litros de água poluída por segundo, o que tornou o Rio Hai turvo, salgado e fétido.

Economia pós-Mao

As tentativas de reforma da economia e do setor agrícola na era pós-Mao pioraram os problemas de água na China.

À medida que indústrias surgiam em todo o país, mais e mais água foi sendo consumida. Devido à falta de regulamentação ambiental, os resíduos industriais eram comumente despejados sem tratamento nos rios e em outros corpos d’água.

Uma população crescente e o aumento dos padrões de vida na China também pressionaram os agricultores chineses a cultivarem mais alimentos. Os aldeões competiam pelo acesso aos canais de irrigação e as tensões provocaram atos de sabotagem.

Em 1997, o Rio Amarelo finalmente se rendeu, ele secou desde a foz do rio no Mar de Bohai até cerca de 643 quilômetros terra adentro.

Um relatório de 2008 da Universidade Sun Yat-sen observa que 13 mil das 21 mil fábricas petroquímicas nos rios Yangtzé e Amarelo descarregam bilhões de toneladas de águas residuais por ano.

Multiplicação das vilas de câncer

A quantidade de fertilizantes químicos, esgotos não tratados, metais pesados ​​e outros carcinógenos descarregados nos corpos d’água da China deram origem ao fenômeno de “vilas de câncer”, ou comunidades com taxas de câncer acima da média. Uma reportagem investigativa de 2005 descobriu que a incidência de câncer em algumas dessas vilas é 19 a 30 vezes maior do que a média nacional.

Embora notícias sobre vilas de câncer tenham surgido pela primeira vez na década de 1990, o regime chinês só reconheceu a sua existência em 2013. A Xinhua, a mídia estatal porta-voz do regime, informou que haveria mais de 400 vilas de câncer.

Um exemplo é a vila de Yantou, na província de Zhejiang, onde as taxas de mortalidade por câncer aumentaram de forma alarmante: de 20% entre 1991 e 1995; para 34% de 1996 a 2000; para 55,6% de 2001 a 2002. O momento do aumento da incidência de câncer coincidiu com a instalação de uma fábrica farmacêutica perto da vila.

Problemas no Mekong

O Rio Mekong é vital para o Sudeste Asiático, ele flui do planalto tibetano e atravessa o Camboja, Birmânia, Laos, Tailândia e Vietnã.

Por meio de projetos expansivos de represamento, particularmente os construídos no Rio Mekong, a China tem estrangulado a água da região e, não sem razão, tem sido culpada por agravar os efeitos das secas na região.

As tensões em torno da água continuam elevadas na região, com uma variedade de fatores contribuindo: total falta de transparência (a China não é a única nação a construir barragens); uma abordagem egoísta de gestão e uso da água; e a falta de um mecanismo eficaz de coordenação.

Soluções

Falar de soluções no que diz respeito à China é um exercício interminável, dado o alcance dos problemas e o fato de que a vontade política é o ponto de partida para qualquer ação significativa.

No entanto, um estudo recente da The Nature Conservancy vê uma oportunidade no fato de que menos de 6% da massa terrestre da China fornece 69% da água do país. Por conseguinte, o texto sugere que os esforços sejam concentrados nas pequenas bacias hidrográficas que abastecem as zonas urbanas. As soluções para melhorar a qualidade da água nessas bacias hidrográficas incluem restauração florestal, práticas agrícolas mais eficientes e outras boas práticas de conservação.

 
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