Biden: o que muda nas relações EUA-Brasil?

Dada a proximidade dos oficiais do novo presidente-eleito à abordagem dos anos de Obama, pode-se estimar risco de mais espionagem no futuro.

Por Marcos Schotgues

Durante os últimos meses, a eleição presidencial dos EUA foi o centro das atenções do mundo. Em meio a controvérsias, confirmou-se que Joe Biden assumiria o cargo de presidente dos EUA a partir de 20 de janeiro deste ano.

Como principal poder econômico e militar do mundo e segundo maior parceiro de negócios do Brasil, os EUA exercem influência imensa sobre o maior país da América do Sul.

Como o governo de Joe Biden afetará as relações EUA-Brasi l? Ponderando as informações disponíveis, analisaremos possíveis tendências em dois aspectos das interações entre os países.

1. Espionagem:

Joe Biden retorna à Casa Branca após trabalhar 8 anos como vice-presidente de Barack Hussein Obama, entre 2009 e 2017. Documentos vazados pelo dissidente americano Edward Snowden e pelo website Wikileaks, acreditados pelo senado brasleiro, e pela BBC, entre outros veículos, demonstram que um período com atividade de espionagem intensa dos EUA sobre o Brasil ocorreu durante a gestão da chapa Obama-Biden. 

Foi comprovada a ocorrência de atos de espionagem em 2013 e novamente em 2015, envolvendo monitoramento de telefonemas, e-mails e mensagens da ex-presidente Dilma Rousseff e do ex-ministro Nelson Barbosa entre pelo menos 27 outros alvos, incluindo embaixadores e a direção do Banco Central.

À época, James Clapper comandava as agências responsáveis pela espionagem americana. A escolha de Biden para o comando máximo de inteligência agora é Avril Haines. Haines trabalhou na CIA e na Casa Branca em ampla proximidade com Clapper durante a vice-presidência de Biden. O próprio James Clapper a elogiou. Ela é uma entre mais de 15 altos oficiais nomeados por Biden que retornarão ao governo americano após trabalhar sob Obama. Quase 60% do gabinete do novo presidente, incluindo muitos responsáveis da inteligência, estão nesta categoria 

Dada a diferença de alinhamento político e ideológico entre o vindouro governo Biden e a gestão Bolsonaro, e a proximidade dos oficiais do novo presidente-eleito à abordagem dos anos de Obama, pode-se estimar o risco de um retorno a mais espionagem no futuro.

2. A Amazônia

No debate presidencial americano de 30 de setembro, Biden afirmou que sua postura envolveria oferecer mais de 20 bilhões de dólares ao Brasil para que fosse encerrado o desmatamento da floresta amazônica. Caso não surtisse efeito, ameaçaria retaliação econômica. 

O presidente-eleito não forneceu detalhes a respeito do que o suposto auxílio financeiro ou a suposta retaliação envolveriam.

O presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, respondeu via twitter, comentando que a soberania brasileira é inegociável e que seu governo está realizando “ações sem precedentes para proteger a Amazônia”.

Na gestão Trump, medidas colaborativas entre os dois países vinham sendo intensificadas, incluindo a visita de altos oficiais e o estabelecimento de ações para combater o desmatamento e promover o desenvolvimento regional.

Resta saber se o atrito entre o líder brasileiro e o novo presidente estadunidense será fator impeditivo para a sequência do diálogo e destas medidas e se o tom ameaçador usado por Biden no debate presidencial se fará presente na gestão efetiva da coisa pública.

 

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