“Senhor, que tolos esses mortais”

Puck:

Capitão da nossa banda de fadas,
Helena está aqui na mão,
E a juventude, confundida por mim,
Pleiteando pagamento de um amante.
Devemos assistir ao seu espetáculo apaixonado?
Senhor, que tolos esses mortais!

“Sonho de Uma Noite de Verão”, Ato Três, cena 2, 110-115.

Pensei recentemente na citação acima, recitada por Puck, personagem shakespeariano de “Sonho de Uma Noite de Verão”, não somente porque o verão está finalmente sobre nós, mas porque li um artigo no The New York Times sobre um novo sanduíche da Dunkin’ Donuts com ovos e bacon que, absurdamente suficiente, é servido entre duas rosquinhas cobertas com calda.

Agora, o artigo não se trata de Dunkin’ Donuts. É sobre por que os seres humanos falham repetidamente em fazer escolhas alimentares saudáveis. O artigo me fez pensar não apenas nos demônios da dieta, mas também em outras ações que os seres humanos tomam que nem sempre são de nosso interesse, como continuar a sair com alguém que bebe demais no primeiro encontro, ou ficar com raiva de um amigo próximo que você sente ter te ignorado, ou mimar-se depois de receber um grande bônus, mesmo sabendo que você está em divida.

Diversas vezes, nós, seres humanos, seres racionais, como nós afirmamos ser, agimos como tolos, confiando inteiramente em nossas emoções para nos guiar e tomar decisões que não provêm de pensamentos calmos ou fundamentados, mas baseadas no medo, na ansiedade, na inveja ou no desejo impulsivo. Nós fazemos as coisas satisfazer caprichos, e posteriormente justificamos o nosso comportamento com racionalizações para nos sentirmos melhor.

“Bem, nós estávamos em um bar, e nenhum de nós tínhamos que trabalhar no dia seguinte, por isso não pareceu muito ruim ele ter bebido duas cervejas e dois coquetéis em nosso primeiro encontro”.

“Claro, ela é a minha melhor amiga, e ela sempre esteve por perto, mas é errado que ela não tenha me ligado nos últimos. Eu disse a ela um milhão de vezes que estou em casa com gripe. Ela é tão egoísta”.

“É verdade que eu tenho dívida no cartão de crédito, mas é o meu primeiro grande prêmio, e eu tenho trabalhado duro nos últimos dois meses, então, eu posso me dar ao luxo de gastar tudo em uma garrafa de champanhe e um bife esta noite”.

Como podemos lutar contra o impulso de deixar as nossas emoções – a criança que há dentro de nós – ditarem nossas ações? A única coisa que não quero fazer é, metaforicamente, bater ou punir a criança que abrigamos, e dizer que ela é ruim e precisa deixar de ser exigente.

Tratar as suas emoções como se fossem crianças más não funciona porque, assim como acontece com crianças, dizer a nós mesmo para não sentir o que estamos sentindo, só nos deixa mais tristes, raivosos, magoados e confusos, o que nos leva a agir de maneiras piores.

A tática é ouvir a sua criança, neste caso suas emoções, e descobrir o que elas realmente querem ou como você pode apaziguá-las, de forma responsável, sem permitir que cause danos a si ou para outros.

O dialogo  que você pode ter com suas emoções pode parecer um pouco com isso:

“Eu sei que você está se sentindo só, e eu sei que você quer sair com aquele cara de novo, mas ele estava bebendo muito, e isso não é bom para você. Por que não vamos para algum lugar divertido, onde não se trata apenas de beber, para encontrar alguém que se ajuste melhor às minhas expectativas?”

“Eu sei que a sua amiga te deixou zangado, mas antes de gritar, pense nas vezes em que ela esteve perto de você. Talvez você tenha ficado mais chateada agora porque está doente. Que tal eu lhe fazer o seu prato favorito, e em seguida, vamos ligar para ela assim que você se sentir melhor?”.

“Sim, seria legal celebrar seu grande aumento, e eu sei que você se sentiria inicialmente feliz, mas como você vai se sentir daqui a um mês, quando a fatura do seu cartão de crédito vier e a dívida continuar lá? Vamos deixar metade do bônus para mais tarde, e quando a dívida do cartão estiver paga, então você pode realmente apreciá-lo”.

Em outras palavras, você tem que ser um pai amoroso com os seus sentimentos. Não se entregue a eles e não os dê todos os seus caprichos, mas também não os condene simplesmente por eles quererem o que eles querem.

Falando nisso, o que você acha que aconteceu com a pessoa da história do New York Times, que comeu o sanduíche da Dunkin’ Donuts com ovos e bacon? Meu palpite é que a pessoa está tendo uma séria dor de barriga… agora mesmo.

Dra. Wylie Goodman é uma psicóloga clínica que trabalha via Skype e pessoalmente em seu escritório em Nova York. Sua pratica é especializada em integrar abordagens budistas para o bem-estar mental com metodologias ocidentais baseadas em teorias cognitivo-comportamentais e existenciais
www.eastwestpsychotherapy.com

 
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