O segredo obscuro das exposições de corpos plastinados

Uma exposição chinesa de corpos submetidos à plastinação tem gerado forte oposição do público, devido ao mistério acerca da origem dos corpos. Investigações apontam para a possibilidade de que aqueles corpos eram de pessoas saudáveis, que foram assassinadas para a exposição de seus corpos. Uma das peças mais chocantes, que levantou uma série de questões na comunidade, trata-se de uma múmia grávida de um feto.

Um membro da equipe da exposição disse que os corpos plastinados, ou partes dos corpos, eram de pessoas reais. Quando perguntado de onde vieram os corpos, ele disse que foram doados, mas que não iria fornecer mais detalhes.

A resposta do membro da equipe projeta uma sombra de dúvida sobre as origens dos corpos presentes na exposição.

Origem misteriosa dos corpos

A origem desses corpos não é clara, mas a maioria deles, se não todos, é chinesa. Devido às suas crenças herdadas do confucionismo, os chineses são relutantes em doar seus órgãos, muito menos em colocar seus corpos para exibição depois que a pele é removida.

Semelhante a “BODIES – The exhibition”, esses corpos foram plastinados pelo médico Sui Hongjin, professor da Universidade Médica de Dalian. Sui foi estudante de Gunther von Hagens, inventor da técnica de plastinação, e mais tarde se separou de seu mentor para fechar uma parceria com a Premier Exhibitions, com o objetivo de realizar esses tipos de exposições em diversos países.

Nem Sui nem von Hagens, dono da exposição Body Worlds, poderiam fornecer documentos para mostrar que esses corpos eram de doadores voluntários. Um relatório da estação de rádio americana National Public Radio (NPR) não encontrou nenhum documento de doadores de corpo plastinado já falecidos. “O Dr. von Hagens … diz que obtém todos os corpos somente por meio de fontes seguras, mas ninguém de fora verificou se eles podem não ser, num pior cenário, de dissidentes mortos numa prisão chinesa, que foram vendidos por um corretor de corpos para uma escola médica e, em seguida, exibidos ao público.”

Quando von Hagens expandiu seu negócio para a China na década de 1990, devido a razões culturais e jurídicas, encontrou forte resistência. Entretanto, finalmente estabeleceu a sede de sua empresa em agosto de 1999 na cidade de Dalian, província de Liaoning, depois de receber a aprovação de Bo Xilai, o então prefeito de Dalian.

De acordo com von Hagens, quando ele começou a “Plastinação von Hagens” em 1999, Sui disse-lhe que apenas corpos de depósito seriam utilizados.

Com base nos “Regulamentos sobre dissecação de cadáveres”, emitido pelo Ministério da Saúde em fevereiro de 1979, só depois de um cadáver humano ter sido depositado por pelo menos um mês, ele poderia ser considerado “de depósito” e ser usado para estudos anatômicos pelas escolas médicas. Entretanto, tais corpos não são adequados para o processo de plastinação que requer cadáveres frescos, e sem conservantes devido à troca de fluidos.

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A empresa de plastinação cresceu rapidamente. Com apoio da Universidade Médica de Dalian, em junho de 2002, quando exercia a função de gerente geral na empresa de von Hagens, Sui Hongjin estabeleceu seu próprio negócio. Quando von Hagens descobriu, ele dispensou Sui.

A empresa de Sui, Dalian Hoffen Bio-Technique, então colaborou com a Premier Exhibitions, com base nos Estados Unidos, e abriu a “BODIES – The exhibition” nos EUA em 2005. A assessoria de imprensa da exposição BODIES disse que seus corpos, todos os quais eram da China, não vieram de doadores voluntários, mas de cadáveres de depósito. Dado o sistema político na China, muitos acreditam que eles eram de prisioneiros de consciência ou dissidentes políticos detidos.

Uma reportagem do New York Times descobriu que “aqui na China, determinar quem está no negócio de corpos e de onde os corpos vêm não é fácil. Os museus que possuem exposições de corpos na China dizem terem ‘esquecido’ de repente quem forneceu os corpos, os policiais regularmente modificaram suas histórias sobre o que fizeram com os corpos e até mesmo as universidades confirmaram e, em seguida, negaram, a existência de operações de preservação dos corpos em seus campus”.

Em maio de 2008, um acordo com o procurador-geral de Nova York obrigou a Premier Exhibitions, sócia da exposição de Sui, a publicar um aviso no seu site e no salão de exposições, declarando que a origem dos cadáveres de Dalian Hoffen era da “Secretaria da Polícia Chinesa”.

Estreitas ligações com a perseguição ao Falun Gong

Em 1992 surgiu na China uma prática de meditação tradicional chinesa chamada Falun Gong, ou Falun Dafa. A disciplina espiritual é gratuita, e baseia-se em princípios budistas de verdade, compaixão e tolerância. Segundo seus adeptos, a prática proporciona incríveis benefícios para a saúde do corpo e da mente. Em 1999, Falun Gong já possuía mais de 100 milhões de praticantes (uma quantidade mais elevada que o número de chineses filiados ao Partido Comunista Chinês, que na época totalizava 70 milhões de pessoas). O governo sentiu que seu poder totalitário estava sendo ameaçado, e o então líder do Partido Comunista, Jiang Zemin, iniciou uma perseguição brutal contra o Falun Gong, com o objetivo de erradicar a prática. Até hoje, praticantes de Falun Dafa são enviados a campos de trabalho escravo, torturados e muitas vezes têm seus órgãos extraídos a força, enquanto ainda vivos, para serem vendidos a preços extremamente lucrativos para o governo.

Um relatório da Organização Mundial para Investigar a Perseguição ao Falun Gong (WOIPFG) confirmou que, em vez de “doações” ou “corpos de depósito”, muitos dos corpos eram de praticantes de Falun Gong que foram mortos pelo regime comunista.

Von Hagens uma vez disse a repórteres que ele escolheu abrir uma sucursal em Dalian, não apenas devido à mão de obra barata, mas também por conta do apoio ativo de funcionários e suprimentos beneficentes de corpos. Isso coincidiu também com a perseguição ao Falun Gong, iniciada por Jiang Zemin em julho de 1999.

Devido à natureza pacífica do Falun Gong, Jiang enfrentou forte oposição à supressão, mesmo dentro do Politburo. Para defender sua política de perseguição, Jiang visitou a cidade de Dalian em agosto de 1999, onde disse ao então prefeito Bo Xilai: “Seja duro com o Falun Gong e você terá um grande futuro.”

Seguindo a sua ordem, Bo gerenciou pessoalmente os presídios de praticantes, expandiu prisões para prendê-los e instruiu aos policiais: “Vocês podem maltratar os praticantes de Falun Gong o quanto quiserem, mesmo se eles morrerem.”

Dois meses depois, em outubro de 1999, Bo tornou-se secretário do Partido Comunista de Dalian. Isso alimentou ainda mais seus esforços para reprimir o Falun Gong. Entre 2000 e 2004, mais prisões e campos de trabalho escravo foram construídos ou reformados com recursos de Pequim. Entre eles, os famosos Campo de Trabalho de Masanjia e a Prisão de Masanjia, que custaram cerca de 500 milhões de yuans. Em 2000, Bo tornou-se governador da província de Liaoning.

Enquanto isso, desde que a repressão começou em 1999, praticantes de Falun Gong inundaram Pequim procurando pedir aos líderes do Partido Comunista para pararem a perseguição. As prisões e os campos de trabalho em Pequim e nas regiões vizinhas ficaram superlotados. Eles, especialmente aqueles praticantes que se recusavam a revelar seus nomes, foram rapidamente transferidos para prisões e campos de trabalho em Dalian.

Sui afirmou certa vez que alguns “cadáveres” eram da Secretaria de Segurança Pública. Ele disse que foi o apoio de funcionários do regime que conseguiu fazer a instalação da maior empresa de plastinação de corpo humano do mundo. Um oficial de um dos maiores presídios da China, a Agência 610, confirmou que alguns dos órgãos e corpos eram de praticantes de Falun Gong.

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Lucro abundante

Sui, ex-gerente geral da von Hagens Plastination, disse à Oriental Outlook em 2003: “Von Hagens não tinha intenção de realizar exposições na China porque não haveria tanto lucro. Ele só tinha intenção de fazer a sua base de produção na China, por conta do custo de mão de obra e de matéria-prima serem muito baratos.”

Seguindo von Hagens e Sui, várias outras fábricas de plastinação de corpos foram abertas em Dalian, tornando a China o exportador de cadáveres nº 1 do mundo. De acordo com a Radio Free Asia, um único corpo plastinado pode ser vendido por um milhão de dólares. Estima-se que desde 2004, Sui já tenha vendido cerca de mil espécimes para outros países.

Um relatório do The New York Times descobriu que, até 2006, o Body Worlds de von Hagens já atraiu 20 milhões de pessoas em todo o mundo, e já arrecadou mais de 200 milhões de dólares. Pelo menos dez outras fábricas de corpos chineses foram abertas para atender aos pedidos de exposições, embarcando cadáveres conservados para o Japão, Coreia do Sul e Estados Unidos.

Um segredo obscuro

Von Hagens admitiu que, no início, tinha dificuldade de mostrar corpos plastinados na Europa, “… onde foi chamado de Dr. Morte e Dr. Frankenstein. A imprensa europeia comparou-o até a Josef Mengele, o médico do campo de extermínio nazista.” Em seguida, ele foi para a China, onde trabalhou com Sui devido à “mão de obra barata, alunos ansiosos, poucas restrições do regime e fácil acesso aos órgãos de chineses”.

Mas sua expansão na China, impulsionada por restrições legais não rígidas, pela falta de proteção dos direitos humanos e pela severa perseguição ao Falun Gong, fez com que o negócio de exposição de corpos plastinados fosse reformulado. Com esforços conjuntos de Sui e outros seguidores, a brutalidade de um regime totalitário foi disfarçado e transformado num negócio lucrativo.

Em fevereiro de 2008, a Assembleia da Califórnia aprovou a legislação que exige que cada corpo mostre a prova de que tenha sido doado com “livre consentimento”. A deputada Fiona Ma, criadora da legislação, disse à ABC que, “Como uma pessoa de linhagem chinesa, eu simplesmente não acredito que qualquer família fosse consentir que suas peles fossem mostradas dessa maneira”.

De acordo com informações obtidas pelo Epoch Times, Gu Kailai, a esposa de Bo Xilai, desempenhou papel fundamental para transformar os praticantes detidos do Falun Gong em vítimas da plastinação. Mais especificamente, Gu descobriu que havia duas maneiras de transformar os praticantes detidos em dinheiro. Seus órgãos poderiam ser removidos e utilizados para transplante por hospitais na província de Liaoning, e os corpos poderiam ser vendidos para fábricas de plastinação.

Muitos suspeitaram que Gu e seu ajudante Neil Heywood abasteceram as fábricas com os corpos dos praticantes de Falun Gong, que compõem a maior parte dos cadáveres fornecidos para as fábricas de plastinação de Dalian. “Gu foi a mentora em gestão financeira, publicidade online doméstica e internacional e da abertura de canais de exportação para o tráfico de órgãos e corpo humano.”

Depois que Heywood foi assassinado na China em 2011, Gu foi condenada pelo seu assassinato, em agosto de 2012, e foi condenada à pena de morte, que mais tarde foi suspensa. Bo foi condenado à prisão perpétua por corrupção em 2013. Mas sua ligação com a perseguição de praticantes inocentes de Falun Gong, especialmente com a extração forçada de órgãos e plastinação de corpos, continua não esclarecida.

 
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