Retórica fervorosa e cálculo frio da China em diálogo de defesa

No final do Diálogo Shangri-La sobre segurança internacional em Cingapura recentemente, um propagandista militar chinês do alto escalão aproveitou a oportunidade de ter a última palavra e criticou severamente o Japão e os Estados Unidos por observações que estes fizeram e que o oficial afirmou estarem “impregnadas com o cheiro de ideologia hegemônica”.

Enquanto os Estados Unidos enviaram o secretário de Defesa Chuck Hagel e vários altos generais e o Japão enviou o primeiro-ministro Shinzo Abe e seu ministro das Relações Exteriores, a delegação da China não incluía suas altas autoridades de Defesa.

Em vez disso, ela foi composta por acadêmicos e funcionários fluentes em inglês e com experiência em propaganda no estrangeiro; o entourage foi chefiado pelo tenente-general Wang Guanzhong, um militar veterano da propaganda e de mensagens estratégicas.

A aparição proeminente de Wang – que durante anos serviu na seção de propaganda do Departamento de Estado-Maior e é atualmente “um dos mais talentosos estrategistas de guerra política do ELP”, segundo Mark Stokes, um analista e especialista nos militares chineses – põe em foco um dos principais alicerces estratégicos dos esforços da China para garantir a soberania nos mares que a rodeiam: a guerra política.

Wang Guanzhong fez seus comentários contra os Estados Unidos e o Japão como parte de “observações espontâneas” (embora aparentemente planejadas) em seu discurso principal, e também em longas entrevistas com a imprensa chinesa posteriormente.

“O discurso do secretário americano Hagel está cheio de ameaças e linguagem intimidativa”, disse Wang, que também acrescentou ser “um discurso cheio de incitamento e instigação”, “provocação” e “atitudes não construtivas”.

Referindo-se a consonância entre as posições dos Estados Unidos e do Japão, Wang disse que parecia que eles estavam “cantando um dueto”, e perguntou: “Quem está proativamente instigando incidentes, provocando disputas e incitando o conflito?”

Sua resposta agressiva foi feita em resposta a discursos proferidos por Abe em 30 de maio e Hagel em 31 de maio. Ambos os países reiteraram suas posições de longa data sobre as questões marítimas e territoriais nos Mares do Sul e do Leste da China.

Abe não nomeou a China, mas o discurso de Hagel foi explícito na identificação do comportamento chinês como uma importante fonte de tensão, instabilidade e potencial conflito. Esta não foi uma nova posição assumida pelos Estados Unidos, mas indicou uma articulação mais clara dos pontos de vista dos EUA.

Wang não pareceu estar focado em detalhes, ou o que seria a substância das observações de Abe e Hagel. Ele parecia estar mais interessado numa refutação dura e forte, e na reafirmação da ‘justeza óbvia’ da posição da China.

“A missão do general Wang era intimidar o Japão e os Estados Unidos por defenderem seus interesses e negar categoricamente que a China tenha qualquer nível de culpa pela grande tensão militar nos Mares do Sul e do Leste da China”, disse Richard D. Fisher, um veterano em assuntos militares no Leste Asiático, do Centro Internacional de Avaliação e Estratégia.

O forte revide de Wang foi rapidamente compartilhado em reportagens e discussões online em todo o mundo, o que era muito provavelmente o objetivo.

Propaganda como estratégia

Wang foi por seis anos um estrategista de guerra política na seção de propaganda do Departamento Geral de Política do ELP, que é responsável pelo seu “trabalho de ligação”, também conhecido como “guerra política”, segundo um relatório do Projeto 2049, um grupo de pesquisa em segurança sediado na Virgínia, EUA.

A guerra política é um conjunto de estratégias e técnicas que procura influenciar as emoções, motivações e raciocínio de entidades estrangeiras, explica o relatório do Projeto 2049.

Essas ideias e práticas foram desenvolvidas pela insurgência comunista durante anos de atividades clandestinas na luta contra os nacionalistas, que governaram a China antes de o Partido Comunista derrubá-los e decretar a República Popular da China em 1949.

“A guerra política usa operações psicológicas estratégicas como forma de conduzir o discurso internacional e influenciar as políticas de amigos e inimigos”, diz o relatório. Para o Partido Comunista, “antagonismo e trabalho político são meios críticos de minar a moral do inimigo e atrair apoio nacional e internacional”.

“A propaganda, realizada tanto em tempos de paz e em conflitos armados, amplifica ou atenua os efeitos políticos do instrumento militar do poder nacional.”

No presente caso, Wang parece ter adotado “a persuasão coercitiva para enfraquecer a vontade política de um adversário e compeli-lo a um curso de ação favorável aos próprios interesses”, segundo a doutrina da guerra política, conforme explicada pelo Projeto 2049.

O objetivo não é vencer um argumento legal, segundo o analista de defesa Fisher. A rejeição da China de um processo de arbitragem internacional proposto pelas Filipinas demonstra isso. Em vez disso, o regime chinês “usa retórica hostil para intimidar Tóquio e Washington”.

Ele acrescentou: “O efeito de choque é agravado pelo uso do Diálogo Shangri-La, que tem buscado promover a cortesia e a resolução pacífica.” O Diálogo Shangri-La é realizado anualmente no Hotel Shangri-La, em Cingapura, pelo Internacional Instituto de Estudos Estratégicos (IISS), um grupo de reflexão sobre segurança baseado em Londres.

O resultado ideal para os interesses chineses, segundo Fisher, seria os dirigentes de países asiáticos concluírem que “a China é ‘louca o suficiente para matar pessoas’” e em seguida recuar, permitindo que os militares chineses efetivamente se apropriem do Mar do Sul da China, fazendo dele seu próprio “lago”. Há uma variedade de vantagens militares obtidas ao bloquear o Japão e os Estados Unidos de certas partes dessas águas, disse Fisher.

“Se a China puder simplesmente gritar com os países para satisfazer seus interesses, ela fará isso”, disse Fisher. Mas se isso será uma estratégia bem-sucedida é bastante incerto.

Controvérsias territoriais

Nos últimos anos e em particular ao longo dos últimos seis meses a China tem agido como se o Mar do Sul da China que ela reivindica já fosse território marítimo chinês, um corpo d’água que penetra profundamente no Sudeste Asiático. A China também ampliou suas reivindicações territoriais sobre as ilhas que são administradas pelo Japão há décadas no Mar do Leste da China.

Analistas descreveram as táticas da China como “forjando fatos convenientemente” ou “promovendo gradual e agressivamente sua agenda”, referindo-se a maneira como embarcações marítimas chinesas se chocaram com navios de outros países, confiscaram peixes, agrediram pescadores e em geral agiram como se o Mar do Sul da China já lhes pertencesse.

De acordo com este ponto de vista, outros países da região seriam intrusos em águas chinesas. Foi baseado nisso que o tenente-general Wang repeliu o Japão e os Estados Unidos.

Um inconveniente desta abordagem, no entanto, é que as ações e discursos inflamatórios podem ter o efeito oposto. “A China também corre um risco maior, pois, ao projetar apenas hostilidade e ignorar a razão, isso permitirá que Tóquio e Washington possam reunir os países menores muito mais rápido em prol de uma ação comum”, concluiu Fisher.

 
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