Regime chinês em crise: poderoso ex-chefe da segurança é preso

A agência de notícias do regime chinês, Xinhua, anunciou na terça-feira que o ex-chefe da segurança interna Zhou Yongkang foi preso. De acordo com o anúncio oficial, Zhou está sendo acusado de “graves violações da disciplina”, embora não seja esperado que as acusações oficiais mencionem os crimes mais graves de Zhou.

O anúncio é o clímax de um drama que remonta a maio de 2012, quando o Epoch Times relatou que o então líder do Partido Comunista, Hu Jintao, concordou em investigar Zhou Yongkang. Devido à elevada posição de Zhou no Partido Comunista Chinês (PCC), uma investigação que pudesse resultar em prisão tinha poucos precedentes.

Então, o PCC foi construindo um processo de forma sistemática contra Zhou, prendendo ou investigando seus aliados e ex-subordinados em suas bases de poder na indústria do petróleo na província de Sichuan e no aparato de segurança pública.

Em dezembro de 2013, várias mídias chinesas informaram que Zhou havia sido preso. O Epoch Times relatou esses rumores em circulação, mas não pôde confirmá-los de forma independente. Mas todos os sinais apontavam claramente para a eventual prisão de Zhou.

Os relatos da mídia em 29 de julho apresentam a prisão de Zhou sob a rubrica de combate à corrupção. É verdade que a corrupção tem sido o pretexto para o expurgo político em andamento na China, promovido pelo líder chinês Xi Jinping.

Um comentário publicado pelo Epoch Times em dezembro de 2013, segue abaixo e contextualiza e examina as verdadeiras razões para a prisão de Zhou.

*   *   *

Zhou Yongkang finalmente será processado, mas não por seus piores crimes

Heng He, Epoch Times

Desde que o escândalo de Bo Xilai veio a público em fevereiro de 2012, tem havido rumores de que Zhou Yongkang, o ex-chefe da segurança interna da China e o membro mais poderoso do Comitê Permanente do Politburo, estava em apuros.

O político Bo Xilai era uma estrela em ascensão no Partido Comunista Chinês (PCC), até seu braço-direito Wang Lijun fugir para o consulado dos EUA em Chengdu em busca de asilo. Bo Xilai também era um aliado próximo de Zhou Yongkang. Após Bo ser derrubado, muitos assumiram que a vez de Zhou se seguiria em breve. Mas após cada reportagem, Zhou aparecia em público ou alguma mídia faria uma matéria para combater o boato que o desacreditava.

Na semana passada, pelo menos três mídias estrangeiras informaram que Zhou Yongkang tinha formalmente perdido sua liberdade. Não está claro qual é seu status, se ele está em prisão domiciliar ou foi submetido ao abusivo interrogatório do PCC chamado “shuanggui”. Diferentemente de épocas anteriores, quando informação semelhante foi vazada, não houve qualquer sinal de aparecimento de público Zhou.

Sinais

Embora o PCC não tenha anunciado formalmente a decisão de investigar Zhou Yongkang, todos os sinais apontam nesta direção. Desta vez é apenas uma questão de quando ocorrerá o anúncio.

O primeiro sinal é que, desde o 18º Congresso do PCC em novembro de 2012, mais de 10 funcionários de nível provincial foram investigados ou presos. A maioria deles está associado a Zhou Yongkang. Eles faziam parte da indústria do petróleo na província de Sichuan e do sistema de segurança pública, áreas em que Zhou ocupou postos de comando e manteve laços estreitos e influência mesmo após se aposentar.

O segundo sinal é que a revista Caixin informou numa série de artigos como um grupo de famílias bem-conectadas fez fortuna na indústria do petróleo chinesa. Dois dos nomes mencionados nesses artigos eram ‘luvas-brancas’ – agentes-intermediários que fazem o trabalho sujo, incluindo lavagem de dinheiro, para a família de Zhou Yongkang. Mencionados no artigo estavam o filho, a nora e os sogros de Zhou Yongkang.

O artigo mais recente foi publicado em 22 de novembro, logo após a 3ª Plenária do 18º Congresso do PCC, que concluiu em 12 de novembro. Naquele momento, a maioria das pessoas não esperava que as evidências que apontavam para Zhou Yongkang fossem trazidas à tona novamente.

Acredita-se que a Caixin tenha conexões com Wang Qishan, o chefe do Comitê Central de Inspeção Disciplinar e a figura principal por trás da atual campanha anticorrupção. O artigo da Caixin apoia as afirmações feitas pela mídia chinesa no exterior a respeito da decisão tomada na 3ª Plenária do PCC sobre caçar e derrubar Zhou Yongkang.

Possíveis acusações

Segundo a maioria dos relatos da mídia, os principais crimes de Zhou Yongkang são corrupção, planejar um golpe de Estado e assassinatos. No entanto, esses crimes não necessariamente aparecerão nas acusações formais que serão levantadas contra ele.

Não há dúvida de que ele será acusado de corrupção. Ao contrário de Bo Xilai, o dinheiro de Zhou é principalmente da indústria do petróleo, que é a indústria mais monopolizada e passível de enriquecimento ilícito na China. Acredita-se que a corrupção de Zhou envolva bilhões de yuanes.

A acusação de assassinato também pode ser usada. Reportagens disseram que Zhou assassinou sua primeira esposa para poder se casar com uma apresentadora da mídia estatal Central Chinesa de Televisão (CCTV), que é agora sua segunda esposa. Há também relatos de suas tentativas de assassinar os líderes atuais do PCC, incluindo dois atentados contra a vida do líder chinês Xi Jinping.

A acusação de abuso de poder contra Bo Xilai envolveu como este lidou com a morte do empresário britânico Neil Heywood, assassinato por Gu Kailai, a esposa de Bo Xilai, portanto, é possível que Zhou seja acusado de homicídio ou de tentativa de homicídio. A questão é que incidente será usado.

O golpe é provavelmente o crime mais grave do ponto de vista dos líderes do PCC. É também uma das razões mais importantes por que Xi Jinping visa a destruir Zhou Yongkang, mesmo que Zhou já esteja aposentado e que como um ex-membro do Comitê Permanente do Politburo seja considerado intocável.

O golpe planejado por Zhou Yongkang e Bo Xilai não era contra o ex-líder chinês Hu Jintao e seu ex-primeiro-ministro Wen Jiabao, mas contra o atual líder Xi Jinping. Se Zhou Yongkang não for abertamente punido, Xi Jinping será considerado um líder fraco, o que pode ser fatal e um suicídio político.

Zhou também oferece a Xi uma oportunidade. Xi e sua nova equipe de liderança não podem iniciar uma reforma política real, mas ele pode usar a corrupção para ganhar o apoio do povo chinês. Derrubar Zhou Yongkang dá a Xi Jinping certa credibilidade em seu combate à corrupção.

O poder de Zhou

Até agora, a maioria das reportagens ignorou a parte mais importante do escândalo de Zhou: os verdadeiros crimes de Zhou e sua fonte de poder político.

Zhou Yongkang foi CEO da PetroChina por 12 anos e, como tal, era ranqueado como um ministro do Conselho de Estado. Após apenas um ano como ministro de Terra e Recursos, Zhou foi nomeado a secretário do Comitê do PCC em Sichuan. Nesse ponto, Zhou Yongkang era apenas um entre centenas de funcionários ministeriais ou provinciais.

Sua primeira grande chance apareceu em 2002. As ferramentas mais importantes usadas pelo então líder chinês Jiang Zemin na perseguição ao Falun Gong, que começou em julho de 1999, eram as forças de propaganda e de segurança. As forças de segurança eram coordenadas pelo Comitê dos Assuntos Político-Legislativos (CAPL) do PCC.

Jiang Zemin não estava satisfeito com o trabalho realizado pelo Ministério da Segurança Pública (MSP), que tem sido a força principal na realização da perseguição genocida ao Falun Gong. Para impulsionar a perseguição, ele precisava de um assecla devoto para chefiar o MSP, alguém em quem Jiang pudesse confiar, alguém que tivesse provado ser implacável. Jiang escolheu Zhou Yongkang a dedo, apesar de Zhou não ter qualquer experiência no trabalho de segurança pública.

Ser ministro da Segurança Pública não significava necessariamente que Zhou entraria automaticamente o centro do poder político. Ninguém na direção do MSP foi incluído no passado entre os verdadeiros tomadores de decisão no poder.

No entanto, o caso de Zhou era único. Jiang Zemin estava diante de sua aposentadoria como secretário-geral do PCC e no ano seguinte deixaria a presidência do Estado. Ele necessitava urgentemente se certificar de que seu legado principal e provavelmente único, ou seja, a perseguição ao Falun Gong, continuaria após sua aposentadoria.

Jiang expandiu o número de membros do Comitê Permanente do Politburo de sete para nove, sendo os dois membros recém-adicionados Luo Gan do CAPL e Li Changchun da Propaganda. Nesse meio tempo, ele mudou a regra de como as decisões eram tomadas no Comitê Permanente – o círculo mais interno do Partido Comunista Chinês e o centro máximo do poder na China.

A nova regra dizia que cada membro cuidaria de seus próprios negócios e ninguém poderia vetar os outros. A nova regra certificou que Jiang, embora formalmente aposentado, tivesse votos suficientes para impedir que a política de perseguir o Falun Gong fosse alterada. Isso também assegurou que apenas um aliado de Jiang, Luo Gan, conduziria a perseguição.

Quando Luo Gan se aposentou em 2007, Zhou Yongkang herdou não só a liderança do CAPL, mas também o assento de Luo Gan no Comitê Permanente do Politburo. Zhou fez seu caminho ao topo da liderança comunista chinesa por meio das forças de segurança, algo inédito na China. Isso foi possível por causa da campanha política de Jiang Zemin para exterminar o Falun Gong.

A segunda grande oportunidade de Zhou Yongkang surgiu em 2008. Naquele ano, Pequim sediou os Jogos Olímpicos. A segurança dos Jogos Olímpicos de Pequim foi extremamente acirrada, mais do que qualquer outra Olimpíada. Era necessário mobilizar 1 milhão de pessoas – incluindo o exército, a polícia militar e civil e voluntários-olheiros – para ficarem de prontidão para combater ataques imaginários? Bem, era necessário para Zhou Yongkang.

Em 2008, o PCC anunciou formalmente quais eram as “cinco forças hostis” na China, que incluiria terroristas, “extremistas religiosos” e separatistas étnicos. Também em 2008, o PCC estabeleceu formalmente o sistema de “manutenção da estabilidade”, que era chefiado pelo CAPL e por Zhou Yongkang.

Zhou Yongkang não temia problemas. Ele temia a ausência de problemas. Onde houvesse problemas, havia oportunidade para Zhou. Se nenhum problema aparecesse, então problemas podiam ser criados.

Desde a criação da política e estrutura de manutenção da estabilidade, Zhou Yongkang expandiu com sucesso os recursos do CAPL e expandiu e diversificou os métodos desenvolvidos na perseguição ao Falun Gong para usá-los contra a população chinesa mais ampla. Zhou também aumentou imensamente seu poder pessoal.

A corrupção de Zhou, o golpe de Estado planejado e a tentativa de assassinato de Xi Jinping foram possíveis por causa de seu poder ilimitado. Esse poder se originou da política de Jiang Zemin de perseguir o Falun Gong e mais tarde do sistema de manutenção da estabilidade.

No entanto, é improvável que Zhou Yongkang seja acusado e responsabilizado por crimes contra a humanidade e pela destruição do estado de direito na China, já que o propósito de derrubá-lo é proteger o regime comunista e garantir a sobrevivência do PCC.

 
Matérias Relacionadas