Onde está o Muro de Berlim hoje?

Um norte-americano na China escreveu-me preocupado com a aparente aceitação da censura pelo povo chinês. Esta é a minha resposta.

Olá Jeremy,

No seu e-mail, você comentou que sua impressão era que a maioria dos chineses que encontrou no cotidiano era indiferente à censura da mídia imposta pelo Partido Comunista Chinês.

Eu não discordo da sua observação. Penso que existem algumas razões por que isso ocorre.

O Partido Comunista Chinês tem o sistema de filtragem de internet mais sofisticado do mundo, o chamado “Grande Firewall” (GFW) e contornar esse firewall pode resultar em penalidades e punições rígidas.

Em setembro, um chinês recebeu uma sentença de prisão de nove meses porque vendeu software VPN (rede virtual privada) que permite às pessoas visitarem websites proibidos pelo Partido Comunista Chinês. Às vezes, a mera menção de contornar a censura deixa as pessoas incomodadas e preocupadas. É mais fácil evitar confrontar o fato da censura.

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As pessoas na China, então, são como os moradores da Megacidade na trilogia cinematográfica “The Matrix“. Na superfície, tudo parece normal, e as pessoas parecem aproveitar suas vidas. Na China, a maioria não tem ideia de que todo o sistema da internet que eles têm acesso é manipulado.

Enquanto muitos websites populares no Ocidente, como Google, Facebook e Twitter, são bloqueados na China, a existência de imitações chinesas reduz, em certa medida, a demanda por esses serviços na China. As alternativas chinesas não são tão boas, mas dão conta do serviço.

Além disso, se uma pessoa sequer tem conhecimento de um incidente ou evento na história, naturalmente ela não terá curiosidade sobre isso ou pesquisará a respeito. A supressão da verdade pelo Partido Comunista Chinês é tão implacável que, para as gerações mais novas na China, certos eventos históricos nunca aconteceram. Um desses eventos é o Massacre da Praça da Paz Celestial.

Escolhendo a liberdade

No primeiro filme “Matrix”, é oferecido ao protagonista uma pílula azul e uma pílula vermelha. Se ele escolher a pílula azul, ele pode continuar vivendo sua vida como sempre na Megacidade, como se nada tivesse ocorrido. Se ele escolher a pílula vermelha, ele ganhará a liberdade, mas se tornará um dissidente constantemente caçado pela vigilância da Matrix.

Uma pequena porção de internautas chineses enfrenta um dilema semelhante. Dentro do Grande Firewall, eles sabem que vivem numa realidade falsificada. Contornando o GFW, eles obterão conhecimento e informações, mas correrão o risco de colidir com o Partido Comunista Chinês.

No entanto, há sinais de que mais chineses agora estão dispostos a escolher a pílula vermelha.

Em 2013, uma pesquisa informal de 120 estudantes de jornalismo em oito universidades, conduzida por um professor americano que ensinou na Universidade Tsinghua, indicou que três quartos dos entrevistados queriam menos censura nos meios de comunicação e mídias sociais. Mais de 76% dos estudantes disseram que confiam na mídia ocidental mais do que na mídia doméstica. Apenas 9% acreditavam que havia mais verdade nas mídias estatais chinesas do que na mídia estrangeira.

Um estudo recente da Universidade de Stanford examinou sistematicamente o impacto de uma internet não filtrada sobre a vontade dos estudantes chineses de adquirir informações politicamente sensíveis. O experimento foi muito maior em escala e mais rigoroso em planejamento e execução do que a pesquisa informal.

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No estudo, estudantes universitários chineses tiveram acesso gratuito e sem censura a internet por 18 meses. Um resultado interessante foi que o acesso por si só não foi suficiente para aumentar o consumo de informações livres. No entanto, um pequeno impulso, sob a forma de pesquisas online ocasionais em troca de pequenos prêmios, levou a uma demanda elevada e duradoura por informações sem censura, de acordo com o estudo.

A breve exposição à internet não filtrada alterou as crenças econômicas, as atitudes políticas e os comportamentos dos estudantes. Eles ficaram mais céticos sobre a governança do Partido Comunista Chinês, mais pessimistas sobre a economia chinesa, mas mais otimista sobre a economia dos Estados Unidos.

Eles também se mostraram mais propensos a iniciarem conversas sobre tópicos políticos com outros alunos e transmitirem as informações que adquiriram. Depois de participar do experimento, aproximadamente um terço dos estudantes expressou o desejo de tentar fazer estudos de pós-graduação no estrangeiro, para desta forma deixar a China no futuro próximo, em contraste com um quinto no grupo de controle.

Você pode dizer que os estudantes ingeriram a “pílula vermelha”. Para alguns deles, viver numa realidade falsa está se tornando insuportável. É surpreendente que o acesso à internet livre por um período de 18 meses possa desfazer a lavagem cerebral do Partido Comunista Chinês que os estudantes experimentaram por toda a vida. É isso que o Partido mais teme. É por isso principalmente que o Partido tenta desesperadamente isolar a China do mundo livre.

Você provavelmente notou que a maioria dos chineses geralmente evita discutir temas como a censura da mídia e o Grande Firewall. Espero que você não considere isso como um sinal de que os chineses não desejem liberdade, ou que não estão interessados ​​em informações sem censura. Eles desejam e estão interessados. Neste exato momento, existem dezenas de milhares de internautas chineses que desafiam o Partido Comunista Chinês e procuram a verdade na internet não filtrada.

O Grande Firewall pode parecer formidável. Pode até parecer insuperável por enquanto, como foi o Muro de Berlim. Mas onde está o Muro de Berlim hoje? Uma pessoa teria sorte de encontrar fragmentos dele nos museus. O GFW também não impedirá os chineses de obterem informações livres. Eu tenho esperança e otimismo pelo povo chinês.

Atenciosamente,
Tian Yuan

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