Na ausência de ética, roubo de órgãos abundam na China

‘Órgãos do Estado: O abuso do transplante na China’, editado por David Matas e Dr. Torsten Trey.

Revisão do livro ‘Órgãos do Estado: O abuso do transplante de órgãos na China’

Em março passado, o vice-ministro da saúde chinês Huang Jiefu anunciou que o transplante de órgãos de prisioneiros executados seria suprimido em três a cinco anos. Huang disse que a taxa de infecção de prisioneiros é frequentemente alta, segundo um relato da BBC sobre o comentário.

O vice-ministro da saúde não disse nada sobre a ética da utilização de prisioneiros como doadores de órgãos como a razão para a mudança de política. A razão disso é que a ética médica praticada internacionalmente não existe na China comunista, segundo um novo livro ‘Órgãos do Estado: O abuso do transplante na China’.

O livro ‘Órgãos do Estado’ tem 12 colaboradores de quatro continentes, sendo cinco médicos e um especialista em ética médica.

Outro colaborador, Ethan Gutmann, realizou uma extensa pesquisa sobre o sistema de Reeducação Através do Trabalho (RAT) na China e fez entrevistas profundidas com mais de 100 ex-detentos.

Gutmann observa que o anúncio de Huang Jiefu não fez qualquer menção sobre presos políticos ou prisioneiros de consciência religiosa e que a imprensa ocidental livre não esclareceu a omissão. O anúncio de Huang Jiefu também ignora que a cirurgia é indiscutivelmente realizada enquanto os doadores ainda estão vivos, segundo Gutmann.

Gutmann acredita que a mudança na política de Pequim foi estimulada pelo medo e não por se preocuparem com a exploração da morte de prisioneiros. Por trás do anúncio há uma “sensação de pavor ante a perspectiva de que o crime histórico do Partido Comunista Chinês (PCC) será exposto diante do mundo e, pior ainda, diante do povo chinês”.

‘Órgãos do Estado’ visa proporcionar os fatos conhecidos dos crimes e seu contexto ético para acabar com o que o coeditor e colaborador David Matas uma vez chamou de uma nova forma de mal neste planeta. Cinco das entradas foram escritas por médicos chocados com a atitude de seus colegas chineses.

O coeditor com Matas é o Dr. Torsten Trey, MD, que também é um colaborador. Trey fez contato com muitos médicos de todo o mundo que querem pôr fim a esta prática antiética. Trey é diretor executivo dos ‘Médicos contra a Colheita Forçada de Órgãos’ (DAFOH), que ele fundou em 2006.

Os números

A China é segunda mundialmente no número de transplantes de órgãos, apenas depois dos Estados Unidos. Em diversas outras ocasiões, Huang Jeifu afirmou que até 95% dos órgãos transplantados na China usavam prisioneiros executados como fonte de órgãos.

A alegação de que prisioneiros executados são a principal fonte de órgãos na China é insuficiente para explicar o abastecimento de órgão, segundo a análise de vários colaboradores do livro.

A principal fonte não pode ser o povo chinês por causa de uma aversão cultural à doação de órgãos.

Os primeiros pesquisadores a abordarem esta questão do abastecimento foram os canadenses David Kilgour e David Matas. Kilgour, que contribui para o livro ‘Órgãos do Estado’, foi membro do Parlamento canadense e secretário de Estado canadense (Ásia-Pacífico). Matas é um premiado advogado internacional de direitos humanos.

Kilgour e Matas publicaram um relatório em julho de 2006, revisto em janeiro de 2007 e tornado o livro ‘Colheita Sangrenta’ em 2010, que examinou cuidadosamente os números oficiais de transplantes e outras provas.

O desafio para Kilgour e Matas em investigar a fonte dos órgãos é que o regime publica os números de transplantes de órgãos, mas não o número de execuções, que o regime diz ser a principal fonte de órgãos. Esse número é um segredo de Estado.

O volume de transplantes subiu dramaticamente depois de 2000, que coincide com as detenções de praticantes do Falun Gong, “mas não havia sinais de que o número de pessoas condenadas à morte e executadas chegou a aumentar”, escreve Kilgour (com Jan Harvey). “O número registrado de transplantes de órgãos superou a soma total de doação voluntária de órgãos e de todos os prisioneiros de pena de morte na China a cada ano”, conclui Kilgour (com Harvey) em ‘Órgãos do Estado’.

Kilgour sempre diz em suas aparições públicas que há 52 evidências verificáveis que demonstram sem qualquer dúvida que a colheita de órgãos de pessoas vivas ocorreu e está ocorrendo e que a maior parte dos órgãos deriva de praticantes do Falun Gong. Trey estima que ocorram entre 10 e 20 mil transplantes por ano na China. Nem todos os prisioneiros executados seriam elegíveis para doação de órgãos: tipo de sangue, tecido compatível, estado dos órgãos e idade. A fim de ter órgãos adequados suficientes e disponíveis a qualquer momento, muito mais de 10 a 20 mil prisioneiros teriam de estar à disposição para tornar possível esse número de transplantes.

A conclusão inevitável alcançada por Trey, Kilgour e Matas é que deve haver outro grupo de doadores de órgãos que permanece como uma fonte viva de órgãos para ser colhida quando necessário.

A pesquisa de Gutmann descobriu que a coleta de órgãos de praticantes do Falun Gong começou na segunda metade de 2000. Somente a partir do outono de 2002, a colheita passou a ocorrer em “escala maciça”. Acrescentados à fonte de órgãos está um número desconhecido de tibetanos, uigures e cristãos de igrejas domésticas.

Mas esses grupos não foram detidos na mesma quantidade que os praticantes do Falun Gong que “continuam a ser a fonte mais plausível para a maior parte dos transplantes na China”, diz Matas.

Execução sob demanda

E sobre a ética do uso legítimo de prisioneiros assassinos e estupradores condenados à morte como doadores de órgãos? Os prisioneiros podem dar seu consentimento livremente?

Ao longo dos anos de existência da medicina de transplante desde sua infância na década de 1960, um padrão ético evoluiu que doadores de órgãos devem dar seu consentimento, diz Arthur Caplan, Ph.D., em ‘Orgãos do Estado’. Parte da razão é a ideia de que o corpo não deve ser objeto de comércio.

Caplan é chefe da Divisão de Bioética do Centro Médico Langone da Universidade de Nova York.

Caplan argumenta que a capacidade de um indivíduo de dar consentimento é o que faz a remoção de um órgão de uma pessoa viva eticamente legítima. Para se proteger contra qualquer pessoa ser traficada, cada equipe de transplante precisa verificar se a pessoa voluntariamente doou o órgão.

Caplan diz que o consentimento de um prisioneiro nunca pode ser verdadeiramente voluntário.

Se você for a China para conseguir um transplante de fígado, por exemplo, isso significa que uma execução terá de ser agendada. “Eles terão de encontrar um prisioneiro saudável com o tipo de sangue e tecido corretos, o tamanho certo do fígado e que o prisioneiro esteja pronto para a colheita antes que o turista de transplante precise partir”, escreveu Caplan.

O procedimento acima, que executa alguém sob demanda e para fins lucrativos, é sem precedentes e antiético. Especialmente para aqueles que estão na prisão por convicções políticas ou espirituais, escreveu Caplan.

Gutmann escreve em ‘Órgãos do Estado’, “O que une a atrocidade da colheita do Falun Gong ao genocídio do Holocausto (e quase a Unidade 731 [uma unidade do exército japonês que realizou experimentação humana letal sobre guerra biológica e química]) é que isso requer empregar os membros mais venerados da sociedade, os médicos, para ser realizado.”

Evidência histórica

Ao longo do livro há histórias que confirmam as terríveis conclusões da análise dos dados.

Há o relato de um ex-prisioneiro que Matas entrevistou chamado “L”, que testemunhou práticas de execuções “bárbaras” para a colheita de órgãos. O dinheiro foi dividido meio a meio entre um hospital próximo e os guardas prisionais.

“L” contou os detalhes de preparação para a extração de órgãos de um praticante do Falun Gong. O praticante foi visto com uma agulha no pescoço. Uma ambulância branca do hospital estava esperando. Seu líder de cela disse a “L” que o praticante teve seu órgão extraído.

O Dr. Trey conheceu um praticante que durante os dois anos de sua detenção teve seu sangue testado 10 vezes.

“Porque os praticantes do Falun Gong detidos recebem exames físicos específicos (incluindo raios-x, ultrassom, exames de sangue…) e ao mesmo tempo são submetidos à lavagem cerebral, trabalho forçado [e tortura]”, escreveu Trey, “os exames médicos certamente não visavam à saúde das vítimas.”

State Organs: Transplant Abuse in China
Editado por David Matas e Dr. Torsten Trey
Edições Seraphim, 2012; 145 páginas; US$ 19.95

 
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