“Mulher Tigre em Wall Street”, uma visão perspicaz, de dentro e de fora, do gigante chinês

Para um cético sobre a China, a leitura deste livro é como ouvir um sermão. Para um entusiasmado sobre a China, o livro começará a soar alguns alarmes. Para quem estiver interessado em saber como funciona a segunda maior economia do mundo, este livro oferece uma visão bem ampla, cuidadosamente embalada na história de vida de uma mulher notável e interessante.

“A criação essencialmente severa de meu pai em última instância resultou numa história de sucesso americana construída com forças chinesas”, diz Junheng Li sobre sua educação nos subúrbios de Shanghai na década de 1980, sua experiência no colégio americano em Vermont nos anos 1990, e seu sucesso e carreira em Wall Street na década de 2000.

Tendo vivido em ambas as culturas e experimentado ambos os sistemas de ensino, Li oferece suas percepções sobre as diferenças entre a China e a América. Ela constrói um argumento convincente sobre por que a percepção dominante de que “a China dominará o mundo” não se concretizará num futuro próximo, e por que a América, apesar de seus problemas, está mais bem equipada para competir em longo prazo.

“Até que o software – a qualidade de seus cidadãos e da sociedade – corresponda ao hardware de infraestrutura acumulada e dirigida pelo governo, a China está longe de constituir uma ameaça credível para a América”, escreve ela.

Com base em sua experiência como cidadã chinesa e empresária americana – Li agora dirige uma empresa de pesquisa de investimento especializada em companhias chinesas –, ela lança luz sobre questões profundas, como o declínio dos valores morais num Estado comunista, e questões mais práticas, como os riscos ocultos no sistema bancário chinês.

Embora o subtítulo, “Estratégias de negócios vitoriosas de Shanghai a Nova York e de volta”, prometa um pouco demais, exemplos específicos de investimento e da vida real, bem como muitas anedotas de Wall Street, ilustram seus pontos principais.

Como resultado, a narrativa nunca fica muito maçante ou técnica, de modo que o livro continua a ser acessível ao leitor médio. Além disso, a maioria dos investidores, seja profissional ou não, pode aprender algumas coisas a partir dos métodos de Li.

Orientada para o sucesso

Para Li, a educação é o fator determinante em sua vida pessoal e na forma como a China e a América competem. No que ela se refere como “paternidade tigre”, o pai de Li a treinou para ser bem sucedida desde muito jovem.

Ela teve de completar exercícios de aritmética enquanto ajoelhada sobre uma tábua de lavar com bordas afiadas. Seu pai a jogou numa piscina quando ainda engatinhava e com um pequeno dispositivo de flutuação para que aprendesse a nadar.

“Era a única maneira de sua filha ter alguma vantagem no sistema educacional altamente competitivo da China”, diz Li, acrescentando que ela sabia que ele estava fazendo isso por ela, para que ela pudesse ser bem sucedida na vida adulta.

Ela escreve que o rigor básico de aprender matemática e gramática quando criança foi um bem que ela usaria pelo resto da vida. No entanto, o sistema chinês é baseado principalmente na memorização, seja matemática ou propaganda do Partido Comunista. O pensamento independente e a inovação não são ensinados.

“O [regime], representado pelo Ministério da Educação, ainda se agarra aos ensinamentos marxistas e maoístas, porque tem medo de se desvencilhar de uma era ultrapassada – separar-se disso significaria reforma, e o Partido Comunista intrinsecamente teme a reforma”, escreve Li.

Esta é uma grande falha, o que limita o potencial dos cidadãos do país, segundo Li. As trapaças e fraudes desenfreadas nas escolas e universidades explicam porque as empresas chinesas têm sido bem-sucedidas, principalmente trabalhando duro e copiando dos outros, mas gerando poucas inovações próprias.

Graças a seu pai, que nunca acreditou na propaganda comunista e que foi um ávido ouvinte da Voz da América, Li foi inspirada no filme clássico americano “E o vento levou”, e preparou-se para mudar-se para os Estados Unidos.

Depois de mais uma rodada de trabalho duro e memorização, Li completou sua universidade chinesa, obteve seu certificado de inglês do TOEFL, e conseguiu uma bolsa de estudos para Middlebury College, em Vermont.

Nos Estados Unidos, não foram os temas em seu material do curso de economia, mas sim a forma como a educação era abordada nos EUA que chocou Li.

“As mudanças mais difíceis estavam nas regras sociais e éticas que governavam o campus.” Ela escreve sobre a supervisão relaxada, mas o rigoroso código de ética da faculdade. Os estudantes deveriam concluir seus trabalhos de forma independente e honesta, algo que ela nunca tinha ouvido falar na China.

De acordo com Li, essa abordagem de prestação de contas, bem como de tomada de riscos e pensamento independente no trabalho de grupo e de classe é a base da inovação americana – uma grande vantagem sobre a China. “O sistema de educação da China não conseguiu produzir uma sociedade honrada ou inovadora” é veredito de Li.

Um código de honra

Em última análise, as diferenças nos sistemas de ensino dos dois países refletem códigos morais diferentes, o que também se traduz em práticas de negócios.

“[Parece] contraintuitivo. A China mostrou um crescimento econômico impressionante desde que eu era criança. Alguém poderia pensar que, quando um país fica mais rico, seu povo já não precisa lutar para sobreviver. Não deveriam eles, portanto, exibir padrões morais mais elevados, como o código de honra que tivemos em Middlebury?”, questiona Li.

Aparentemente não. Li então astutamente analisa esse dilema moral: Tendo roubado a nação chinesa de suas crenças espirituais, perseguido os crentes religiosos e doutrinado as massas com ideologia comunista ateia, o Partido Comunista Chinês substituiu o nobre código de ética tradicional com a adoração pelo dinheiro e a crença cega no Partido Comunista, que não se preocupa com nada senão com o poder.

De acordo com Li, preocupar-se apenas com o lucro e sobrepujar-se aos outros são as razões diretas para o sistema educacional chinês sufocar a criatividade, produzir inúmeros escândalos corporativos, corrupção oficial generalizada e ampla destruição do meio ambiente, os quais Li documenta com vários exemplos.

“Os valores sociais continuam fracos, porque o sistema não incentiva os cidadãos a acreditarem num poder maior do que o Estado – e, dadas as tragédias pessoais e desigualdades que muitos chineses têm testemunhado nos últimos 30 anos, é dificílimo acreditar no Estado”, escreve ela.

Em reta de colisão

Todos esses fatores têm desempenhado um papel na criação de uma economia desequilibrada gigante que está madura para um grande ajuste. “Muitas pessoas que vivem na China, desde o topo da liderança em Pequim até os executivos de empresas e o cidadão comum, acreditam que o país se aproxima de um ponto de inflexão que o forcará a refletir e se reformar.”

Para Li, o espírito que comanda atualmente a economia, a falta de moralidade e os problemas no sistema de ensino resultaram num vértice único para a economia chinesa: exploração brutal da mão de obra barata e expansão maciça da dívida, principalmente para investimentos em infraestrutura e no mercado imobiliário.

Ela argumenta que, embora o modelo de exportação de produtos baratos tenha sido bem sucedido em deslocar 500 milhões de pessoas da pobreza nos últimos 30 anos, isso já atingiu seus limites, pois o crescimento dos salários ultrapassou o nível de crescimento da produtividade.

Os avanços na produtividade são limitados por um sistema de educação que não promove a inovação e, portanto, proíbe a progressão para mais produtos e serviços de valor agregado.

De acordo com Li, a segunda perna de pau do milagre do crescimento chinês é a gigantesca expansão da dívida e do investimento em projetos improdutivos. Porque o regime chinês vive obcecado com o crescimento, quando o crescimento ameaça diminuir como parte de um ajuste econômico normal, ele sempre obriga os bancos a ampliar os empréstimos.

Isto impediu a ocorrência de ciclos de limpeza menores e criou um enorme ciclo de megadívida, que tem de chegar ao fim mais cedo ou mais tarde. Mais dinheiro canalizado para investimentos improdutivos por decreto estatal não resultará em mais criação de valor. Em vez disso, parece que todo o sistema econômico está prestes a colapsar.

“A trajetória do país parece semelhante à de um atleta com esteroides. Tal como acontece com a maioria desses atletas cujo desempenho superior temporário é inevitavelmente seguido por um longo período de fraco desempenho, a verdade acabará por abrir seu caminho para a superfície”, escreve ela.

A análise perspicaz encontrada em “Tiger Woman on Wall Street” é muito mais profunda do que os números sensacionalistas do crescimento do PIB chinês, de suas reservas cambiais ou milionários. A descrição precisa e vívida de Li sobre o tecido cultural da China e sua economia torna esta uma leitura obrigatória para qualquer pessoa interessada na economia do país e seu povo.

 
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