Medicina Tibetana: Compaixão, ciência e experiência

NOVA YORK – Quando os sentimentos de tristeza e ansiedade fizeram com que a Dra. Suzanne Soehner procurasse o consultório de um praticante da medicina tibetana, ela estava esperando receber um medicamento que milagrosamente a fizesse sentir melhor.

Esse milagre foi recebido, mas na forma de dois poderosos conselhos:

“Uma vez que você percebe que todos os fenômenos não são nada mais que um sonho, aí então, está a verdadeira libertação do sofrimento.”

“O Buda disse que a fonte de toda felicidade é pensar nos outros. A fonte de todo o sofrimento é ficar pensando em si mesmo.”

Como todos os princípios da cultura tibetana, a medicina do Tibete está profundamente impregnada com os princípios do budismo, com crenças na reencarnação e compaixão integrando a base da cura da mente e do corpo.

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A figura central da medicina tibetana é o Buda da Medicina.

“[O] Buda da Medicina é o modelo para os médicos tibetanos em relação a como pensar sobre nossa prática e nossos pacientes”, disse Eliot Tokar, um médico norte-americano especializado em medicina tibetana. Tokar começou a praticar o budismo tibetano para dar apoio ao seu trabalho de cura.

A compaixão está integrada à saúde e à felicidade neste sistema de crença.

“Ter compaixão pode trazer um estado privilegiado de saúde, porque a saúde da mente é a chave para a saúde do corpo”, explicou Dawa Ridak, um praticante da medicina tibetana com consultório em Brooklyn, falando através de um tradutor. “A compaixão ajuda o corpo a manter o equilíbrio. … Quando a mente tem felicidade, o corpo automaticamente torna-se mais saudável”.

A compaixão pode facilmente ser expulsa quando a mente está repleta de apegos. Na medicina tibetana, os apegos são vistos como fonte de desequilíbrio para a saúde.

“A causa da doença é o apego”, disse Joseph Choeying Phunstoek, um médico tibetano que recebeu seu treinamento no principal centro de medicina tibetana no norte da Índia, e agora trabalha em Nova York. “Se você se apegar, … esse vai ser o envenenamento, o desequilíbrio”, acrescentou.

Os três apegos básicos – materialismo, agressão e ignorância – podem levar a diferentes tipos de doença.

Por exemplo, um paciente que possui uma crença excessiva no materialismo pode ser mais propenso a desenvolver problemas relacionados à circulação, ao sistema nervoso, e à mente. Uma pessoa com raiva pode ter doenças relacionadas com o sangue e o fígado. A ignorância pode manifestar-se como condições que destroem os sistemas relacionados à mucosidade do corpo, tais como a digestão.

Embora a medicina tibetana acredite que a doença pode ser resultado de causas espirituais, também reconhece que a dieta e os fatores ambientais têm um papel a desempenhar. Por milhares de anos, os médicos tibetanos têm usado tentativa e erro para obter insights sobre saúde e cura, tornando a medicina tibetana um dos sistemas médicos mais abrangentes praticados no mundo de hoje.

Ciência

Tratamentos da medicina tibetana incluem dieta e modificação no estilo de vida, suplementos de ervas, massagem terapêutica, shiatsu, e acupuntura.

No entanto, antes de qualquer tratamento, os médicos fazem uma avaliação completa do perfil de saúde do paciente. Essa avaliação é feita usando técnicas para diagnóstico baseadas na observação, que inclui o exame das condições da língua, olhos, urina e fezes.

Os médicos tibetanos também leem o pulso e fazem uma infinidade de perguntas sobre o histórico médico, hábitos pessoais, e dieta, para que eles possam entender profundamente os fatores que influenciam a saúde.

A técnica de leitura de pulso na medicina tibetana é muito mais complexa do que apenas a medição da frequência cardíaca. Para tirar o pulso de um paciente, um médico coloca três dedos na parte interior (lado do polegar) do antebraço do paciente. Depois de anos de prática, eles são capazes de discernir pequenas variações na intensidade e no ritmo, e como isso corresponde à saúde dos diferentes órgãos do corpo.

Esta técnica é surpreendentemente precisa. Um jornalista austríaco que foi para os Estados Unidos para explorar modalidades alternativas de cura, disse ao Epoch Times que ficou impressionado com médico tibetano que examinou seu pulso e disse que ele tinha um problema renal. Poucos meses mais tarde, algumas dolorosas pedras no rim convenceram esse jornalista que o médico estava certo.

Dieta e mudança no estilo de vida são geralmente a primeira etapa do tratamento na medicina tibetana. A próxima etapa do tratamento inclui suplementos tibetanos de ervas, que possuem entre três e mais de 150 diferentes ingredientes vegetais e minerais. Estes suplementos têm fórmulas muito precisas e são produzidos através de processos muito elaborados.

O que torna esses suplementos muito diferentes de seus correspondentes ocidentais é que o clima no qual as plantas crescem, o tipo e a qualidade do solo, a quantidade de chuva e sol, a época do ano e dia da colheita, são considerados fatores importantes que afetam a potencialidade das ervas.

Na cultura e medicina tibetanas, acredita-se que a oração humana tem energia. Considera-se que as bênçãos recitadas dão uma potência extra aos suplementos, e fazem parte do processo de tratamento.

Circuito completo

Nascido e criado nos Estados Unidos, Tokar é um dos poucos médicos tibetanos do Ocidente. Ele se interessou por medicina tibetana depois de ver uma amiga, milagrosamente, recuperar a saúde com esta modalidade.

Durante anos, essa amiga sofreu de tuberculose, artrite reumatoide e febre. Em seguida, ela foi diagnosticada com osteomielite, uma infecção óssea dolorosa.

Os médicos convencionais disseram que ela precisaria de pelo menos nove meses de medicação e cirurgias para se recuperar da infecção. Ela optou por abrir mão dos tratamentos convencionais e tentar o caminho tibetano.

Dentro de seis meses, ela foi “capaz de recuperar praticamente toda a sua saúde”, disse Tokar.

Ele é cuidadoso em distinguir entre os fundamentos budistas da medicina tibetana e da prática do budismo. Segundo Tokar, o Dalai Lama explicou essa conexão usando a metáfora da mão e dos dedos, que estão muito ligados, mas não são a mesma coisa.

Ele atribui parte do sucesso dos tratamentos tibetanos ao fato de que eles podem ajudar as pessoas a entenderem melhor sua própria saúde, tanto os componentes físicos como psicológicos.

Tokar viu isso na atitude de uma paciente de um de seus professores, uma mulher que tinha sintomas psiquiátricos intrigantes. Ela veio procurar ajuda, como auxílio na psicoterapia, porque ouviu falar que a medicina tibetana tinha uma perspectiva espiritual.

“[Meu professor] fez um diagnóstico e compreendeu imediatamente … que esta não é qualquer tipo de doença com base espiritual”, Tokar lembrou. Depois de uma longa conversa, veio à tona que esta mulher tinha passado por um trauma grave no início da vida.

“[Ela] tinha sido submetida a vários medicamentos psiquiátricos para ajudá-la a lidar com o trauma, e ela se tornou uma viciada em drogas farmacêuticas. … As pessoas queriam idealizar [a doença] como algo muito esotérico, mas, na verdade, era algo muito direto e físico”, disse ele.

O professor de Tokar explicou quais os passos a mulher poderia tomar para reverter sua condição e deixar de ser uma paciente psiquiátrica. A princípio, essa ideia confundiu e enfureceu a paciente, que tinha se acostumado com o entendimento de que ela era psicótica. Depois de se acalmar, no entanto, ela concordou em tentar suas sugestões com a ajuda de seu terapeuta.

O conselho que um médico tibetano deu a Soehner, uma médica licenciada da medicina oriental com um consultório na cidade de Nove York, de igual modo a pegou de surpresa. Embora “sentisse como se tivessem jogado um balde de água fria”, foi “o melhor remédio que ele poderia ter dado”, disse ela.

Suas palavras: “A felicidade é pensar nos outros”, a tocou verdadeiramente, e Soehner vive isso no cotidiano, especialmente quando trata seus pacientes através da medicina chinesa.

“Quando eu estou tratando de um paciente, fico completamente ficada no que eu vou fazer para ajudar esse paciente. É como se eu desaparecesse por esse período de tempo … porque a minha atenção ficou completamente focada em ajudar meus pacientes”, explicou.

Ela descobriu que o trabalho voluntário é um remédio muito prático que ajuda os pacientes a encontrarem mais espaço e perspectiva sobre seus problemas.

“Não há nada melhor do que se doar para os menos afortunados, [pois] altera completamente a percepção dos próprios problemas e promove uma atitude de gratidão, que é um estado de cura da mente”, disse Soehner. “Às vezes, isso por si só é suficiente para proporcionar um experiência de cura mais expansiva”.

 
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