Limites do poder do petróleo da Arábia Saudita

Trabalhadores estrangeiros num canteiro de obras na capital saudita de Riad em 10 de abril de 2013 (Fayez Nureldine/AFP/Getty Images)

Graças ao petróleo abundante sob as areias de seus desertos e uma oferta igualmente abundante de mão de obra estrangeira – qualificada e não qualificada –, a Arábia Saudita tem desfrutado de uma economia em expansão. Os preços do petróleo bruto, quase a US$ 100 o barril por dois anos consecutivos, em grande parte pouparam a Arábia Saudita dos efeitos nocivos da crise econômica que estagnou muitas nações em todo o mundo. Graças à prosperidade, o reino também assistiu relativamente incólume aos eventos sísmicos da Primavera Árabe, estimulado em grande parte por sentimentos de privação econômica e marginalização política entre os jovens árabes.

Mas enquanto mais adultos jovens chegam ao mercado de trabalho e buscam emprego, enquanto o potencial de fontes concorrentes de energia surge em todo o mundo, os líderes devem se preparar para um futuro mais austero, abordando questões sobre o modelo de desenvolvimento da Arábia Saudita. Vítimas precoces dessas reconsiderações sauditas incluem milhões de expatriados que migraram para o reino petrolífero em ascensão. Enquanto alguns têm vivido e trabalhado no reino por muitos anos, o caminho para a cidadania é notoriamente inacessível e a maioria dos expatriados volta a seus países de origem em algum momento.

Observadores argumentam que a capacidade aparentemente ilimitada do governo saudita de gastar bilhões de dólares para mitigar crises políticas, sociais ou econômicas tem sido a chave para sua relativa estabilidade. Os líderes se esforçam para equilibrar o papel ainda predominante que o petróleo desempenha na economia saudita com o planejamento econômico de longo prazo e para demonstrar um compromisso com o capital humano, gastando generosamente em educação, habitação, cuidados de saúde e criação de emprego.

Em vários estágios do planejamento pelo reino surgiram 24 cidades industriais destinadas a proporcionar milhares de postos de trabalho, bem como habitação para cerca de 400 mil sauditas que se juntam à força de trabalho a cada ano. Estima-se que US$ 134,1 bilhões sejam destinados à dessalinização da água e a projetos de geração de eletricidade na próxima década. Cerca de 130 mil sauditas estudam no estrangeiro, como parte do Programa de Bolsas Rei Abdullah. Mais da metade dos sauditas matriculados em mais de 60 faculdades e universidades em todo o reino são mulheres.

Embora isso possa parecer um cenário ideal – um Estado disposto e apto a desenvolver seu capital humano ao máximo e uma população cada vez mais bem-educada e ansiosa por assumir o comando da maior economia do Oriente Médio – há uma ressalva: quase 9 milhões de habitantes da Arábia Saudita (ou 32% da população) são não-sauditas que realizam tudo, desde trabalhos de limpeza até a gestão dos maiores bancos do país. Estima-se que apenas 20% dos trabalhadores estrangeiros sejam considerados altamente qualificados; além disso, há cerca de 2 milhões de imigrantes ilegais. Numa sociedade em que líderes proclamam que os jovens são o futuro, o papel dos imigrantes não está claro.

Nos últimos anos, a população saudita explodiu – passando de 6,8 milhões em 1973 para mais de 28 milhões atualmente – desde que campos na província oriental começaram a jorrar petróleo que se provou o mais barato de extrair no mundo. Enquanto a produção e os preços do petróleo dispararam em alta velocidade desde o início da década de 1970, a Arábia Saudita passou por uma das transformações mais rápidas da história moderna. De pouco povoada e constituída em grande parte por desertos estéreis, a Arábia Saudita possui hoje rodovias, aeroportos e redes de comunicação de excelência.

Até muito recentemente, no entanto, o país não tinha a mão de obra necessária para implementar esse grande empreendimento. Esse chamado milagre no deserto precisou de um afluxo maciço de estrangeiros de todo o mundo árabe, África e Ásia para tornar o rápido desenvolvimento em realidade.

Recentemente, programas do governo de auxílio ao desemprego confirmaram o que muitos já sabiam há algum tempo: estima-se que 600 mil sauditas estejam desempregados, quase 80% destes com menos de 30 anos. Muitos argumentam que o setor privado, dominado por muito tempo por não-sauditas, é o lugar lógico para absorver os trabalhadores cidadãos.

Para evitar choques no sistema, as autoridades sauditas implementaram um programa chamado Nitaqat, que classifica as empresas de acordo com a porcentagem de cidadãos sauditas empregados. O Nitaqat recompensa empresas que contratam mais sauditas e penaliza aquelas que não o fazem. Embora considerada uma abordagem de senso comum por muitos, os empresários têm protestado contra o que chamam de normas arbitrárias que reduzem as margens de lucro.

Empresários sauditas reclamam há muito tempo em particular sobre certo senso de direito entre alguns jovens sauditas. Estes jovens, argumentam os empresários, esperam altos salários apesar da falta de experiência e evitam posições iniciais. Muitos não possuem as habilidades necessárias para preencher cargos técnicos ou não querem realizar trabalhos braçais. O debate silencioso entre empresários, planejadores governamentais e intelectuais permaneceu por trás de portas fechadas durante anos, mas desde então a conversa mudou para as plataformas de mídia social como o Twitter e salas de bate-papo na internet, bem como para a grande mídia.

No início de abril, o governo começou a reprimir os trabalhadores que violam normas obrigando-os a trabalhar apenas para o patrocinador original de seu visto, o que visa principalmente liberar as posições semiqualificadas que os cidadãos estavam aparentemente dispostos a preencher. Sauditas foram rapidamente lembrados do papel essencial que os migrantes realizam no reino, quando notícias de prisões se propagaram e centenas de lojas, restaurantes e escolas particulares fecharam as portas.

Enquanto há muitos que apoiam a repressão com base no argumento do estado de direito, uma pequena minoria expressou opiniões xenófobas, usando a internet não só para conseguir apoio à repressão, mas, em alguns casos, para lançar campanhas de difamação contra grupos específicos não-sauditas, especialmente imigrantes ilegais, que há muito vivem à margem da sociedade saudita. Alguns gritam a agenda “sauditas primeiro” retratando imigrantes e trabalhadores ilegais como verdadeiros “gafanhotos”, que invadem o país e se engajam em atividades ilegais, incluindo organizações criminosas, prostituição ou até mesmo bruxaria.

Com o ânimo intensificado, outros sauditas aconselharam seus compatriotas a não transferirem essa hostilidade aos milhões de trabalhadores legais que têm desempenhado um papel fundamental no desenvolvimento do reino e pediram aos sauditas que tratassem os imigrantes como hóspedes. Entre os escritores que pedem aos sauditas que olhem para si mesmos está Khalaf Al-Harbi da Gazeta Saudita: “A culpa está em nós e não nos trabalhadores estrangeiros.”

Enquanto isso, cerca de 800 mil iemenitas, indianos, paquistaneses e filipinos, entre outros deportados ao longo dos últimos 18 meses, adicionaram uma dimensão verdadeiramente global ao que as autoridades sauditas veem como medidas necessárias para reduzir a taxa de desemprego de 12%. Oficiais dos países de origem de alguns cidadãos têm manifestado preocupação com sua capacidade de absorver dezenas de milhares de pessoas num mercado de trabalho já apertado, com líderes no Iêmen e Filipinas reconhecendo que suas economias dependem de remessas do estrangeiro.

Um discurso já emocionalmente carregado foi complicado por uma série de casos de destaque, como o alegado abuso de trabalhadores estrangeiros por empregadores sauditas, além do igualmente preocupante relato de cuidadores estrangeiros que abusam ou até matam crianças sob seus cuidados. Alguns sauditas inclusive culparam membros árabes da Irmandade Muçulmana, que fugiram de lugares como o Egito e a Síria em 1950 e 1960, por “exportarem” uma abordagem islâmica militante para o reino.

Em abril, um representante do governo teria dito a um jornal local que os imãs nas mesquitas na região de Meca devem ser cidadãos sauditas, embora clérigos estrangeiros proeminentes continuem a pregar numa série de canais de televisão por satélite.

A incerteza e o pânico que se seguiram à repressão levaram o Rei Abdullah a declarar um período de tolerância de três meses para os trabalhadores ilegais retificarem seu status. Ainda assim, decisões difíceis esperam os sauditas sobre os milhões de não-sauditas que estão legalmente no país, enquanto o governo tenta resolver o elevado desemprego e garantir emprego para sua própria juventude.

Fahad Nazer é analista político da JTG Inc. em Viena, Virgínia. Suas análises aparecem no International Herald Tribune, no Daily Star do Líbano, no Khaleej Times e no Al Monitor, entre outros, e recentemente também no Conselho de Relações Exteriores. Com a permissão do YaleGlobal Online. Copyright © 2013, Centro Yale para o Estudo da Globalização da Universidade de Yale.

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