Iraque declara vitória final sobre Estado Islâmico

O primeiro-ministro Haider al-Abadi declarou a vitória final sobre o grupo terrorista do Estado Islâmico (EI) no sábado, 9 de dezembro, depois que as forças iraquianas do país repeliram os últimos restos do EI, três anos após o grupo militante ter capturado cerca de um terço do território iraquiano.

O anúncio ocorre dois dias depois que os militares russos anunciaram a derrota dos militantes na vizinha Síria, onde Moscou está apoiando as forças do governo sírio.

As forças iraquianas recuperaram as últimas áreas ainda sob o controle do EI ao longo da fronteira com a Síria, disseram os militares.

“Iraquianos honoráveis: sua terra foi completamente liberada. O sonho da libertação é agora uma realidade”, disse Abadi num pronunciamento televisionado, enquanto cinco bandeiras iraquianas e dezenas de militares de diferentes ramos completavam a cena atrás dele.

Iraque, Estado Islâmico - O primeiro-ministro iraquiano Haider al-Abadi pronuncia um discurso em Bagdá, Iraque, em 9 de dezembro de 2017 (Escritório de Mídia do Primeiro Ministro Iraquiano via Reuters)
O primeiro-ministro iraquiano Haider al-Abadi pronuncia um discurso em Bagdá, Iraque, em 9 de dezembro de 2017 (Escritório de Mídia do Primeiro Ministro Iraquiano via Reuters)

“Nós completamos uma missão muito difícil. Nossos heróis chegaram às fortalezas finais do Daesh e purificaram-nas. A bandeira iraquiana voa alto hoje sobre todas as terras iraquianas.”

Daesh é um acrônimo em árabe para o Estado Islâmico.

Vários esquadrões de helicópteros iraquianos voaram sobre Bagdá carregando bandeiras iraquianas ao meio-dia, num aparente ensaio para um desfile de vitória que o Iraque planeja realizar nos próximos dias.

O governo disse que a declaração significava que as forças iraquianas asseguraram o deserto ocidental e toda a fronteira entre o Iraque e a Síria e que isso marcou o fim da guerra contra o EI.

Abadi declarou o dia de 10 de dezembro um feriado nacional a ser comemorado anualmente. A televisão estatal exibiu canções de comemoração que elogiaram as forças governamentais e as milícias, e mostrou cenas de celebração nas ruas de Bagdá e em outras províncias.

A coalizão liderada pelos Estados Unidos, que tem apoiado as forças iraquianas contra o EI, congratulou a notícia, assim como Brett McGurk, o enviado-especial presidencial dos EUA para a coalizão.

“Felicitamos o primeiro-ministro e todo o povo iraquiano por essa conquista significativa, que muitos achavam impossível”, disse ele numa série de mensagens no Twitter.

“Nós honramos os sacrifícios do povo iraquiano, suas forças de segurança e os curdos peshmerga, e admiramos a unidade em suas fileiras que tornaram possível este dia.”

O Departamento de Estado dos EUA também emitiu uma declaração de congratulação.

‘Inimigo eterno’

Mosul, a outrora capital do EI no Iraque, caiu em julho após uma campanha de nove meses apoiada por uma coalizão liderada pelos EUA, que testemunhou a destruição de grande parte da cidade no norte do Iraque.

Raqqa, a capital síria do EI, também caiu em setembro em face de uma coalizão liderada pelos curdos e apoiada pelos EUA.

As forças que têm lutado contra o EI no Iraque e na Síria agora esperam uma nova fase de guerrilha, uma tática que os militantes já se mostraram capazes.

Abadi disse que o Iraque entrou “na fase pós-vitória sobre o Daesh” e deve estar preparado para futuras ameaças.

“O sonho do Daesh está acabado e devemos apagar todos os seus efeitos e não permitir que o terrorismo retorne. Apesar de anunciarmos a vitória final, devemos permanecer vigilantes e preparados contra qualquer tentativa de terrorismo em nosso país, pois o terrorismo é um inimigo eterno.”

Iraque, Estado Islâmico - Helicópteros iraquianos voam durante um desfile militar iraquiano em Bagdá, Iraque, em 10 de dezembro de 2017 (Khalid al-Mousily/Reuters)
Helicópteros iraquianos voam durante um desfile militar iraquiano em Bagdá, Iraque, em 10 de dezembro de 2017 (Khalid al-Mousily/Reuters)

A guerra teve um impacto devastador nas áreas anteriormente controladas pelos militantes. Cerca de 3,2 milhões de pessoas continuam deslocadas, afirmou um comunicado das Nações Unidas (ONU) no sábado.

Abu Bakr al-Baghdadi, o líder do EI que em 2014 declarou em Mosul a fundação de um novo califado islâmico no Iraque e na Síria, divulgou uma gravação de áudio em 28 de setembro, indicando que ele estava vivo após vários relatos de sua morte. Ele exortou seus seguidores a continuarem a luta apesar dos contratempos.

Acredita-se que Baghdadi esteja escondido num trecho do deserto na área da fronteira.

Seus seguidores impuseram um reino de terror às populações que controlaram, e alienaram muitos outros muçulmanos sunitas que apoiaram o grupo como aliados contra o governo de mão de ferro outrora liderado pela maioria xiita.

Os militantes capturaram milhares de mulheres da minoria yazidi, que viviam numa área montanhosa a oeste de Mosul, para servirem como escravas sexuais enquanto mataram os homens.

Desafios futuros

Repelidos de Mosul e Raqqa, o Estado Islâmico foi progressivamente espremido este ano numa faixa de deserto progressivamente menor, que atravessa a fronteira entre os dois países, por forças inimigas que incluem Estados regionais e potências globais.

No Iraque, o grupo enfrentou principalmente as forças do governo iraquiano apoiadas pelos Estados Unidos e combatentes curdos peshmerga, e paramilitares xiitas treinados pelo Irã conhecidos como Mobilização Popular.

Abadi elogiou as Forças de Mobilização Popular (FMP) e o principal clérigo xiita do Iraque, o Grande Ayatollah Ali al-Sistani, o qual convocou uma fatwa para atrair voluntários na luta contra o EI e que resultou na criação das FMP.

Ainda assim, o primeiro-ministro disse que o Estado deveria ter o monopólio do uso de armas. Desarmar o FMP é visto como o teste mais difícil de Abadi após a derrota do EI.

“As armas devem estar apenas nas mãos do Estado. O estado de direito e o respeito às leis são a forma de construir o Estado e alcançar justiça, igualdade e estabilidade”, afirmou.

Abadi pediu unidade, que ele disse ter sido o principal fator da vitória, uma referência à contribuição das diferentes comunidades, incluindo os combatentes tribais sunitas.

No entanto, o Iraque enfrenta um novo conflito interno depois de retaliar econômica e militarmente contra o governo regional semiautônomo do Curdistão por realizar um referendo sobre a independência, apesar da oposição de Bagdá.

“A alegria da vitória é completa com a união do Iraque, depois que esteve à beira da fragmentação. A unidade do Iraque e do seu povo é a realização mais importante e maior”, afirmou.

 
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