Imunidade a palhaços

Clientes comem num restaurante do McDonald (Scott Olson/Getty Images)
Clientes comem num restaurante do McDonald (Scott Olson/Getty Images)

Bilhões servidos. Alguém precisa reclamar.

No entanto, muitas das queixas contra o McDonald não são simplesmente uma questão de gosto. O filme “Super Size Me”, e obras semelhantes têm ajudado a revelar o efeito desta alimentação em nossa saúde. Ilustrações vívidas que expõem o lado feio da moderna produção de alimentos, gerando crescente indignação.

Um dos golpes mais recente nos Arcos Dourados ocorreu em maio de 2011, quando mais de 550 médicos promoveram uma grande campanha incentivando o gigante do fast-food a cortar seu personagem mais importante de sua marca cultivada por décadas. Uma carta aberta publicada amplamente ao CEO do McDonald, Jim Skinner, procura o fim do antigo palhaço e porta-voz Ronald McDonald.

“O aumento das doenças como diabetes e doenças cardíacas reflete o crescimento de seu negócio, crescimento impulsionado em grande parte pelo marketing infantil. Embora a Academia Americana de Pediatria considere seu marketing, ‘inerentemente enganoso para crianças menores de oito anos’, você continua a usá-la como um veículo para o crescimento da empresa”, diz um trecho da carta. “Hoje, seu ícone é tão conhecido como o Papai Noel, e o modelo de marketing do McDonald é utilizado por uma gama de indústrias abusivas.”

História parecida foi esboçada na campanha de 1990 para extinguir Joe Camel. O mesmo grupo, que agora está atrás de Ronald, se queixava de que “o caráter suave” de Camel foi uma influência insidiosa sobre a saúde e o bem estar das crianças.

R. J. Reynolds negou por anos que seu desenho de camelo fosse projetado para atrair crianças, mas um estudo descobriu que as crianças reconheciam Joe antes de outros desenhos como Mickey Mouse e Fred Flintstone, e com isso a empresa de tabaco cedeu à pressão.

A última vez que escrevi um artigo sobre comercialização de “junk food” para crianças eu também pedi o fim os promotores de desenho animado, mas alguns acreditam que isso ia longe demais. Os pais expressam preocupação de que esta tendência possa levar legisladores entusiasmados e profissionais da saúde infantil a limitarem a liberdade de escolha. Uma mãe de duas meninas (também amiga minha há muitos anos) apontou que o que está muitas vezes ausente neste debate é a autoridade dos pais, acima da dos outros, para julgar o que é melhor para seus filhos.

Ela tem um argumento, e McDonald está lá para justificá-la. Sempre que a indústria é atacada por seu envolvimento na potencial obesidade infantil, eles transferem a culpa aos pais, racionalizando que a epidemia de doenças relacionadas com a dieta é o produto da criação negligente dos pais ao invés dos desonestos interesses corporativos.

Mas vamos encarar; o assunto não deve ser baseado apenas na mente racional de um pai ou filho. Alguma vez você já presenciou uma criança perder a cabeça porque seus pais não lhe deram o que ela viu na TV? É uma loucura. Eles parecem possuídos. Eu aplaudo os determinados pais que enfrentam a birra, porque certamente não parece ser fácil. No entanto, não posso deixar de pensar que não haveria tais birras se não fosse por essa comercialização sutil e penetrante.

Além disso, mesmo os pais podem ser vítimas dessas mensagens. Ronald e sua espécie têm circulado publicamente por cerca de 50 anos antes de o público ser nutricionalmente consciente. Sua campanha funcionou tão bem que muitos adultos nos Estados Unidos estão hoje, e ao longo da vida, viciados em fast-food. Empresas investem bilhões a cada ano para vender às crianças, porque isto garante um cliente para a vida. Uma vez que o pai é viciado, o vício é transmitido de uma geração a outra. Ronald tem conseguido tecer sua influência dentro da família.

Também estão incluídos no processo de tomada de decisão dos pais, a conveniência, o baixo custo, e a fantasia de que de alguma forma ainda é saudável alimentar as crianças com esses alimentos falsos se feito apenas em pequenas quantidades. Pense sobre isso. Esta decisão não é baseada no que é melhor, mas simplesmente no que fomos ensinados desde a infância por um palhaço.

Os pais devem ter a autoridade final para determinar o que é melhor para seus filhos, mas isso não vai acontecer se Ronald e afins continuarem a existir afirmando sua influência insidiosa. Jogá-lo fora, mas não esquecê-lo completamente; deixe sua longa história servir de claro exemplo de como as campanhas publicitárias são usadas para hipnotizar e enganar. Podemos usar essa lição para desenvolver nossa imunidade a outros palhaços.

 
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