Expurgo no sistema de propaganda da China seguido de suicídios

Uma onda de suicídios e casos de doenças tem sido relatada recentemente entre os funcionários do sistema de propaganda do Partido Comunista Chinês, uma consequência evidente da enorme pressão sentida pela burocracia sob o novo líder chinês Xi Jinping, que está rearranjando os quadros que exercem funções na agência a fim de reforçar seu controle.

Por mais de uma década, o sistema de propaganda tem sido mantido sob o controle restrito de quadros leais ao ex-líder chinês Jiang Zemin, que governou oficialmente ou nos bastidores entre 1989-2004. O recente abalo é mais um passo na consolidação do poder de Xi Jinping no Partido Comunista e no aparato do Estado, muitas vezes à custa da coalizão de Jiang e de sua extensa rede de patronagem.

Nos últimos meses, seis suicídios foram reportados entre os oficiais de propaganda de alto escalão na China, alguns deles com poucos dias de diferença. O sistema de propaganda é parte integral da própria burocracia comunista, com sua central em Pequim, e possui escritórios alastrados por todo o país e em todos os níveis do governo e do Partido Comunista Chinês, bem como agentes-representantes em mídias estatais, jornais, websites, revistas, editoras, emissoras de televisão e rádio, etc.

A importância de controlar o aparato de propaganda nunca foi ignorada pelos líderes do Partido Comunista. Anne-Marie Brady, professora de política chinesa, escreve em seu livro de 2008: “Como os líderes [do Partido Comunista]… estão plenamente conscientes, quem controla o sistema de propaganda na China é capaz de dominar o sistema político.”

Sequência de mortes

Na segunda-feira, Zhou Honglang, diretor do Centro de Notícias e Informação da cidade de Jiangshan, província de Zhejiang, cometeu suicídio pulando do 5º andar de seu edifício de escritórios. No início do mês, houve uma série de suicídios apenas alguns dias de diferença.

Zhang Jingwu, de 47 anos, gerente-geral do Grupo de Imprensa e Publicação de Shenzhen, foi encontrado morto numa vala num parque em Shenzhen em 8 de maio com uma nota de suicídio próxima do corpo; parece que ele sofria de depressão.

He Weixing, de 49 anos, vice-diretor da Estação de Televisão e Rádio de Xiangxiang, na província de Hunan, foi encontrado pendurado pelo pescoço numa escadaria em seu escritório em 6 de maio. “Sofrimento, muito sofrimento. A vida é difícil, o trabalho é duro… Diligente, incapaz de realizar qualquer coisa, enorme pressão do trabalho…”, dizia a nota de suicídio.

Xu Xing, o vice-editor de 35 anos do Metro Express, um jornal afiliado ao estatal Diário de Hangzhou, também se suicidou, mas em 4 de maio. Sua família disse que ele estava sob grande pressão no trabalho recentemente e vivia deprimido e incapaz de dormir.

Song Bin, vice-diretor e editor-chefe do Escritório de Anhui do jornal estatal Xinhua, foi encontrado morto em seu escritório no final de abril: ele se enforcou, segundo a revista de negócios Caixin.

Mas o suicídio de maior destaque ocorreu em março, quando Li Wufeng, o vice-diretor do Escritório de Informação do Conselho de Estado – uma agência central cujo nome interno é ‘Escritório de Propaganda Estrangeira’ – teria cometido suicídio pulando de um prédio. Li também sofria de depressão, segundo o Takungpao, uma mídia pró-Pequim sediada em Hong Kong.

A onda de mortes no sistema de propaganda, algumas cujas reportagens foram posteriormente censuradas (provavelmente por ordem de ex-colegas dos falecidos), tem sido motivo de especulação e debate na internet chinesa. As explicações penetraram inevitavelmente no âmbito político.

“Eles estavam plenamente conscientes de que eram incapazes de fazer qualquer coisa, mesmo diante de tanta injustiça”, comentou um internauta chinês no Weibo, um website popular de mídia social na China. Yang Qinglin, repórter sênior do jornal Singpao, disse: “Eles ficaram desapontados com a sociedade e a vida. Então, decidiram se retirar!”

Han Lianchao, um pesquisador do Instituto Hudson, baseado em Washington DC, disse à Voz da América: “O Partido Comunista controla 100% dos meios de comunicação na China. A marketização da mídia hoje precisa ser responsável com os leitores e produzir notícias objetivas. O conflito entre esses dois objetivos coloca os funcionários de propaganda sob grande pressão”, disse ele. “Acho que algumas das mortes também estariam relacionadas à campanha anticorrupção.”

No entanto, deve haver mais nisso do que simples insatisfação no trabalho.

Mudança de pessoal

Os papéis principais no sistema de propaganda em toda a década de 2000 foram desempenhados por Liu Yunshan e Li Changchun, ambos nomeados para suas funções durante o mandato de Jiang Zemin. Liu foi o diretor do Departamento Central de Propaganda entre 2002-2012 enquanto detinha uma variedade de outros cargos importantes no sistema de propaganda; Li Changchun chefiou o Grupo Central da Liderança sobre Pensamento Político e Propaganda também entre 2002-2012.

Xi Jinping chegou ao poder em novembro de 2012, e desde então começou uma erosão constante da base de poder de Jiang Zemin em todo o Partido Comunista e no aparato governamental.

O sistema de propaganda, em particular, tem sido abalado nos últimos meses com uma série de novas nomeações de pessoal e a demissão de alguns altos funcionários. Os expurgos ocorreram aparentemente devido a acusações de corrupção, embora provavelmente o objetivo primordial seja nomear novos funcionários leais ao regime de Xi Jinping.

Estas mudanças ocorreram no alto escalão da mídia estatal e em agências de propaganda por toda a China. Três casos de destituições de alto escalão nos grandes conglomerados de mídia nas províncias em torno de China oferecem os exemplos mais marcantes.

Zhang Qigeng, o gerente-geral do estatal Grupo de Mídia Diário de Hubei, foi demitido do cargo e do comitê local do Partido Comunista em 5 de maio e colocado sob investigação por “suspeitas de violações graves da lei”, segundo a Comitê de Inspeção Disciplinar da província de Hubei. O Grupo de Mídia Hubei é a maior empresa de mídia na província, com ativos de 5 bilhões de yuanes (US$ 801 milhões), envolvendo 11 jornais, 5 websites de notícia, uma editora e 8 empresas subsidiárias. Seus jornais têm uma circulação diária de 8 milhões.

Zhang era uma figura conhecida nos círculos de mídia de Hubei, depois de fundar o popular Diário Metropolitano Chutian, que floresceu sob sua direção por uma década. Artigos da mídia oficial não deram detalhes sobre seus supostos crimes.

Shu Zhan, diretor do Grupo de Mídia Fujian e da estação de televisão provincial de Fujian, foi investigado pelo Comitê de Inspeção Disciplinar em 4 de maio, após a visita de uma equipe de auditoria do governo central. Shu, também o secretário do Partido Comunista na estação de TV, mais tarde foi acusado de “violações graves da lei”.

Gao Jianyun, vice-diretor do 5º Escritório de Propaganda Estrangeira, foi posto sob investigação em 18 de abril por “violações graves da lei”.

Além destas deposições, a própria mídia porta-voz do Partido Comunista, o Diário do Povo, foi abalada. As autoridades anunciaram a demissão dos quatro principais editores-executivos – incluindo o diretor-chefe, um vice-diretor, um editor-chefe e um vice-editor – numa prazo de cinco dias em abril.

Em 30 de abril, foi anunciado que o novo diretor do Diário do Povo é Yang Zhenwu, o ex-editor-chefe da publicação e um conhecido aliado do líder chinês Xi Jinping.

 
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