‘EUA é nosso inimigo’, diz documentário militar chinês

Um documentário produzido por militares chineses de alto escalão diz que os Estados Unidos têm tentado por décadas subverter a China e derrubar o Partido Comunista Chinês (PCC).

O filme, que se estende por 92 minutos e foi produzido pela Universidade de Defesa Nacional (UDN) da China, apareceu pela primeira vez em websites chineses no final de outubro e foi excluído vários dias depois. Intitulado “Batalha Silenciosa”, o filme soa como um sinal de alerta sombrio contra o que ele diz serem projetos americanos para atacar a ideologia e a cultura do sistema comunista chinês por meios abomináveis como “infiltração econômica”.

Os produtores-chefes do filme, que foi feito em junho, são dois generais seniores do Exército da Liberação Popular (ELP): Liu Yazhou, um general e comissário político da UDN do ELP, e Wang Xibin, outro general.

Muitos pontos de vista no documentário não são novidade nas facções ideológicas linha-dura do exército chinês, mas é incomum eles serem apresentados dessa maneira escancarada. Analistas disseram que as forças de esquerda no exército chinês podem estar tentando pressionar a liderança do PCC para fazê-lo adotar políticas mais rígidas ou para enviar um sinal de alerta aos intelectuais liberais na China, que desejam menor intervenção do PCC na vida econômica e política do país.

Luta inevitável

“O conflito e a luta com o sistema hegemônico norte-americano é inevitável no caminho do rejuvenescimento nacional da China”, declarada o filme em sua abertura. “É um século de luta que não depende da vontade individual.”

O documentário argumenta que, após o colapso da União Soviética, foi a China que entrou na alça de mira dos EUA. Uma águia de expressão sombria olha para a câmera.

Segundo este ponto de vista, até mesmo a tentativa dos Estados Unidos de se envolver com a China tem o propósito dissimulado de desfazer o regime do PCC, algo que os políticos norte-americanos negam.

O vídeo cita a Teoria do Muro de Berlim do ex-presidente Bill Clinton para amparar suas alegações sobre as verdadeiras intenções dos EUA: “Eu não acho que haja como alguém discordar que a China possa reter [a liberdade] assim como o Muro de Berlim eventualmente caiu. Eu só acho que é inevitável.”

Nos EUA, isto foi interpretado que Clinton estava adotando políticas que evitavam confronto com a China. O documentário, no entanto, usa isso como prova contundente da trama dissimulada dos EUA.

Linha-dura

“As pessoas que produziram este documentário são as mais representativas da ideologia comunista ortodoxa no PCC”, disse Shi Cangshan, um analista independente sobre o PCC que vive em Washington DC.

Ele observou que ruídos semelhantes foram feitos na década de 1980 durante a Campanha Antipoluição Espiritual, outra reação da esquerda às forças da modernização econômica.

“Não acho que essas opiniões sejam muito representativas da liderança central, mas principalmente das pessoas nas forças armadas.” Shi disse que eles podem ter deliberadamente vazado o vídeo para pressionar publicamente a liderança e, ao mesmo tempo, colocar em alerta algumas vozes liberais mais conhecidas na China.

O documentário cita alguns jornais, como o Diário Metropolitano do Sul, e indivíduos, como He Weifang, como sendo ferramentas de forças ocidentais hostis. Isto, disse Shi, indica que a questão pode ser mais doméstica do que propaganda estrangeira.

A UDN não parece ter um website próprio, por isso não foi possível contatá-la para verificar se ela realmente produziu o documentário. No entanto, entrevistas com altos militares, que não haviam ido a público previamente, e a narrativa oficial deixaram poucas dúvidas sobre suas origens.

Reação online

Muitos internautas chineses não ficaram impressionados com os argumentos impregnados no filme ou com seu estilo propagandístico e alarmista.

He Weifang, um dos estudiosos nomeados e atacados como uma ferramenta americana para a subversão da China, respondeu numa postagem online: “Esta batalha silenciosa está cheia da mentalidade da Guerra Fria e de linguagem de incitamento. E demoniza a busca da liberdade e da democracia em outros países e inclusive culpa os EUA de uma conspiração por sua própria corrupção e ausência de democracia e estado de direito. É extremamente ridículo.”

Internautas disseram que o documentário é “danoso” e “lavagem cerebral”: “Esse filme é um lixo. O tom do filme é como a Revolução Cultural. Nem vale a pena argumentar contra. Mas estou surpreso que tenha sido produzido pela UDN, o que significa que um grande número de pessoas lá é remanescente da Revolução Cultural. Eles não fazem pesquisa sobre assuntos militares, mas fazem filmes sobre política. Qual é seu objetivo?”

 
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