A crescente paranoia do regime chinês com a manutenção da estabilidade

Protestos de rua na China, explosões súbitas de violência atribuídas a terroristas e uma raiva crescente contra o regime no poder levaram o Partido Comunista Chinês a reforçar ainda mais suas forças de segurança com unidades policiais especiais e veículos blindados, multiplicar patrulhas e expandir sua típica propaganda difamatória contra ‘malfeitores’. Mas a abordagem paranoica e intensa do regime não parece estar acalmando as tensões no país.

Desde um mortal ataque à bomba na Praça da Paz Celestial em Pequim em outubro passado, que o regime atribuiu a terroristas islâmicos, a atmosfera na China permanece tensa. O Partido Comunista também criou um novo órgão de segurança para coordenar e incrementar nacionalmente a luta contra as forças desestabilizadoras no país.

“Os terroristas, separatistas e extremistas ficarão todos muito nervosos. Em geral, todas essas forças que tendem a ameaçar ou sabotar a segurança nacional da China ficarão nervosas”, anunciou Qin Gang, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, numa coletiva de imprensa em janeiro, quando anunciou a formação de um novo Comitê de Segurança Nacional a ser dirigido pelo líder chinês Xi Jinping, segundo a mídia estatal.

Explicando o novo e abrangente órgão de segurança, Li Wei, diretor do centro de estudos de antiterrorismo do Instituto de Relações Internacionais Contemporâneas da China, que é afiliado ao Ministério da Segurança de Estado do regime, disse ao Beijing Times: “A criação do Comitê de Segurança Nacional visa a evitar crises antes que elas emerjam.”

Mas forças violentas na China têm conseguido realizar ataques sangrentos mês após mês, que nem as amplas forças policiais de plantão nem seus sistemas de vigilância pan-ópticos têm sido capazes de prevenir ou silenciar com rapidez.

Em 1º de março, às vésperas de uma importante reunião política em Pequim, oito indivíduos mascarados e armados com facas mataram 29 pessoas e feriram 143 (incluindo sete policiais) numa estação de trem em Kunming.

Em 30 de abril, uma estação de trem na capital de Xinjiang, Urumqi, sofreu um atentado à bomba no último dia da alardeada visita de Xi Jinping à conturbada região, matando três e ferindo outras 79 pessoas. Xinjiang é o lar de um povo de língua turca, os uigures, que em geral estão bastante insatisfeitos com as políticas ‘de estilo colonizador’ do regime, conforme a opinião de analistas.

Outro ataque numa estação ferroviária na província de Guangdong, capital da província de Guangzhou, no Sul da China, feriu pelo menos seis pessoas em 6 de maio.

Pouco depois, em 22 de maio, dois veículos carregados de explosivos atacaram um mercado em Urumqi, matando 31 pessoas e ferindo pelo menos 90, o ataque mais sério até o momento.

A nova agência de segurança do Partido Comunista tem respondido a estes incidentes sangrentos com uma intensa campanha de propaganda e o desfile de milhares de policiais, forças especiais de segurança e veículos militares em várias cidades do país.

Pequim introduziu patrulhas armadas em meados de maio para lidar com protestos e ataques terroristas. Centenas de veículos da polícia militar e cerca 1.300 policiais foram mobilizados na capital para responder imediatamente a incidentes envolvendo armas, bombas e terrorismo, segundo a mídia estatal Xinhua.

Policiais militares também têm realizado treinamento especial “contraterrorismo”, que envolve combates em formação contra multidões de atacantes armados com paus e tacos – uma cena que mais parece uma briga de rua contra multidões furiosas do que qualquer ameaça terrorista real.

A polícia especial em Shanghai foi equipada com 20 peças de equipamento, incluindo capacetes antichoque, coletes à prova de balas, cassetetes, cobertores contra incêndio e equipamentos de comunicações com tecnologia 4G.

A polícia de Nanjing adquiriu recentemente 52 novos veículos blindados de patrulha, 128 viaturas, 14 outros veículos de policiamento e outros equipamentos, além de câmeras para unidades da polícia aérea.

A província de Jiangsu tem mais de 11.700 policiais patrulhando todos os dias, com quase 3 mil veículos equipados com armas de fogo para lidar com motins e situações de emergência, informou o Diário da Manhã do Sul da China.

Os próprios policiais admitem que os problemas de instabilidade social e violência são assustadores. Mortes de policiais aumentaram a tal ponto que o Partido Comunista Chinês e nove departamentos de Assuntos Civis anunciaram um aumento substancial na pensão e programas de benefícios para viúvas.

De acordo com estatísticas do Ministério da Segurança Pública da China, 449 policiais morreram em 2013. O primeiro “Manual de Segurança Nacional” também se referiu à alta incidência de violência em 2013, que em sua grande maioria é dirigida contra agentes do Estado.

Advogados de direitos civis na China dizem que a polícia frequentemente serve de bucha de canhão do regime.

“Um sistema de partido único governa pelo terror”, disse Li Tiantian, um advogado de direitos na China, numa entrevista à emissora NTDTV. “Para manter o sentimento de crise, eles devem reforçar o sentimento de terror e as ameaças às pessoas. Agora eles têm de reforçar este sentimento de medo, porque caso contrário o regime não sobreviverá.”

O sr. Chen de Shanghai disse à NTDTV: “Isso é mais uma exibição simbólica, porém de pouco valor prático… Os problemas na política interna, na economia e os conflitos sociais são irreconciliáveis. O regime comunista é paranoico com a instabilidade social porque teme o próprio fim.”

 
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