O conceito de paisagem e seu lugar na história da arte – Parte 2

Na pintura de paisagem, como dito anteriormente, tanto a luz, como a perspectiva são importantes instrumentos de representação. Diz-se que é por meio da luz que o pintor de paisagens pode remeter a diversos sentimentos, já que a reação emocional à luz é talento essencial, necessário ao artista.

Tomemos como exemplo a arte flamenga, em que a luz cumpre papel essencial na representação do céu, elemento paisagístico principal na pintura holandesa. Na pintura holandesa do século XVII, a paisagem, que por meio da luz, a totalidade do espaço pôde ser apreendida, o pintor via na natureza sua fonte de inspiração. (Ver Winter View outside Arnhem, Ruysdael).

Importava ver nas representações experiências reconhecíveis e questionar a respeito da organização do mundo. Além disso, a paisagem gerava a sensação de tranquilidade, necessária após o momento histórico e social da Contra Reforma. No final do século XVII, a pintura da luz deixou de se relacionar com sentimentos positivos a simples estratégia; o uso da câmara escura, por exemplo, era acessório cotidiano. A visão naturalista, portanto, fica quase impossibilitada de ocorrer no século XVIII, mas sua influência direta pode ser observada na visão do século XIX, como veremos posteriormente.

Voltando à questão da perspectiva, vemos sua relevância na representação de fundos e cenários, para a ilustração de temas históricos, religiosos e poéticos, com as descrições de paisagens. Nicolas Poussin usava a perspectiva com instrumento essencial para representação espacial como uma forma de ordenação. Em suas paisagens elaboradas, Poussin ambicionava exprimir um mundo ideal, por meio da ordenação precisa dos elementos desorganizados no ambiente natural.

Cada forma disposta era resultado de um profundo estudo, baseado em uma compreensão específica do meio pictórico: a base e a permanência da pintura estariam na harmonia entre elementos horizontais e verticais do desenho. Como estratégia, usou as linhas verticais com a inserção da arquitetura, para compor um ritmo com as linhas horizontais que prevalecem na paisagem, de modo a obter harmonia.

A arquitetura, além de atribuir um caráter antigo à paisagem, trazia geometria à composição. A perspectiva geométrica representaria o meio ideal para a condução do olhar do espectador no espaço da cena, com a combinação das linhas verticais, horizontais e diagonais.  Poussin aliou ao uso da perspectiva a visão naturalista, combinando o ideal com o real. (Ver O rapto das sabinas, de Poussin).

Historicamente, as novas ideologias científicas de Darwin e Malthus, surgidas por volta de 1850, negaram o ambiente divino. Essa representação do sagrado para narrativas transformou-se em uma fantasia. Os princípios de Poussin seriam apreciados, mas não a ideia do divino presente no meio terreno.

Maryella Sobrinho é graduada em Artes Plásticas pela Universidade de Brasília e mestranda de Teoria e História da Arte pela mesma Universidade. Cursou Metodologia da História da Arte no Instituto Superior del Arte neste ano em Madri

 
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