O colapso da China: entrevista exclusiva com Gordon Chang

NOVA YORK – Gordon Chang estava um pouco à frente do tempo quando escreveu o livro “The Coming Collapse of China”, em 2001.

Naquela época, ele afirmou que a economia chinesa entraria em colapso e que o Partido Comunista cairia em dez anos. Como estamos em 2015, sua previsão está quatro anos atrasada.

Entretanto, muitos de seus argumentos ainda são precisos. Como a economia política da China vem se tornando cada vez mais volátil, o Epoch Times convidou Chang para conversar sobre o passado e o cada vez mais incerto futuro da China.

Epoch Times: Você escreveu seu livro “The Coming Collapse of China” em 2001. Onde estamos agora?

Gordon Chang: Em 2001, eu disse que levaria dez anos para o Partido Comunista cair. Então minha previsão estava cerca de quatro anos atrasada. Mas o que estamos vendo agora são, de fato, os estágios iniciais do colapso, não só da economia, mas também do sistema político.

Agora eles têm uma economia que não está crescendo os 7,0 por cento [afirmados pelo governo chinês], [o crescimento] está mais para 1 ou 2 por cento. Em Pequim, eles têm falado internamente de [um crescimento de] 2,2 por cento.

A coisa mais importante é que o dinheiro está saindo do país a taxas sem precedentes. A Bloomberg, que acompanha esses trâmites, falou que saíram US $ 144 bilhões da China, em agosto. A Goldman Sachs afirmou que na realidade saíram US $ 178 bilhões. Isso é um sinal extremamente relevante sobre como as coisas estão indo na China.

O problema enfrentado pelos líderes da China no momento é que eles não conseguem parar a descida de sua economia. Eles podem talvez diminuir o ritmo de declínio, mas não podem mudar de direção, porque tudo o que eles têm usado até agora – estímulo monetário, estímulo fiscal, boom do mercado de ações, desvalorização do yuan – todas essas táticas falharam.

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Epoch Times: Qual é a raiz do problema econômico?

Mr. Chang: Todo mundo diz: “Oh, [a China] tem o maior acúmulo de reservas cambiais do mundo, como poderia ter problemas?” Bem, sim, a China não vai ter um problema de dívida externa. Não vai ser uma Argentina.

Mas quando você analisa a história das crises financeiras, as piores não são aquelas orientadas pela dívida externa; as piores crises financeiras são internas, e é isso que a China tem.

Eles têm um monte de dívidas, talvez cerca de 350% do PIB – quando este é devidamente declarado pelo governo e quando toda a dívida é contada.

McKinsey disse no final de junho de 2014, que a proporção da dívida chinesa em relação ao PIB era de 282%. Obviamente, piorou desde então. Eu acho que eles estavam subestimando a dívida. Neste momento, virou uma situação extremamente grave, especialmente para um país em desenvolvimento como a China.

Não é inconcebível que eles percam a sua posição como número 2 para o Japão. O Japão nem precisa cresce, tudo o que ele têm que fazer é ficar na mesma. Penso que a China vai encolher.

Epoch Times: O regime pode usar a política para solucionar o problema?

Mr. Chang: Desde novembro, houve cinco reduções nas taxas de juros de referência, quatro reduções no coeficiente de reservas obrigatórias, e nenhum efeito apreciável.

Em relação ao estímulo fiscal, se eles construírem outra cidade fantasma ou outra linha de metrô em Pequim, bem ok, poderão aumentar um pouco o PIB, mas criarão dívida. Devido ao “malinvestment” [ou mau investimento] e à baixa eficiência, essa não é uma solução para eles.

Eles também fizeram o boom do mercado de ações, incentivando [os negócios] de forma imprudente. Esta foi uma maneira de salvar a si mesmos, bem, agora essa bolha já estourou.

E em agosto veio a desvalorização [intencional] do yuan, o que ainda é intrigante. Dá para entender o que eles estavam tentando fazer? Obviamente que lhes causou problemas reais, porque a confiança ficou abalada; não só dentro da China, mas no mundo todo também.

Se analisarmos todas as coisas que eles têm tentado fazer, veremos que, no passado, eles geraram crescimento através destas técnicas. Porém eles não estão conseguindo fazer isso agora, o que significa que estão realmente em perigo. Provavelmente ocorrerão mais e mais protestos.

Epoch Times: Você só pode melhorar a situação, dando ao povo mais liberdade.

Mr. Chang: Quantas vezes você já ouviu: “O Partido Comunista tirou 400 milhões, 500 milhões de pessoas da pobreza”?

Isso é mentira. Deng Xiaoping [sucessor de Mao] liberou um pouco as rédeas, e assim o povo chinês conseguiu dar passos adiante. Deng Xiaoping percebeu que era preciso mudar um pouco a agricultura, então eles adotaram o Sistema de Responsabilidade Familiar, onde as famílias poderiam adquirir terrenos.

Entretanto, de acordo com as regras do governo central, estes terrenos não poderiam ser administrados por apenas uma família. As famílias não gostaram dessa ideia, pois queriam seus próprios lotes. Diante disso, as autoridades locais simplesmente ignoraram as regras do governo central, e assim retornou o crescimento da agricultura. Não por causa de Deng Xiaoping, mas porque as pessoas ignoraram as regras de Deng.

Empresários muito corajosos, alguns ex-funcionários do governo, algumas pessoas que eram mendigos, decidiram se tornar empreendedores. Foram eles que criaram essa riqueza. Na realidade, era o Partido Comunista que estava puxando-os para trás. O Estado realmente não tem condições de criar um crescimento com bases sustentáveis.

Você precisa ter um modelo de crescimento sustentável, e sob o desejo do Partido Comunista de controlar tudo, eles acabam com uma economia insustentável.

Gordon G. Chang, autor de "The Coming Collapse of China", em Nova York, no dia 30 de setembro (Benjamin Chasteen / Epoch Times)
Gordon G. Chang, autor de “The Coming Collapse of China”, em Nova York, no dia 30 de setembro (Benjamin Chasteen / Epoch Times)

Epoch Times: Você também escreveu em seu livro, em 2001, que muitos diziam que a China seria a maior economia do mundo em 2010. Outros dizem que vai ser a maior economia em 2020. Um dos problemas é que a China simplesmente não está inovando. Eles não têm a capacidade de inovar e competir no mercado global.

Mr. Chang: Para evitar a armadilha de renda média e tentar escapar da fabricação barata como base para sua economia, eles precisam investir em inovação. Não é como se o povo chinês fosse idiota, é claro que eles não são. Eles podem ser tão inovadores quanto qualquer outra pessoa no mundo, mas não no sistema em que operam.

Devido ao controle da educação, ao controle de tudo, a capacidade dos empresários chineses de inovar é inevitavelmente afetada.

Existem algumas restrições reais, que são importantes. Por exemplo, desde o início de julho, a fim de apoiar o mercado de ações, Pequim eliminou as Ofertas Públicas Iniciais (OPI). O primeiro-ministro Li Keqiang fala sobre sua economia Internet-plus, mas não se pode ter essa economia caso as empresas não obtenham dinheiro.

Impedir as OPIs significa sufocar as habilidades realmente inovadoras de pequenas empresas em crescimento. Essa é a história do Vale do Silício, na Califórnia, onde há diversas empresas icônicas; mas que começaram em uma garagem. A mais famosa é a Apple, mas também podemos citar outros exemplos, como a Hewlett-Packard.

Estas são empresas de garagem que se tornaram multinacionais porque foram capazes de operar no ambiente de fluxo livre da Califórnia, onde elas poderiam obter dinheiro, conhecimentos, poderiam obter o que quisessem; e assim elas cresceram. Mas não é possível fazer isso na China agora, devido às restrições impostas pelo Estado para fins políticos.

Até que eles mudem esse sistema, a China não vai mostrar essa economia inovadora e desenvolvida que o mundo espera ver.

Epoch Times: Você viveu na China por um longo tempo, conte-nos sobre a tomada de riscos.

Mr. Chang: Eles têm um sistema legislativo de falência, mas as empresas não falem porque são estatais. Você não pode obter capital, ou é muito difícil de se obter capital, se você é uma empresa pequena e privada.

A China tem várias empresas boas. Os capitalistas de risco vão para lá. O problema é que eles simplesmente não podem crescer. Eles não têm o mesmo ambiente que se tem no Vale do Silício, onde as pessoas podem tentar criar um negócio, falhar, levantar e tentar novamente.

É como a inspiradora história da Disney. Walt Disney falhou diversas vezes. Todas essas pessoas que nós vemos como ícones, a maioria delas falhou alguma vez. Infelizmente, este não é o caso na China.

[O país] é demasiadamente rígido, demasiadamente dominado pelo Estado. Infelizmente, as empresas estatais estão se tornando cada vez mais poderosas politicamente, elas são realmente capazes de impedir a mudança necessária na China de hoje, para que então não se tenha a cultura que tem no Vale do Silício.

Eles gostariam de replicar [o Vale do Silício], eles certamente podem construir edifícios; mas eles não podem replicar a cultura, porque a cultura é o que realmente prospera em uma sociedade aberta, livre e libertária. Isso não faz parte da China.

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Epoch Times: Muitas pessoas que fizeram muito dinheiro [na China] não querem que este sistema mude.

Mr. Chang: Na crise de 2008, a China decidiu que iria rejeitar todo o conceito de uma recessão, e então criaram o maior programa de estímulo do mundo. Em cinco anos, contando a partir de 2009, eles adicionaram um montante de crédito equivalente ao total do sistema bancário dos EUA. Veja, no final de 2008, a economia chinesa não era nem um terço do tamanho da americana.

Então, sim, eles criaram o crescimento, mas também colocaram muito dinheiro em sua economia e, essencialmente, o que eles fizeram foi criar todas estas bolhas de ativos, o que não podem mudar agora. Isso fez com que as empresas estatais se tornassem extremamente poderosas.

Eles foram capazes de capturar todo o dinheiro emprestado por bancos estatais. Eles foram capazes de expandir todo esse estímulo para fora de Pequim, e então se tornaram extremamente poderosos politicamente. E eles vêm usando este poder nos últimos anos essencialmente para fechar empresas estrangeiras, como temos visto, e também fizeram isso com companhias do mercado interno chinês.

Este é um problema político, porque as forças que poderiam mudar a China para melhor não possuem tal tipo de poder político para isso, e no sistema Chinês é isso que conta.

Epoch Times: O país necessita do espírito empreendedor do povo para se tornar a maior economia, o que, dado seu tamanho, é o que a China deveria ser.

Mr. Chang: Absolutamente, e agora tem-se falado que a economia chinesa passou dos US $ 10 trilhões … nós realmente não sabemos o quão grande é a economia chinesa. Sabemos que os números recentes exageram o desempenho econômico.

Provavelmente não seja de US $ 10 trilhões, como os líderes chineses afirmam. Há tantos indicadores de que a economia está crescendo a um ritmo muito mais lente e assim, portanto, a China pode ter US $ 8 trilhões ou até US $ 9 trilhões, mas com certeza ela não está em um caminho para ultrapassar os EUA.

Não é inconcebível que eles percam a sua posição como número 2 para o Japão. O Japão nem precisa cresce, tudo o que ele têm que fazer é ficar na mesma. Penso que a China vai encolher.

Gordon G. Chang é autor do livro “The Coming Collapse of China” (O Vindoura Colapso Chinês). Chang é graduado pela Universidade de Cornell, e completou sua licenciatura em direito na Universidade de Direito de Cornell. Antes de se tornar um escritor, Chang praticou sua profissão nos EUA e na China.

Esta entrevista foi editada para concisão e clareza.

 
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