Chineses do continente abocanham medicamentos em Hong Kong

Preços altos na China continental não são cobertos pelo seguro de saúde
Os surtos epidêmicos de gripe e fraudes generalizadas na indústria farmacêutica na China continental tem favorecido a popularização das farmácias de Hong Kong, mas isso tem resultado em inflação e escassez local, além de preocupação da população de Hong Kong (Mike Clarke/AFP/Getty Images)
Os surtos epidêmicos de gripe e fraudes generalizadas na indústria farmacêutica na China continental tem favorecido a popularização das farmácias de Hong Kong, mas isso tem resultado em inflação e escassez local, além de preocupação da população de Hong Kong (Mike Clarke/AFP/Getty Images)

Farmácias de Hong Kong vendem remédios 40-60% mais barato do que na China continental, fazendo com que os residentes do continente corram para Hong Kong em busca de preços melhores.

O Hong Kong Daily News informou recentemente que alguns medicamentos para câncer vendidos em farmácias de Hong Kong são quase 40% mais barato do que os mesmos vendidos na China continental. Uma dessas drogas, chamada Herceptin, custa 24 mil yuanes (US$ 3.921) no continente, mas ela não é coberta pelo seguro de saúde. Em Hong Kong, o mesmo medicamento é 9 mil yuanes (US$ 1.470) mais barato.

Outro medicamento contra o câncer chamado Iressa pode ser adquirido com desconto de 60% em Hong Kong. Uma mulher de Changchun disse a um repórter de uma mídia estatal da China que ela compra Iressa, um produto da empresa inglesa AstraZeneca, em Hong Kong por causa da grande diferença de preço.

De acordo com a mulher: “Seu preço é de 5.099 yuanes (US$ 833) por caixa em Changchun, que é basicamente o mesmo em toda a China, apesar de Pequim ou Shanghai poderem vendê-lo até 100 yuanes (US$ 16) mais barato. Então, nós sempre pedimos a amigos que vão a Hong Kong para comprarem, porque o preço lá é 2.234 yuanes (US$ 365) por caixa, o que equivale a um desconto de 60% em relação a Changchun.”

O Duowei News, um site de notícias em língua chinesa sediado nos Estados Unidos, informou recentemente que mais de 50% dos clientes de algumas drogarias de Hong Kong são da China continental.

Embora este afluxo de compradores do continente torne o negócio lucrativo para as drogarias de Hong Kong, os moradores locais temem que isso cause uma escassez de medicamentos e eleve os preços.

Um resultado semelhante ocorreu em 2008, após uma fórmula infantil (de leite em pó) contaminada com a substância tóxica melamina ter causado a morte de pelo menos seis bebês e hospitalizado mais de 300 mil outros, segundo as autoridades. Uma vez que o incidente foi reportado na China, um grande número de pais chineses passou a ir a Hong Kong para comprar fórmula infantil.

Como resultado, não só o preço da fórmula de leite aumentou, mas muitas lojas também ficaram sem estoques. O governo de Hong Kong impôs um limite legal para a quantidade de fórmula infantil que pode ser levada de Hong Kong.

Pais locais reclamam que o aumento do número de chineses continentais comprando medicamentos em Hong Kong também possa causar escassez e resultar no governo local impondo uma restrição similar.

Enquanto chineses continentais migram para Hong Kong por medicamentos com melhores preços, a mídia estatal chinesa culpou a falta de supervisão adequada pelos altos preços.

O Duowei News informou que os preços são exorbitantes devido a um sistema médico corrupto que envolve conluio entre as empresas farmacêuticas multinacionais e os funcionários chineses de alto escalão.

Em julho, a subsidiária chinesa da gigante farmacêutica GlaxoSmithKline foi acusada de subornar médicos para ganhar na venda de drogas.

Um gerente de marketing da GSK China para a região de Zhengzhou disse a um repórter do New Express Daily que o suborno é parte do treinamento de novos funcionários. Ele disse que, além de receber treinamento sobre os medicamentos da GSK e seu uso, o vendedor é treinado para usar 7-10% do valor da compra para manter um relacionamento com o médico.

O China Securities Journal informou que muitas empresas multinacionais contratam pessoas com laços profundos com o regime chinês para ter acesso a posições-chave. Essas contratações especiais geralmente não participam nas tarefas administrativas, mas são as principais responsáveis pelo trabalho estratégico e político.

Eles se comunicam com membros do Congresso Popular Nacional e do Congresso Consultivo Político Popular – um órgão consultivo nacional do Partido Comunista Chinês – e outras autoridades chinesas influentes. Ao estabelecer tais conexões, esses funcionários ajudam a ganhar influência e participação de mercado para suas empresas.

O periódico Securities Market Weekly informou que a GSK China empregou anteriormente como diretora de Relações Públicas a filha de Hu Yaobang, um ex-líder chinês. Li Heng deixou a GSK China em 2007.

Li Zhenfu, o filho de Li Ruihuan, um ex-membro do Comitê Permanente do Politburo, foi CEO da empresa farmacêutica Novartis China por três anos. A atual diretora de Assuntos Corporativos da Pfizer China, Ping Danlong, é neta de Li Dequan, o ministro da Saúde da China.

 
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