Campos de trabalho abolidos, mas abusos continuam inabaláveis

De acordo com uma decisão aprovada pelo Comitê Central do Partido Comunista Chinês (PCC) e publicada em 15 de novembro, o notório sistema de campos de trabalho forçado na China foi abolido. Mas a maioria dos presos não notará qualquer diferença.

O ‘sistema de reeducação pelo trabalho forçado’ – conhecido como “laogai” em chinês – foi oficialmente introduzido na China em meados dos anos 1950. Embora viciados em drogas, ladrões, assassinos e outros criminosos comuns tenham sido condenados a campos de trabalho, o regime sempre usou os campos principalmente para punir os culpados de terem pensamentos “errados”.

De acordo com a Human Rights Watch, o sistema laogai é usado para encarcerar “críticos do regime, peticionários, delatores de corrupção, ativistas de direitos, membros de igrejas cristãs clandestinas ou seitas religiosas proibidas e outros considerados ‘ameaça’ à ordem pública”.

Desde que a perseguição à disciplina espiritual do Falun Gong começou em 1999, a população dos campos tem sido composta majoritariamente por praticantes do Falun Gong. O então líder chinês Jiang Zemin lançou a campanha para erradicar o Falun Gong temendo sua popularidade e o desafio que suas crenças tradicionais impunham à ideologia comunista oficial.

De acordo com o Relatório de Direitos Humanos sobre a China de 2008 do Departamento de Estado dos EUA: “Alguns observadores estrangeiros estimam que praticantes do Falun Gong constituam pelo menos metade dos 250 mil presos oficialmente registrados nos campos de reeducação pelo trabalho forçado.”

A maioria das estimativas sobre a população do sistema laogai excede em muito o número de “prisioneiros oficialmente registrados”. O pesquisador Ethan Gutmann coloca o número da população dos campos de trabalho na China entre 4 e 6 milhões. Ele estima que o número de praticantes do Falun Gong detidos nos campos varie entre 600 mil e 1,2 milhão.

Renomeando

O recente anúncio de abolir os campos de trabalho não foi uma completa surpresa. O premiê chinês Li Keqiang previu em março que os campos seriam fechados e pelo menos desde junho tem havido relatos de campos de trabalho fechando.

Em alguns casos, no entanto, um campo de trabalho “fecha” simplesmente mudando-se a placa na entrada. De acordo com a mídia estatal ‘Legal Evening News’, alguns campos de trabalho simplesmente mudaram seus nomes para “prisões” e “centros de tratamento de toxicodependência”, mas continuam a prática do trabalho forçado.

De acordo com o Minghui.org, um website administrado por praticantes do Falun Gong, que fornece informações sobre a perseguição, depois que o Campo de Trabalho Feminino de Chongqing mudou seu nome para o “Centro de Isolamento e Reabilitação Forçada de Drogas”, os praticantes do Falun Gong lá continuam a ser torturados pelos mesmos guardas.

O peticionário Zhou Houfang disse ao Epoch Times que foi detido no Campo de Trabalho da Cidade de Hengyang, na província de Hunan, Sul da China, por mais de um ano, desde o início de 2012. Quando o campo de trabalho mudou seu nome para Centro de Tratamento de Dependentes da Cidade de Hengyang, ele não foi libertado, mas continuou a ser torturado.

Alguns presos do Falun Gong em campos de trabalho foram transferidos para outros locais após os campos começarem a ser desligados. Liu Yongping, um praticante do Falun Gong de Pequim, foi transferido do Campo de Trabalho Xinan de Pequim para o Centro de Lavagem Cerebral Xicheng, no subúrbio de Pequim, em julho deste ano, porque ele se recusou a renunciar à sua fé, segundo o Minghui.

Centros Legais de Reeducação

Enquanto os campos de trabalho fecham, outros sistemas alternativos continuam a funcionar e a prender, torturar e fazer lavagem cerebral em praticantes do Falun Gong e outros prisioneiros de consciência.

“É comum que o Partido Comunista Chinês faça mudanças aparentes na superfície para reforçar sua imagem, enquanto nos bastidores tudo prossegue da mesma forma”, disse Levi Browde, diretor-executivo do Centro de Informações do Falun Dafa.

“Estamos vendo praticantes do Falun Gong sendo enviados à prisão (após julgamentos encenados) ou para ‘centros legais de reeducação’, também conhecidos como ‘centros de lavagem cerebral’, que são ainda mais opacos e arbitrários do que o sistema de campos de trabalho”, disse Browde. “A tortura e o abuso que as pessoas enfrentam nestes centros podem ser mais terríveis do que nos campos de trabalho.”

O Epoch Times documentou como o regime chinês lançou recentemente uma nova campanha de três anos destinada a “transformar” os praticantes – forçá-los a desistir de suas crenças, segundo boletins oficiais sobre a campanha publicados em websites do governo em toda a China. Em algumas áreas, o objetivo oficial é “transformar” 100% dos praticantes do Falun Gong.

“Sem fiscalização por parte do governo chinês, não há mudança na natureza [da detenção de prisioneiros de consciência]. Tal fenômeno de restringir a liberdade pessoal e privar os direitos civis não diminuirá tão cedo”, disse o advogado chinês Tang Jitian à Rádio Som da Esperança (SOH). “Essa supressão continuará em formas mais secretas, como nos centros de lavagem cerebral, que não são menos brutais do que o sistema laogai.”

Zhao Pei, um comentarista político que acompanha de perto as questões da China, disse à SOH: “Depois da abolição do sistema laogai, as autoridades possivelmente suprimirão as pessoas com sentenças [de prisão], que são ainda mais graves do que o laogai.”

Tortura brutal e cobertura de mídia

Os campos de trabalho forçado na China têm sido objeto de muita atenção na mídia dentro e fora da China no ano passado.

Antes do Halloween no ano passado, a norte-americana Julie Keith, residente do Oregon, abriu uma caixa com enfeites do Dia das Bruxas e descobriu uma carta que pedia ajuda, escrita por um detento no Campo de Trabalho Masanjia, na província de Liaoning, no Norte da China.

A carta, escrita a lápis em inglês quebrado, pedia a pessoa que a lesse que fizesse contato com a “Organização Mundial de Direitos Humanos”. A carta descrevia como os presos trabalhavam mais de 15 horas por dia com renda “quase zero” e sofriam “tortura implacável”. Um grande número de detentos em Masanjia seria praticante do Falun Gong, segundo a carta.

O jornal local do Oregon disse que a carta e a história foram então seguidas pela mídia mundial.

Em abril deste ano, o repórter chinês Yuan Ling publicou um artigo na revista Lens de Hong Kong descrevendo uma variedade de métodos de tortura utilizados no Campo de Trabalho Masanjia, com base em entrevistas com ex-prisioneiros.

Os detidos relataram ser eletrocutados no rosto com bastões elétricos, suspensos pelos braços e espancados e ter os quatro membros estirados numa cama e deixados lá por horas, o que é chamado de tortura do “leito mortal”.

Du Bin, um fotógrafo do New York Times, fez um documentário baseado em entrevistas com 12 ex-detentas de Masanjia, intitulado “Mulheres sobre cabeças de fantasmas“, que foi lançado em Hong Kong e Taiwan.

“O propósito de produzir o filme é para deixar o público saber o que eles deveriam saber. Em Masanjia, eles não tratam as mulheres como seres humanos, mas as torturam e forçam ao trabalho escravo”, disse Du Bin à emissora NTDTV.

 
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