Camaleões se comunicam através das trocas de cor, diz estudo

Humanos têm sido fascinados por um longo tempo pelas habilidades de mudança de cor dos camaleões. O próprio Aristóteles, fundador da filosofia ocidental e também um apurado zoólogo, mencionou a habilidade do lagarto no seu Historia Animālium, notando que a “mudança de cor ocorre por todo o corpo”, sugerindo que o camaleão tinha uma “alma timorata” (medroso, tímido).

As razões para as quais os camaleões mudem de cor variam, incluindo a resposta à temperatura e à luz, e certamente o comportamento de se camuflar no ambiente, que vem à mente quando a maioria pensa em um camaleão. Mas um estudo de 2008 dos Bradypodion Pumilum sul africanos proveu evidências convincentes de que a evolução favoreceu a habilidade de se destacar contra o ambiente, ao invés de se misturar, para impressionar potenciais parceiros, por exemplo. Isso, juntamente com descrições comportamentais de mudança rápida de cor durante interações sociais, sugere fortemente que camaleões tenham evoluído sua dinâmica paleta de cor como maneira de comunicação.

Entender como as cores de um animal podem servir como sinais fiáveis para outros, requer modos objetivos de quantificar tais cores e mudanças de cor. Felizmente, houve uma série de avanços na quantificação fotográfica de cores. Cientistas podem agora usar fotos para quantificar a coloração animal, e usar modelos matemáticos e fisiológicos para ter uma base de como as cores e tons estimulariam fotorreceptores de um animal. Em outras palavras, podemos usar fotografia e computação para medir as cores de um animal da maneira que os animais as veem.

Me pinte de raiva

Em um estudo publicado no jornal Biology Letters, usamos essas técnicas fotográficas para quantificar a cor e mudanças de cor dos camaleões – como vistas por eles – durante interações sociais agressivas. Nossa pesquisa focou nas disputas entre camaleões listrados (Chamaeleo calyptratus) adultos, uma espécie conhecida por sua disposição combativa.

Ao filmar e fotografar os encontros de camaleões sem que eles percebessem, examinamos as gravações de cada camaleão ao longo do pleito. O objetivo era medir a cor de 28 regiões diferentes do corpo, de maneira a descobrir como, e se as cores eram relacionadas com o comportamento do camaleão. Não sabendo se o foco deveria se limitar à rapidez da mudança de cor, à quantidade de mudança, ou à coloração final mostrada, nós medimos todas as três.

Descobrimos que os lagartos lairy são mais propensos a abordarem seus oponentes, proporcionando assim um embate, para ver quem tem as listras mais brilhantes. Isso sugere que um camaleão macho que entra numa luta pode ser capaz de determinar o quão bem preparado seu oponente está, ao avaliar a clareza de suas listras.

No mais, nós também descobrimos que camaleões com cabeças de cores mais claras, cujas cores mudavam mais rápido, eram mais propensos a ganhar embates agressivos. Então se você, como um camaleão, quiser disputar com outro que revele uma cabeça intensamente colorida e que mude de coloração rapidamente – algo que deveria ser aparente enquanto ele marcha diretamente na sua direção – você pode ter se encrencado com o lagarto errado.

Porém, qual benefício é proporcionado ao sinalizar informações sobre sua motivação ou habilidade de luta ao seu competidor? Parece que exibindo muito claramente sua vontade de lutar, o camaleão pode assegurar que os encontros agressivos serão menos cansativos. Considerando que uma luta pode potencialmente resultar em ferimento sério, é muito melhor, se for possível, fazer os oponentes desistirem antes que qualquer contato físico seja feito.

Isso parece ser o que está acontecendo com camaleões. Descobrimos que muitos conflitos entre camaleões agressivos foram resolvidos sem nenhuma briga. Se o conteúdo da informação de cores de camaleão for perfeito, nenhum conflito precisaria progredir à cabeçadas, golpes e mordidas que observamos regularmente. Isso sugere que camaleões podem obter informação um do outro baseados na cor, mas que essa informação não é sempre confiável – ou que eles escolhem ignorá-la, devido à ira e ao comportamento teimoso.

Cores verdadeiras… ou não

Os humanos divisaram muitos e variados modos de trocar informações uns com os outros, de palavras à códigos à email. Contudo, como podemos frequentemente influenciar o comportamento do outro através do que comunicamos, às vezes há uma tentação de deturpar a nós mesmos, ou a verdade. Mentir pode, às vezes, prover benefícios de curto prazo para o mentiroso, mas frequentemente há altos custos em ser identificado como uma pessoa não confiável. Esses custos existem no reino animal também, no entanto em formas diferentes, e pensa-se que desempenham um papel na evolução de estratégias de sinalização estáveis.

Enquanto nosso trabalho recente sugere que camaleões possuem como meio de comunicar informação as trocas de cor, nós ainda não entendemos como essas mensagens coloridas são interpretadas, como elas influenciam o comportamento, e quais mecanismos asseguram que o camaleão possa avaliar precisamente os competidores baseado na aparência externa. Hora de voltar aos camaleões!

Russel A. Lingon não trabalha para, e não recebe financiamento de nenhuma companhia ou organização que se beneficiaria de seu artigo, e não tem afiliações relevantes.

The Conversation

 
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