Brasileiros marcham em Copacabana pelo impeachment de Dilma Rousseff

RIO DE JANEIRO — Sob sol e calor, cerca de oito mil brasileiros marcharam pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff na orla de Copacabana, zona sul do Rio, na tarde deste domingo (13). Uma das alas defendia intervenção militar constitucional. Segundo os organizadores, foram 20 mil pessoas. A Polícia Militar não divulgou estimativa. A concentração teve início às 10h no Posto Cinco.

Às 13h30, com rostos pintados, vestindo e portando bandeiras do Brasil e carregando uma grande faixa verde e amarela escrito “Impeachment já”, os manifestantes caminharam pela Avenida Atlântica em direção ao Copacabana Palace sem incidentes. Alguns se fantasiaram de “Lula prisioneiro”, “Dilma zumbie” e batman.

Um momento de tensão ocorreu uma hora depois, quando a passeata foi surpreendida por um grupo de skatistas que vinha na direção oposta. Segundo skatistas que não se identificaram, trata-se de um passeio anual chamado ‘Mega Rolé’, que vai do Aterro do Flamengo ao Corte do Cantagalo, na Lagoa Rodrigo de Freitas. Uma bala de borracha chegou a ser disparada para o alto pela polícia.

Acompanhados por três carros de som que encorajavam os brasileiros a estudar os crimes do comunismo, eles seguravam bonecos “Pixuleco” e cartazes em que se lia “Fora Dilma e leve o PT junto”, “Brazil can’t take corruption anymore!”, “Cadeia para Lula, o poderoso chefão”, “Aqui não é Venezuela”, “Cassação e extinção dos partidos do Foro de São Paulo” e “Orgulho nacional, somos todos Lava-Jato”, em referência ao juiz Sérgio Moro e à Operação Lava-Jato, da Polícia Federal.

“Pixuleco” é o vulgo para ‘propina’ utilizado pelo então tesoureiro nacional do Partido dos Trabalhadores, João Vaccari Neto, atualmente preso. O protesto terminou às 16h30.

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Um ponto alto foi a parada para cantar o hino nacional, na altura na Rua Siqueira Campos. As pessoas nos quiosques, restaurantes e na areia se juntaram nas calçadas se somando ao coro. Políticos, como Fernando Gabeira e o deputado federal Jair Bolsonaro, e personalidades, como o humorista Marcelo Madureira, também participaram.

Manifestantes denunciaram atrasos incomuns nos trens e intensa ação de militantes virtuais nas redes sociais para sabotar o ato. “Vi trem atrasando mais de 45 minutos”, protestou Mônica Abreu. “Os trens ficavam parados na estação, demoravam a sair e circulavam devagar”, acrescentou Paulo Fagundes. Pela manhã, um acidente com um ônibus na Linha Amarela, ainda não esclarecido e que deixou cinco mortos, causou congestionamentos no trânsito.

Páginas de movimentos de oposição no facebook, como Revoltados On-line, Vem pra Rua e Avança Brasil, saíram do ar após repentina onda de denúncias. Elas só foram restabelecidas após intervenção do senador Ronaldo Caiado junto ao Facebook, embora administradores das páginas continuem bloqueados.

Houve protestos pedindo a saída da mandatária brasileira em pelo menos 87 cidades de todos os estados e no Distrito Federal. Em todo o país, somando também as cidades em que a PM fez estimativa, mais de 91 mil brasileiros saíram às ruas, 40 mil só em São Paulo. Em Brasília, foram seis mil.

Convocados a apenas uma semana e às vésperas dos festejos de fim de ano, os primeiros protestos após a abertura do processo de impeachment de Dilma Rousseff pelo Congresso Nacional tiveram menor adesão que as manifestações de 16 de agosto, que atraíram 879 mil. Os organizadores avaliaram como somente um aquecimento para o ano que vem. Um ato pró-governo está marcado para esta quarta-feira (16).

‘Todo poder emana do povo’

“A gente veio aqui hoje, dia 13 às 13 horas para tirar o PT (13) para sempre do poder”, explicou a empresária Evelin Cherman, 52. “A gente não vê retorno nenhum, na segurança, em educação, na saúde, em nada! Chega de robar, chega de Lula, chega desse petismo aí que não engana mais ninguém”, desabafou.

“Eu estava lá no Diretas Já, para derrubar os militares. E agora eu me sinto arrependido por eles terem saído”, confessa Paulo Rozendo Marinho, 65, aposentado. “Mas acho que eles não vão agir, então só nos resta orar e fazer o impeachment, é o caminho”, conclui.

“Essa roubalheira vem financiando o estado de Cuba, Venezuela e Bolívia por meio do BNDES. Mandando nosso dinheiro suado para essa quadrilha de bandidos bolivariana que existe por trás do PT, o Foro de São Paulo, para tentar implantar o comunismo aqui no Brasil”, descreve Douglas Snyszniuk, 29, engenheiro mecânico, que cita também o estelionato eleitoral. “Mas a nossa bandeira nunca será vermelha, nós temos uma verde e amarela, que é mais forte”, sentencia.

A família Vieira Magno veio completa. “A corrupção está em todos os níveis do nosso poder e viemos aqui com nossa criança porque nós queremos o nosso país livre desse mal. Ninguém aqui ganhou sanduíche de mortadela nem R$50,00 para protestar. A maioria da população são pessoas de bem”, enfatiza o economista Rodolfo Magno, 37.

“Acusar de golpe é muito conveniente para eles (governo). O impeachment está previsto em nossa Constituição e está comprovado o crime de responsabilidade da presidente da República, quando ela fez as pedaladas fiscais. Então nós temos o direito de tirá-la”, argumenta Magno.

Para sua esposa, a engenheira Patricia Vieira, 32, a faxina tem que ser geral. “As autoridades perderam totalmente a credibilidade, ao mesmo tempo em que dão um passo para frente dão dois para trás.” Ela explica que trouxe o seu filho por uma questão de educação.

“Temos que dar o exemplo. Ele acabou de perguntar: ‘Mas todo mundo aqui é contra ela (Dilma)?’ Todo mundo aqui está sofrendo as consequências de péssimas escolhas, esse é o problema. Então a gente está aqui para dar um basta e dizer que a gente não aceita, meu filho não merece isso.”

De mãos dadas com os pais, Luiz Felipe, 10, estudante, compartilha a reposta que escreveu em sua última prova na escola à questão “o que mais mal causa ao mundo”. “Botei: o PT”, conta, acrescentando que na eleição fictícia entre os alunos tinha dado deu Aécio.

“Eu estou aqui pelas próximas gerações de brasileiros. Estou tão revoltada como todo brasileiro honesto, eu nunca vi um volume tão grande de corrupção e de cinismo no meu país, do qual eu quero poder me orgulhar um dia”, diz com indignação e esperança Ana Almeida, 70, aposentada.

“Chega de relativismo, o que a gente está discutindo é este governo e todo esse processo que está transformando isso aqui num regime autoritário e injusto. Eu não quero isso pros meus filhos, pros meus netos, eu vou lutar pra que isso acabe”, explica. “Eles usam muito essa etiqueta da democracia, ainda temos eleições, que também são duvidosas, mas a gente não está exatamente numa democracia.”

“O PT tornou o Brasil uma piada internacionalmente, a política internacional foi só apoiar bandido genocida: Ahmadinejad, Chávez e Maduro, que mata estudantes. E a presidente da UNE, que tirou foto com ele, ocupa escolas de São Paulo juntamente com MST e CUT supostamente em nome da educação, que também é um fracasso do governo Dilma”, afirma Ramon Garcia Xavier, 31, funcionário público. Ele cita o desmonte dos projetos de campanha na área como o Pronatec, o Prouni e o Fies.

Segundo o professor Alan dos Santos, 32, o Brasil está despertando. “O maior problema do país é o comunismo, o socialismo, que vem com todas as máscaras possíveis e impossíveis, por meio do marxismo cultural, por meio da social democracia”, afirma Alan, que mantém um canal no YouTube com 24 mil inscritos.

Apesar da crise, Santos considera que o momento é de oportunidade e de esperança. “O único lugar onde o lírio pode vir a florescer com todo o seu esplendor, é no lodo. O Brasil precisa resgatar sua identidade. Nosso país é um país cristão, temente a Deus, com uma população muito afável, não deve existir discriminações no Brasil.”

Governabilidade

Aclamado pelos manifestantes aos gritos de “mito!”, o deputado federal Jair Bolsonaro diz acreditar na vitória do impeachment de Dilma Rousseff por volta de março ou abril, caso o processo prossiga. Ele se considera vitorioso por ter sido o único deputado a protocolar pedido de impedimento da presidente. Apesar deste não ter sido acatado, outro o foi e tem cada vez mais convertido parlamentares no Congresso, incluindo os do seu partido, diz.

“Enquanto a Petrobrás estava sendo assaltada, tudo o que interessava para Dilma e para Lula era aprovado. Isso é uma prova de intefererência do executivo dentro do legislativo, uma afronta ao artigo 85 da Constituição e à democracia. Por isso nós queremos tirá-la democraticamente”, explica Bolsonaro.

Ele critica a OAB, que pelo critério da ingovernabilidade se posicionou favorável ao impeachment do então presidente Collor em 1992. “Por que está calada agora? Está comprada. Está se cacifando para ter indicações para tribunais superiores? Uma vergonha essa OAB nacional”, dispara. “Em boa hora o Eduardo Cunha aprovou a PEC da Bengala, se não a Dilma botaria mais três ministros dentro do Supremo Tribunal Federal.”

De acordo com o parlamentar, grande parte da população desconhece o que é o Foro de São Paulo. “O PT está envolvido até o pescoço com o narcotráfico internacional. Vamos esperar o que de uma presidente que diz que se orgulha de seu passado terrorista?”

Para Bolsonaro, as ruas serão decisivas. “O parlamentar tem medo das ruas. O próprio Ulisses Guimarães dizia: ‘O que o povo quer essa casa vota’. O povo está acordando para algo mais grave que a corrupção, que é a questão ideológica, nós não podemos perder a nossa liberdade”, arremata o deputado para o Epoch Times.

O deputado estadual (RJ) Flávio Bolsonaro, disse que “o Brasil não aguenta mais três anos de incompetência, de roubalheira, de desconfiança, dos grandes investidores à população, quando vai num supermercado comprar um arroz numa prateleira.”

“O que o PT fez na verdade foi maquiar a real situação no país até depois das eleições, quando a bomba explode e o povo se dá conta de que foi enganado por um projeto que não só assalta o nosso país mas que quer também tomar a nossa liberdade. Esse é o perigo que o Brasil começa, há algum tempo já, a enxergar e a se manifestar contrariamente, e pede, na forma constitucional, o impedimento imediato da presidente.”

“O país tem que ter alguma governabilidade, alguma estabilidade, um ponto de inflexão para que volte a crescer, para que volte a reduzir a inflação, o desemprego. O país está em colapso. E isso só vai mudar quando houver uma mudança no comando do país. É isso que o PT e a Dilma, principalmente, tem que enxergar e dar o exemplo, reconhecer que não tem mais condições de ficar e fazer um bem para a nação.”

“As Forças Armadas são guardiãs da Constituição, nada o que está fora da Constituição os militares se prestarão a fazer (mesmo com um mandatário comunista). A intervenção militar que pessoas estão pedindo com faixas nas ruas não tem amparo constitucional, as Forças Armadas não podem tomar o poder, não foi assim em 1964 e não vai ser agora. Nós estamos em uma democracia, as Forças Armadas são… inclusive elas que garantem a democracia e o direito de ir e vir em nosso país, preserva as nossas fronteiras e não têm essa possibilidade de destituir o governo pela força, pelas armas, não é assim que funciona.”

“Infelizmente grande parte do judiciário está politizado, decisões que relativizam as leis em vigor e a Constituição. Hoje não temos mais segurança jurídica para muita coisa. Independente da dosagem do remédio, se o STF quiser impor a derrubada desse processo de impeachment, isso pode ter um efeito colateral de uma grande turbulência social no nosso país, pode ser um divisor de águas, eu espero que eles tenham prudência de respeitar a Constituição, a independência do poder legislativo para não causar uma animosidade ainda maior na sociedade, que já vem sofrendo tanto com esse desgoverno.”

“Hoje há um componente que não existia antigamente que é a internet, muitos estão indignados mas não vêm para as ruas fisicamente protestar, mas estão nas suas casas, usando suas redes sociais, de amigos, sua famíilia, e que certamente darão o recado no momento oportuno se forem consultados. Tem aquele que conta aqui “houve poucas pessoas nas manifestações nas ruas”, como se isso fosse um indicativo de que o governo está bem, a população está indignada em todas as camadas sociais. O povo está sentindo na pele e principalmente no bolso, principalmente os mais pobres”, encerra Flávio.

Também presente, o vereador carioca Carlos Bolsonaro lembra que o PT lutou pelo impeachment de todos os presidentes anteriores. “Agora que o povo está contra eles, eles dizem que é golpe. Viveram de mentira no passado e vivem de mentira atualmente”, afirma. “A população, principalmente os jovens, já não aguenta mais tanta mentira. A grande mídia recebe cerca de R$ 10 bilhões por ano via governo federal, mas com a internet hoje, não adianta você mentir porque as pessoas se informam de outras fontes.”

“Existe uma série de quesitos que estão contidos na Constituição e que prevêem um impeachment da presidente. Um deles, o artigo primeiro estabelece que ‘Todo poder emana do povo’. Quando o povo está nas ruas, como vem fazendo desde o ano passado contra o não governo que está sendo o PT, é mais do que legítimo que algo aconteça nesse sentido. O Congresso nada mais é do que a reprodução da palavra do povo, e o povo vai ter que ser ouvido pelos parlamentares do Congresso Nacional”, discorre o vereador.

O pedido de impeachment aceito em 2 de dezembro pelo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, foi protocolado pelos juristas Hélio Bicudo, que é ex-membro do PT, Miguel Reale Junior e Janaína Conceição Paschoal. O documento teve apoio do PSDB e foi subscrito por 45 movimentos sociais.

A decisão foi anunciada em entrevista coletiva após deputados petistas não retirarem seu apoio ao processo de cassação de mandato parlamentar que tramita contra Cunha no Conselho de Ética da casa por envolvimento no petrolão. Até então, Eduardo Cunha já havia rejeitado 27 pedidos de impeachment contra Dilma Rousseff, que amarga impopularidade recorde com o desarranjo da economia, fuga de investidores e crescente inflação, violência e desemprego.

O argumento que embasa o pedido de Bicudo é o mesmo que recentemente levou o Tribunal de Contas da União (TCU) a reprovar as contas de 2014 do governo, as chamadas “pedaladas fiscais”. Consiste na prática de pagar dívidas do governo com empréstimos de bancos públicos para maquiar o orçamento, uma flagrante violação da Lei de Responsabilidade Fiscal.

Após o vazamento de uma carta em que se dizia desprezado por Dilma, o vice-presidente brasileiro, Michel Temer, mantém, desde então, relações diplomáticas com a presidente e já promete cargos a parlamentares da fragmentada base aliada do governo numa provável gestão Temer.

 
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