Banco Central da China está ficando sem tempo para evitar uma crise

Em nova estreia desde o evento da crise financeira, o Banco Central da China cortou as taxas de juros representando uma baixa recorde, e baixou coeficientes de reserva de certos bancos.

O Banco Popular da China (PBOC, da sigla em inglês) anunciou no mês passado, em seu website, que cortaria a taxa de juros dos empréstimos de um ano em 25 pontos base para 4.85%, e que diminuiria a taxa de juros dos depósitos para 2%. Também baixou o coeficiente de reserva requerido para os bancos especializados em empréstimos para 0,5% e pequenos negócios em meio por cento.

Foi a primeira vez, desde o final de 2008, que o Banco Central cortou ambas as taxas no mesmo dia.

A decisão chegou depois de outra descida semanal do mercado. É um sinal de desesperado, e sugere que Pequim está tropeçando na corda bamba, pois agora precisa abrandar a bolha do mercado de ações e ao mesmo tempo estimular a economia e o crescimento de emprego.

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Mercado urso

Na semana anterior, o mercado de ações da China havia sofrido outro colapso, fechando seu maior declínio de duas semanas desde dezembro de 1996. Esta recente queda seguiu-se aos avisos da BlackRock Inc., UBS AG, e Credit Suisse AG durante os últimos dois meses, alertando que as ações chinesas do tipo A haviam entrado em uma bolha.

O índice de referência da China, o Shanghai Composite Index, caiu 7.4% no dia 26 de junho. A queda total de 19% desde que os valores estavam em alto no dia 12 de junho, sugere que o índice está à beira de um completo mercado urso, que é definido por uma queda de 20% ou mais dentro de um período de dois meses.

O  Shenzen index, um índice menor, e o ChiNext index, que consiste principalmente em novas empresas de tecnologia e startups, caíram ainda mais drasticamente, e entraram plenamente em território de mercado urso na última semana de junho.

As vendas incontroláveis realizadas pelos negociantes com margem adicionaram lenha na fogueira. Aqueles que compraram ações com dinheiro emprestados das corretoras foram forçados a vender suas holdings para cobrir o valor de margem à medida que os preços afundavam.

‘O mercado subiu muito depressa’

O regime comunista precisa manter vivo um mercado em crescimento contínuo. Isso estimula a confiança dos investidores, cria riqueza e serve de distração à economia real que está perdendo vigor, além de outros problemas sociais e políticos.

Contudo, a velocidade a qual o mercado subiu, o aumento massivo de alavancagem com margem e a multidão de novos day-traders irritaram os reguladores.

Para segurar a especulação, a China Securities Regulatory Commission (CSRC) lançou novos limites em relação a quanto e a quem as corretoras podem conceder empréstimos com margem. Os reguladores também abriram o mercado de Xangai a investidores estrangeiros em Hong Kong e permitiram, em alguns casos, a venda a descoberto.

O porta voz da CSRC, Zhang Xiao, afirmou em uma conferência de imprensa que a correção substancial a curto prazo deve-se às leis que governam o próprio mercado, e que esperam mais volatilidade no futuro. O tom dos comentários de Zhang indicam que o regulador do mercado de ações chinês se sente confortável com o declínio recente do mercado.

Os jornais de negócios estatais, Securities Times e China Securities Journal, ambos publicaram editoriais sugerindo que o recente disparate do mercado pode ter acabado, e que ganhos futuros serão lentos.

A quietude da mídia estatal Xinhua News contrastou com os anteriores declínios do mercado de ações de janeiro e maio, quando a Xinhua foi rápida e anunciou que as ações chinesas tinham espaço para ganhar valor depois de cada sessão negativa. A falta de resposta pode indicar duas situações: ou as autoridades estão encarando as perdas do mercado com uma tolerância recém-descoberta, ou simplesmente não sabem o que fazer a seguir.

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Entre a espada e a parede

O regime chinês tem transmitido mensagens contraditórias nestas últimas semanas, aparentemente sem saber se deve ou não injetar liquidez no sistema bancário. Em meados de junho, o PBOC negou-se a atrasar o recebimento de 300 bilhões de yuan (U$ 49 bilhões) que havia concedido a bancos em empréstimos de curto prazo, de acordo com os executivos do setor bancário que falaram ao Wall Street Journal. Sua intenção era prevenir que os bancos emprestassem dinheiro às firmas de corretagem que facilitaram o recente aumento de dívida com margem.

Entretanto, diante do declínio do mercado, o Banco Central parece ter mudado de política e adiou o pagamento de 130 bilhões de yuan em empréstimos de curto prazo às financiadoras. Duplicou também a maturidade desses empréstimos e baixou a taxa de juro.

O dilema de Pequim advém de ter implementado decisões políticas contraditórias.

O principal motivo da ação do Banco Central foi o de diminuir o custo dos empréstimos para os negócios chineses e governos locais com níveis de endividamento elevados. Ao baixar a taxa de referência e ao cortar os coeficientes de reserva dos bancos, o PBOC espera que os bancos chineses possam reestruturar a dívida do governo local e emprestar a negócios de pequeno e médio porte. Estas ações podem facilitar o crescimento do emprego e estimular a expansão da economia real.

Há também o medo de que todo este dinheiro fácil possa vir a alimentar a bolha do mercado de ações.

“A recente flexibilização monetária demonstrou ter pouco efeito na estabilização do crescimento. Existe a preocupação que o dinheiro esteja sendo aplicado no mercado de ações ao invés da economia real”, afirmou à Reuters o economista sênior de um conhecido think-tank chinês, no dia 16 de junho.

Apesar dos esforços, os custos dos empréstimos permanecem altos para as companhias chinesas que já estão em dificuldades devido à queda do valor das manufaturas, do mercado imobiliário e dos altos níveis de endividamento.

 
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