África do Sul rebate proibições de viagens vinculadas à variante Ômicron

OMS classificou a Ômicron como uma 'variante preocupante', mas se opõe à proibição de viagens

Por Darren Taylor

JOANESBURGO – O presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, denunciou as proibições de viagens para países da África Meridional vinculadas à nova variante da COVID-19 e pediu pelo fim das restrições “discriminatórias” e “não científicas”.

Cientistas sul-africanos revelaram, em 25 de novembro, que detectaram uma nova variante potencialmente mais infecciosa, agora conhecida como “Ômicron”. Eles rastrearam o primeiro caso até o vizinho Botswana e agora suspeitam que a Ômicron está causando uma nova onda de infecções na província de Gauteng da África do Sul, a qual inclui a cidade mais populosa do país, Joanesburgo.

Países ao redor do mundo responderam paralisando as viagens para o sul da África, enquanto os cientistas estabelecem se a nova variante é mais transmissível, se resulta em casos mais graves da doença e se é suscetível às vacinas atuais.

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, declarou que as restrições de viagens são necessárias para evitar ao máximo a entrada da Ômicron no Reino Unido e para retardar os surtos da nova variante, para que suas autoridades de saúde tenham mais tempo para estudá-la e se preparar para sua disseminação inevitável.

O governo Biden anunciou, em 26 de novembro, que proibiria a entrada de viajantes da África do Sul, Botswana, Essuatíni, Lesoto, Malaui, Moçambique, Namíbia e Zimbábue aos Estados Unidos. Também relatou que a proibição de viagens não se aplica a cidadãos americanos ou residentes permanentes legais, que deverão apresentar um teste negativo para a COVID-19 antes de retornar aos Estados Unidos.

Em um discurso televisionado para os sul-africanos, na noite de 28 de novembro, Ramaphosa afirmou que as proibições de viagens são “profundamente decepcionantes”.

“Este é um afastamento claro e completamente injustificado do compromisso que muitos desses países assumiram na reunião dos países do G-20, em Roma, no mês passado”, afirmou.

Ramaphosa observou que os países do G-20, incluindo os Estados Unidos e o Reino Unido, se comprometeram a seguir as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) com relação a viagens internacionais durante a pandemia.

A OMS classificou a Ômicron como uma “variante preocupante”, indicando que pode ser mais infecciosa, causar casos graves e reduzir a eficácia das vacinas. Mas se opõe à proibição de viagens como estratégia contra a Ômicron e outras variantes.

‘Completamente injustificado’

Ramaphosa afirma que os líderes do G-20 também resolveram apoiar a recuperação dos setores de turismo nos países em desenvolvimento.

“Estas restrições são completamente injustificadas e discriminam injustamente o nosso país e os nossos países irmãos da África Meridional”, declarou ele. “A proibição de viagens não é instruída pela ciência, nem será efetiva para evitar a disseminação dessa variante. A única coisa que a proibição de viagens fará é prejudicar ainda mais as economias dos países afetados e minar sua capacidade de resposta e recuperação da pandemia”.

O economista da saúde e especialista em políticas de saúde, Alex van den Heever, professor da Wits University em Joanesburgo, descreveu as restrições de viagens como “ridículas”.

“A África do Sul detectou a variante porque tem alguns dos melhores sequenciadores genéticos do mundo, trabalhando em um dos melhores laboratórios de sequenciamento do mundo, e eles passam todos os dias procurando por novas mutações”, afirmou van den Heever. “Eles encontraram essa variante incrivelmente rápido. Então, só porque uma variante foi detectada aqui, não significa que ela se originou aqui”.

Professor Tulio de Oliveira, o sequenciador genético que liderou a equipe que identificou a Ômicron (Cortesia KRISP)
Professor Tulio de Oliveira, o sequenciador genético que liderou a equipe que identificou a Ômicron (Cortesia KRISP)

 

O sequenciador genético, Tulio de Oliveira, e sua equipe da Plataforma de Inovação e Sequenciamento de Pesquisa KwaZulu-Natal, também foram os primeiros a encontrar a variante Beta em outubro de 2020, que desde então se espalhou pelo mundo.

“É muito possível que a nova variante tenha se originado em países com níveis muito altos de transmissão, incluindo a Europa e o Reino Unido, os quais possuem níveis muito mais altos de transmissão do que a África do Sul”, afirma van den Heever. “Portanto, a probabilidade de uma variante se desenvolver no Reino Unido, na Alemanha e na Áustria é muito alta”.

O presidente-executivo do Conselho de Negócios de Turismo da África do Sul, Tshifhiwa Tshivhengwa, descreveu as proibições de viagens como uma “reação grosseira exagerada”.

As restrições do Reino Unido à África do Sul resultaram no cancelamento de planos de 300.000 cidadãos britânicos de visitar o país no próximo mês. Tshivhengwa afirmou que este foi “outro golpe devastador” para uma economia cambaleando com as consequências da pandemia, que já resultou na perda de 2 milhões de empregos, de acordo com o governo.

A taxa oficial de desemprego do país é uma das mais altas do mundo, com 35%.

Vacinas

Salim Abdool Karim, um renomado epidemiologista sul-africano, relatou ao Epoch Times que mais variantes altamente transmissíveis e potencialmente mortais da COVID-19 surgirão no futuro, enquanto a África permanecer em grande parte não vacinada contra a COVID-19.

Embora a maioria das pessoas nos países desenvolvidos tenha sido imunizada, a OMS declarou que apenas 7 por cento dos africanos receberam uma única dose da vacina.

Fatima Hassan, advogada da Health Justice Initiative, com sede em Joanesburgo, está liderando os esforços africanos para obter acesso igualitário às vacinas contra a COVID-19.

Mais de 100 países de baixa renda estão pedindo à Organização Mundial do Comércio que renuncie aos direitos de propriedade intelectual (PI) dos fabricantes de vacinas para que as “receitas” das vacinas possam ser compartilhadas e possam ser produzidas e distribuídas em todo o mundo. Eles afirmam que isso vai acabar com a pandemia.

Mas, enquanto ativistas e organizações de direitos humanos lutam para levar mais vacinas à África, grande parte do continente, incluindo a África do Sul, o país africano mais afetado pela pandemia até agora, com quase 3 milhões de infecções e 90.000 mortes, não parece querer a vacina.

Funcionários do Departamento de Saúde da África do Sul confirmaram ao Epoch Times que apenas 35 por cento da população, do país de 60 milhões de pessoas, está totalmente vacinada. A meta do governo de imunizar 60% até o final de 2021 está rapidamente se tornando impossível de ser alcançada.

A África do Sul, como o resto do continente, já teve dificuldades para obter vacinas contra a COVID-19, mas agora o país se encontra preso com muitas, devido à baixa taxa de vacinação. Autoridades afirmam que o país tem atualmente quase 17 milhões de doses em mãos.

“Mas as pessoas não estão vindo atrás delas”, afirma um funcionário. “Agora estamos pedindo às empresas farmacêuticas para que atrasem as entregas das injeções, provavelmente até o início do próximo ano, enquanto tentamos limpar o estoque”.

Hesitação

O Vice-Diretor Geral do Departamento de Saúde da África do Sul, Dr. Nicholas Crisp, que também atua como coordenador do lançamento da vacina na África do Sul, afirma que os números de vacinação “diminuíram”, o que é “muito preocupante”. Nas últimas duas semanas, seus funcionários só puderam administrar uma média de 106.000 doses por dia.

“Devíamos estar realizando 250.000 por dia”, relatou Crisp ao Epoch Times. “Temos as vacinas, temos a capacidade de vacinar, temos os postos de vacinação em massa, temos os postos públicos e privados de vacinação. … Mas todos estão relatando que não estão lotados e que poderiam estar recebendo muito mais pessoas”.

Funcionário do departamento de saúde da África do Sul, Dr. Nicholas Crisp, está à frente do programa de vacinação do país (Darren Taylor / The Epoch Times)
Funcionário do departamento de saúde da África do Sul, Dr. Nicholas Crisp, está à frente do programa de vacinação do país (Darren Taylor / The Epoch Times)

Crisp afirma que vários fatores estão impedindo a campanha de vacinação, incluindo os “tremores remanescentes” de um período de cerca de um mês atrás, quando as empresas farmacêuticas não entregaram as vacinas prometidas.

“Perdemos o ímpeto na semana em que não tínhamos vacina em todas as clínicas e era irritante para as pessoas chegarem aos locais e serem rejeitadas. Alguns desses indivíduos frustrados não voltaram”, relatou. “Então você tem que levar em consideração um pouco de fadiga da vacinação. Saímos da terceira onda e as pessoas baixaram a guarda. Eu também acho que há alguma hesitação; as pessoas esperam para ver. Os anti vacinas fazem muito barulho e não conseguem ver as evidências óbvias de que as vacinas salvam vidas”.

O cristianismo carismático é forte na África do Sul e muitos evangélicos estão resistindo à vacinação.

Indivíduos de grande importância que rejeitam a vacinação incluem o ex-presidente do tribunal, Mogoeng Mogoeng, que acredita que as vacinas são uma “conspiração” para “injetar o Número da Besta” na população global, e Kenneth Meshoe, o líder do Partido Democrático Cristão Africano, que recusou consistentemente a vacina.

“Gostaríamos de fazer um apelo ao público: olhe para os fatos”, afirmou Crisp. “Considere os testemunhos de muitas pessoas que nos contaram sobre suas experiências pessoais no hospital, e de seus amigos e familiares que não foram vacinados e morreram. Sabemos que as vacinas salvam vidas. Existem dados suficientes sobre isso”.

“Também sabemos que as vacinas são como qualquer outra vacina e possuem efeitos colaterais. Sabemos que eventos adversos são relatados. Mas o número de eventos adversos que acontecem é mínimo em comparação com as complicações que vemos na infecção pela COVID”.

Várias fontes na administração de Ramaphosa relataram ao Epoch Times que o governo vai introduzir uma “legislação de emergência”, declarando a vacinação obrigatória “dentro de semanas”.

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