Como a bondade pode melhorar sua vida — e seus genes

A bondade começa com a empatia, ativando circuitos cerebrais que refletem os sentimentos dos outros e promovem a compaixão.

Por Makai Allbert
23/10/2025 14:40 Atualizado: 23/10/2025 14:40
Matéria traduzida e adaptada do inglês, publicada pela matriz americana do Epoch Times. 

Em 1989, Kent Nerburn decidiu trabalhar como motorista de táxi. “O que eu não esperava quando aceitei o emprego é que ele também seria um ministério”, escreveu Nerburn, hoje um premiado autor de Minnesota, em uma história de seu livro “Make Me an Instrument of Your Peace” (Faze-me um Instrumento da Tua Paz). “Como eu trabalhava no turno da noite, meu táxi se tornou um confessionário sobre rodas.”

“Encontrei pessoas cujas vidas me surpreenderam, me inspiraram, me fizeram rir e chorar. E nenhuma dessas vidas me tocou mais do que a de uma mulher que peguei tarde, em uma quente noite de agosto.”

Ele chegou ao endereço indicado. “Mas ninguém saiu. E pensei: ‘Bom, preciso decidir, bato na porta ou espero aqui?’ Muitos motoristas simplesmente teriam ido embora”, contou Nerburn ao The Epoch Times.

Ele decidiu bater na porta. Uma mulher veio atender. Parecia ter cerca de 80 anos.

A mulher perguntou: “Você poderia me ajudar a levar minha mala até o carro?”

“Claro”, respondeu ele. Foi então que a mulher disse: “Estou indo para o hospício. O médico disse que tenho que ir.”

Ela entrou no táxi, sentou-se no banco de trás e pediu: “Podemos dar uma volta pela cidade? Esta será a última vez que vou ver tudo isso. Gostaria de passar por alguns lugares que foram importantes na minha vida.”

“Ela me levou até um salão de dança em uma parte da cidade e disse que foi lá que conheceu o marido. Passamos pelas casas onde ela morou. Passamos por um hotel onde ela trabalhou como operadora de elevador”, contou ele.

“Dirigimos pela cidade a noite toda, e já estava ficando tarde, quase de manhã, quando ela disse: ‘Tudo bem, estou cansada. Vamos agora.’”

Nerburn a levou até o hospício. Quando ela desceu do carro, perguntou: “Bem, quanto eu te devo?”

“Você não me deve nada”, respondeu Nerburn.

“Ah, mas você precisa ganhar a vida”, disse ela.

“Há outras corridas, não se preocupe”, respondeu ele.

Nerburn ajudou a retirar a mala do carro, e a equipe do hospício já a esperava com uma cadeira de rodas. Ela então se aproximou, deu-lhe um forte abraço e disse: “Obrigada por fazer isso.”

“Foi um daqueles momentos que fazem você pensar”, disse Nerburn. “Talvez tenha sido para isso que eu fui colocado na Terra naquele momento — para ajudar aquela mulher.”

À primeira vista, a bondade beneficia quem a recebe, mas ao praticá-la, quem dá também ganha — de maneiras significativas e até tangíveis. Os efeitos da bondade se manifestam de forma concreta em dados científicos — e até no seu DNA.

A bondade transforma seu mundo interior

A bondade faz parte da natureza humana. Cientistas descobriram que crianças de apenas 18 meses já demonstram intenções claras de ajudar os outros.

Os atos de bondade geralmente começam com a empatia. Ao sentirmos compaixão pelo sofrimento alheio, tendemos a querer libertar o outro dele — e isso motiva gestos de bondade.

Nesses momentos, o “circuito da empatia” do nosso cérebro se acende.

Com base em décadas de pesquisas em neurociência, sabe-se que, quando os neurônios-espelho são ativados, sentimos ou reagimos de formas que refletem o comportamento de quem observamos. Em certo grau, nossos cérebros vivenciam uma sobreposição entre a experiência do outro e a nossa própria.

Além disso, a bondade vai além do desejo de aliviar o sofrimento das pessoas: ela inclui a intenção de melhorar o bem-estar dos outros sem esperar nada em troca.

Ainda assim, ao dar, acabamos recebendo algo — um ganho sutil, mas profundo — que embeleza o nosso próprio mundo interior.

Em um estudo realizado na Austrália em 2023, 671 participantes embarcaram em um experimento de duas semanas sobre como viver bem. Eles foram divididos aleatoriamente em quatro grupos: um deveria praticar bondade consigo mesmo; outro, ser mais sociável e extrovertido; o terceiro, se envolver com atividades como arte ou música; e o quarto, realizar atos de bondade em favor dos outros. Dia após dia, os pesquisadores avaliavam como essas atividades faziam os participantes se sentir.

Quando o tema era “eudaimonia” — um profundo senso de propósito e realização —, ajudar os outros superou todas as outras atividades. Embora o autocuidado, a socialização e o contato com a arte despertassem sentimentos positivos, nada se comparou ao calor duradouro sentido por quem se envolveu em gestos de bondade.

Ilustração The Epoch Times
Ilustração The Epoch Times

Naturalmente, a bondade cultiva a felicidade.

Um estudo de 2019 publicado no Journal of Social Psychology mostrou que pessoas que praticaram atos de bondade diariamente durante sete dias tiveram um aumento significativo nos níveis de felicidade. Curiosamente, independentemente de os gestos gentis serem direcionados à família ou a estranhos, quanto mais atos de bondade as pessoas praticavam ou presenciavam, mais felizes se sentiam.

Além disso, a bondade vai além das emoções — ela também influencia o DNA, moldando o funcionamento do sistema imunológico.

Boas ações mudam seu DNA

Um grupo de cientistas da Universidade da Califórnia decidiu descobrir se ser gentil com os outros altera nosso corpo em nível genético.

Para testar a questão de forma empírica, os pesquisadores dividiram aleatoriamente adultos em três grupos durante quatro semanas: um grupo realizou atos de bondade para pessoas específicas, outro realizou atos de bondade consigo mesmo, e o último grupo realizou uma atividade neutra como controle.

No início e no final do estudo, os participantes forneceram amostras de sangue. Os cientistas analisaram mudanças em um conjunto de genes ligados à inflamação e ao estresse — genes que, quando hiperativos, estão associados a um risco maior de doenças, como problemas cardíacos.

Os resultados foram fascinantes: o grupo que realizou atos de bondade voltados a outras pessoas apresentou a maior mudança saudável na atividade genética das células imunológicas. As amostras de sangue mostraram redução na expressão de genes relacionados à inflamação e ao estresse.

Ilustração The Epoch Times
Ilustração The Epoch Times

A descoberta deles corroborou um de seus estudos anteriores, de 2017, no qual concluíram: “Não foram necessárias atividades caras, conduzidas por instrutores ou que demandassem muito trabalho; simplesmente incorporar pequenos atos de bondade em relação aos outros na rotina diária foi suficiente para alterar a regulação genética dos leucócitos.”

Efeito cascata da bondade

“A maioria dos comportamentos, emoções e traços humanos é, ao menos em parte, socialmente contagiosa”, disse Abigail Marsh, neurocientista e pesquisadora de empatia na Universidade de Georgetown, ao The Epoch Times.

Ver outras pessoas praticando atos de bondade ativa os circuitos cerebrais de quem observa, preparando-os para serem mais gentis, sem esforço consciente.

Uma parábola famosa conta como uma tempestade deixou milhares de estrelas-do-mar morrendo na praia. Um homem observava a multidão que se formou, mas ninguém fazia nada. Então uma criança começou a recolher as estrelas-do-mar, uma a uma, jogando-as de volta ao mar.
“Filho”, disse o homem, “você não percebe que há quilômetros de praia e centenas de estrelas-do-mar? Você não fará diferença!”
A criança sorriu, pegou outra estrela-do-mar, jogou no oceano e respondeu: “Fiz diferença para esta!”

O homem se emocionou, juntou-se à criança, e aos poucos toda a multidão passou a ajudar.

Como sugerem os dados, atos individuais de bondade podem se espalhar mais do que se imagina.

Pesquisas de Adam Grant, professor da Wharton School da Universidade da Pensilvânia, corroboram o elemento contagioso da bondade no que ele chama de “reciprocidade ascendente”. Em experimentos controlados, participantes que presenciaram alguém ajudando outra pessoa tiveram 26% mais chances de ajudar um estranho posteriormente.

Os cientistas sociais James Fowler e Nicholas Christakis conduziram um estudo marcante mostrando que comportamentos generosos se espalham por redes sociais até três graus de separação.

O estudo deles, publicado no Proceedings of the National Academy of Sciences, uma revista de alto impacto, revelou que quando uma pessoa age com generosidade, isso inspira outros a serem generosos com uma ampla variedade de pessoas, criando uma cadeia de atos de bondade.

Eles descobriram que, quando alguém age de forma altruísta, isso incentiva não apenas seus amigos, mas também os amigos desses amigos a se tornarem mais generosos. O efeito cascata continua até a terceira camada, propagando-se como uma onda pelas redes humanas.

O comportamento generoso de uma pessoa se espalha para outras três pessoas afastadas dela — um amigo de um amigo de um amigo — e cada pessoa afetada continua a agir com generosidade em interações futuras. Ilustração do The Epoch Times
O comportamento generoso de uma pessoa se espalha para outras três pessoas afastadas dela — um amigo de um amigo de um amigo — e cada pessoa afetada continua a agir com generosidade em interações futuras. Ilustração do The Epoch Times

Até onde a bondade pode realmente se espalhar?

Na década de 1960, o psicólogo americano Stanley Milgram conduziu um experimento que revelou que uma pessoa podia alcançar qualquer estranho por meio de uma média de 5,2 intermediários. Esse é o chamado problema do “mundo pequeno”: estamos muito mais conectados do que imaginamos. Com a tecnologia, o mundo ficou ainda menor — reduzido a 3,57 intermediários, segundo pesquisas conduzidas pela Meta.

Mesmo hoje, a história de Nerburn ajudando a idosa há 40 anos continua a gerar efeitos em cadeia. Nerburn contou que, após sua história aparecer na internet, recebeu inúmeros e-mails, principalmente de jovens, profundamente inspirados pela narrativa. O relato motivou muitos deles a agirem com mais bondade em suas próprias vidas, acreditando que um simples ato de gentileza pode fazer uma diferença significativa.

Desenvolvendo a bondade

Em um estudo publicado na Psychological Science, pesquisadores recrutaram voluntários e os designaram aleatoriamente para um treinamento de atenção plena de oito semanas ou para uma atividade de controle.

No final do experimento, os participantes acreditavam que estavam se apresentando para uma tarefa não relacionada em uma sala de espera. Lá, um ator usando muletas passou. “O sofredor [ator], que visivelmente se contorceu ao andar, parou justamente quando chegou às cadeiras. Em seguida, olhou para o celular, suspirou audivelmente de desconforto e se encostou na parede”, escreveram os autores.

O que aconteceu em seguida foi bastante revelador. Cinquenta por cento do grupo treinado em meditação rapidamente cedeu sua cadeira, enquanto apenas 15% do grupo de controle fez o mesmo.

Os autores observaram que “a meditação resultou em um efeito tão grande — aumentando as chances de agir para aliviar a dor de outra pessoa em mais de 5 vezes.”

Experimentos posteriores confirmaram que até intervenções de meditação mais curtas, de três semanas, promovem empatia significativa.
Outra maneira de desenvolver a bondade é sentir que você faz parte de algo maior que si mesmo. Uma abordagem é sair e experimentar o deslumbramento. Em um estudo de 2015 publicado no Journal of Personality and Social Psychology, parte dos participantes ficou de frente para altas árvores de eucalipto e as contemplou por um minuto, enquanto outros participantes olhavam para longe das árvores, fixando o olhar em um prédio moderno de ciências. Os participantes que olharam para as árvores foram mais propensos a ajudar alguém posteriormente e relataram níveis menores de autoimportância.

Nerburn disse que, em sua vida, desde a inesquecível viagem de carro, encontrou algumas maneiras de incorporar a bondade intencional.

“Um modelo simples é [perguntar]: ‘Fazer algo bom terá mais significado para a outra pessoa do que me causará incômodo?’”, disse Nerburn. “E quando esse for o caso… faça a coisa certa.”

Atos de bondade intencional podem começar pequenos. Marsh sugere uma fórmula: Quando X acontecer, então eu farei Y — com o máximo de detalhes possível. “Sempre que eu passar por uma porta, prestarei atenção se alguém está chegando e a segurarei para a pessoa. … Quando eu vir lixo no chão, vou pegá-lo”, disse ela.

“No início, é esforçado, e depois se torna hábito.”

Nerburn concluiu que momentos de bondade — como sua viagem de táxi — são inesperados, mas acontecem com as pessoas todos os dias. Quando você os percebe, “aproveite o momento e seja gentil.”

“A longo prazo, sua vida será muito melhor”, disse ele.