Tailândia deportou uigures por medo de retaliação da China, admite ministro

A admissão ocorre depois que surgiram relatos de que a Tailândia recebeu ofertas de três países para receber os uigures.

Por Lily Zhou
07/03/2025 18:26 Atualizado: 07/03/2025 18:26
Matéria traduzida e adaptada do inglês, publicada pela matriz americana do Epoch Times.

A Tailândia deportou refugiados uigures para a China na semana passada com medo de uma possível “retaliação” do regime chinês, disse um ministro tailandês na quinta-feira (6).

Isso ocorre no momento em que o país do sudeste asiático está sendo condenado depois que seu governo enviou cerca de 40 requerentes de asilo uigures de volta à China em 27 de fevereiro.

A deportação foi realizada, embora um especialista em direitos humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) tenha avisado previamente que o grupo corria “risco real de tortura ou outros tratamentos ou punições cruéis, desumanos ou degradantes se fossem devolvidos”.

Após a deportação, Estados Unidos, Reino Unido, Austrália, Canadá e União Europeia, entre outros, condenaram a decisão do governo tailandês.

Em meio ao tumulto, as autoridades tailandesas negaram que países terceiros tenham se oferecido para reassentar os refugiados — mantidos em detenção na Tailândia por 11 anos antes de sua deportação.

Entretanto, surgiram relatos de que a Tailândia havia recebido várias ofertas para realocar os uigures.

Em resposta, Russ Jalichandra, vice-ministro das Relações Exteriores da Tailândia, afirmou em um comunicado na quinta-feira (7) que alguns países se ofereceram para reassentar os uigures, mas o governo tailandês considerou as ofertas “irrealistas”, pois o reassentamento dos uigures não protegeria a Tailândia de uma possível represália da China, que é a maior parceira comercial da Tailândia.

“A Tailândia poderia enfrentar uma retaliação da China que afetaria os meios de subsistência de muitos tailandeses”, declarou ele, acrescentando que enviar o grupo para a China era a “melhor opção”.

Pisan Manawapat, embaixador tailandês no Canadá e nos Estados Unidos entre 2013 e 2017 e senador antes de se aposentar em 2024, revelou anteriormente à Reuters que pelo menos três países haviam abordado a Tailândia com propostas para reassentar os uigures, mas o governo tailandês “não tomou a decisão em nível político de levar isso adiante” porque “não queria chatear a China”.

Campos de internamento em Xinjiang

Os uigures são um grupo étnico turco que é essencialmente muçulmano. Eles foram submetidos a detenções em massa na China, com cerca de um milhão ou mais de pessoas colocadas em uma ampla rede de campos de internamento e outras instalações de detenção na região de Xinjiang, no extremo oeste do país.

Sobreviventes dos campos descreveram a experiência de trabalhos forçados, esterilizações forçadas, doutrinação política e outros abusos durante o período de detenção.

O governo dos EUA se referiu à repressão do regime chinês em Xinjiang como um genocídio.

Em 2022, o escritório de direitos humanos da ONU constatou que a repressão do regime aos muçulmanos uigures pode ser considerada um crime contra a humanidade.

Os indivíduos deportados na semana passada estavam entre as centenas de uigures detidos pelas autoridades tailandesas em 2014 depois de fugirem de Xinjiang, que os ativistas uigures pró-independência chamam de Turquestão Oriental.

Os refugiados chineses, incluindo uigures, praticantes do Falun Gong e outros, muitas vezes dependem de traficantes de pessoas em suas viagens para Bangkok, onde buscam asilo por meio da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

Muitos solicitantes permanecem no país em um limbo por anos, sendo que alguns são mantidos no centro de detenção de imigração da Tailândia, cronicamente lotado e insalubre.

Dos mais de 300 uigures detidos na Tailândia em 2014, cinco morreram durante a detenção. Em 2015, as autoridades tailandesas enviaram 173 uigures detidos para a Turquia, enquanto a deportação de 109 uigures para a China em julho do mesmo ano levou a um protesto na Turquia em frente à embaixada tailandesa em Istambul.

As deportações de 2015 também supostamente levaram a um atentado a bomba em uma área turística de Bangkok, que deixou 20 pessoas mortas. Dois suspeitos uigures detidos por causa do atentado negam estar envolvidos. O processo judicial contra eles continua.

Eva Fu, Dorothy Li e Reuters contribuíram para esta reportagem.