China suspende importação de soja de unidades brasileiras após detectar pesticidas

Medida segue mudanças no equilíbrio comercial entre Brasil e China, com queda nas exportações brasileiras e aumento nas importações de produtos chineses.

Por Matheus Andrade
24/01/2025 09:06 Atualizado: 24/01/2025 09:06

A China notificou recentemente a detecção de pragas e resíduos de pesticidas em carregamentos de soja de cinco unidades de empresas brasileiras. Como resultado, as exportações dessas unidades para o país asiático foram suspensas temporariamente.

A medida, anunciada pela Administração-Geral de Aduanas da China (GACC), provocou reações do governo brasileiro. Ela também reflete um cenário mais amplo de mudanças no equilíbrio comercial entre as duas nações.

Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), “a suspensão das unidades foi comunicada previamente pela GACC ao lado brasileiro, demonstrando confiança no sistema de inspeção brasileiro e na robustez do trabalho realizado pelo governo brasileiro e pelos exportadores”.

A nota oficial também esclarece que a medida afeta apenas cinco unidades específicas, enquanto outras continuam operando normalmente. Dessa forma, “os volumes negociados pelo Brasil não serão afetados em função desta suspensão temporária”.

O Mapa informou que já está conduzindo uma investigação sobre os casos e aguarda os planos de ação das empresas notificadas. O objetivo é adotar medidas corretivas que impeçam a repetição das não conformidades.

“O Mapa possui expectativa do recebimento, na maior brevidade possível, dos planos de ação das empresas envolvidas para demonstrar os procedimentos adotados para evitar novas ocorrências”, afirma a nota.

Além disso, foram intensificadas as fiscalizações nos embarques de soja destinados à China.

Segundo o governo, “não conformidades, como estas indicadas pelo lado chinês, são passíveis de acontecer na rotina das exportações e ações para correção de eventuais desvios são sempre importantes para o fortalecimento das relações de confiança entre os países”.

China: menos importações e mais exportações

Embora a China continue sendo o maior mercado para produtos brasileiros, com destaque principalmente para commodities como a soja, o equilíbrio comercial entre os dois países têm mudado.

Segundo dados do ICOMEX-FGV, a participação da China nas exportações brasileiras caiu de 30,7% para 28,6% entre 2023 e 2024, enquanto as importações provenientes da China aumentaram de 21,9% para 24,1%. Enquanto o país asiático prioriza o consumo interno e expande suas exportações, o Brasil passa a depender cada vez mais de Pequim.

O crescimento das importações brasileiras de produtos chineses em 2024 foi de 38,1%, impulsionado por itens como carros elétricos, enquanto o crescimento das exportações brasileiras para a China foi limitado a apenas 1,2% em volume. Essa diferença mostra a redução no apetite chinês por commodities, que sofreram queda nos preços e volumes exportados, e o aumento da dependência brasileira de produtos industrializados chineses.

Recorde histórico da balança comercial chinesa

A estratégia de reduzir importações e priorizar exportações contribuiu diretamente para o superávit histórico da balança comercial chinesa, que atingiu US$ 990 bilhões em 2024. O resultado é um reflexo da dominação global da China em setores como manufatura e energia, com destaque para a exportação de automóveis e painéis solares.

“As fábricas chinesas produzem atualmente um terço de todos os bens manufaturados do mundo”, aponta o relatório da FGV.

Embora impressionante, esse superávit também expõe vulnerabilidades da economia chinesa, como a dependência excessiva de mercados externos. As tarifas e barreiras comerciais impostas por outros países, especialmente os Estados Unidos, podem representar riscos futuros.

Impactos e riscos no mercado nacional

O desequilíbrio crescente na relação comercial entre Brasil e China levanta preocupações sobre a dependência nacional das importações chinesas. A presença massiva de produtos manufaturados chineses no mercado brasileiro pode dificultar o desenvolvimento de indústrias locais e aumentar a vulnerabilidade econômica do país.

Ademais, a redução na participação das exportações brasileiras para a China sinaliza a necessidade de diversificar mercados e reduzir a dependência de commodities. Isso é essencial para evitar choques no comércio exterior, especialmente em cenários de retração econômica global ou de tensões diplomáticas.

O agro brasileiro enfrenta desafios adicionais, como o aumento de 30% nos pedidos de recuperação judicial em 2024 devido a dificuldades financeiras de pequenos e médios produtores.

Apesar de um cenário de desafios econômicos que inclui alta nos custos de produção, oscilações cambiais e condições climáticas adversas, o agronegócio brasileiro conseguiu registrar resultados positivos na produção. A safra de grãos 2024/25 alcançou um recorde histórico de 270,9 milhões de toneladas, com aumentos significativos em culturas como soja (+4,5%) e milho (+6,8%).