Matéria traduzida e adaptada do inglês, publicada pela matriz americana do Epoch Times.
Análise
As montadoras chinesas estão inundando o mundo com veículos de nova energia (NEVs), exceto nos Estados Unidos, onde políticas rigorosas foram implementadas para combater os subsídios do governo chinês que dão aos fabricantes de VEs uma vantagem competitiva. Esse impulso às exportações faz parte de uma estratégia mais ampla de Pequim para tornar os automóveis a pedra angular de seu motor de exportação.
Veículos de nova energia, como são chamados na China, referem-se a veículos elétricos movidos a bateria (BEVs), veículos elétricos híbridos plug-in (PHEVs) e veículos elétricos a célula de combustível (FCEVs).
De acordo com dados recentes da Associação Chinesa de Fabricantes de Automóveis, a China exportou um total de 3,083 milhões de veículos no primeiro semestre de 2025, um aumento de 10,4% em relação ao mesmo período do ano anterior. Desse total, 1,06 milhão eram veículos de nova energia, representando um aumento de 75,2% em relação ao mesmo período de 2024.
A Gasgoo, uma plataforma de mídia e dados da indústria automotiva sediada na China, disse em uma análise dos dados de exportação dos primeiros cinco meses que os NEVs chineses estão ganhando um alcance global mais amplo, impulsionados por diversos cenários políticos e fatores geopolíticos.
“Apoiados por acordos comerciais regionais e políticas favoráveis aos veículos elétricos (VE), o México e o Sudeste Asiático emergiram como os mercados de destino de exportação de crescimento mais rápido da China”, diz o relatório.
Enquanto isso, impulsionadas por preços competitivos e redes de fornecimento sólidas, as marcas chinesas de veículos elétricos continuam a ganhar participação de mercado na Europa, observa o relatório.
De acordo com o provedor de soluções de dados DataForce, o número de PHEVs chineses vendidos na Europa no primeiro trimestre “disparou” em 368% em relação ao ano anterior.
Um relatório do Centro para a Reforma Europeia conclui que as importações de veículos elétricos a bateria da China cresceram exponencialmente no mercado europeu desde 2020, aumentando 1.646% de 2020 a 2023.
Pequim capitaliza mudança para veículos elétricos
Pequim implementou uma estratégia de longo prazo para promover exportações de automóveis — especialmente veículos elétricos — para atualizar sua estrutura de exportação, capitalizando a transição global para a eletrificação na indústria automobilística.
“As exportações de veículos se tornaram uma parte vital da indústria automobilística da China e um fator-chave na transformação do modelo de comércio exterior do país”, observou um documento de política divulgado em 2009 pelo Ministério do Comércio da China.
O documento também listou “apoiar ativamente a exportação de veículos energeticamente eficientes e de novas energias” como uma de suas principais políticas.
Políticas internacionais favoráveis, como os prazos de eliminação gradual de veículos movidos a combustível na Europa, levaram as montadoras a acelerar sua transição.
Cui Dongshu, secretário-geral da Associação Chinesa de Automóveis de Passageiros, escreveu em uma coluna recente que o mercado automobilístico global está passando por uma “reorganização da eletrificação” e que os híbridos plug-in chineses estão “ganhando participação de mercado rapidamente, graças à sua vantagem tecnológica e vantagens de custo”.
Analistas dizem que generosos subsídios governamentais permitiram que os fabricantes chineses de veículos elétricos se expandissem rapidamente no exterior.
Em um artigo publicado na Intereconomics, Frank Bickenbach, Dirk Dohse, Rolf J. Langhammer e Wan-Hsin Liu fornecem evidências substanciais de que a expansão dos veículos elétricos chineses no exterior foi significativamente impulsionada pelo amplo apoio de longa data do regime chinês à indústria, que inclui subsídios tanto do lado da demanda quanto da oferta.
“O amplo apoio do governo permitiu que as indústrias de manufatura verde chinesas crescessem rapidamente e começassem a dominar o mercado interno chinês e, cada vez mais, também os mercados estrangeiros”, diz o documento.
“Isto é verdade para painéis solares ou baterias para veículos elétricos, onde as empresas chinesas dominam os mercados da UE há vários anos, e cada vez mais também para veículos elétricos a bateria e turbinas eólicas, onde as empresas chinesas estão apenas começando a penetrar nos mercados da UE.”
De acordo com o artigo, em 2022, os subsídios governamentais para veículos elétricos totalizaram aproximadamente 5,3 bilhões de euros (US$ 6,20 bilhões), com média de 2.300 euros (US$ 2.670) entre 2010 e 2020 e 1.300 euros (US$ 1.510) em 2022, o que lhes dá uma vantagem competitiva em relação aos seus concorrentes não chineses.
A empresa chinesa BYD foi de longe a maior beneficiária desses subsídios, que somente em 2022 somaram 1,6 bilhão de euros (US$ 1,87 bilhão) em subsídios de compra.
A BYD é uma produtora líder de NEV na China, detendo uma participação dominante de 34,1% no mercado de NEV do país em 2024 — bem à frente de concorrentes como Geely (7,9%) e Tesla (6%).
Uma característica fundamental dos subsídios da China
O artigo da Intereconomics aponta ainda uma característica distintiva dos subsídios para veículos elétricos a bateria na China: eles são pagos diretamente aos fabricantes, e não aos consumidores. Isso beneficia as empresas beneficiárias, pois o subsídio vai direto para o seu resultado final (margem líquida), ajudando a mitigar qualquer déficit nas margens bruta e operacional devido a cortes de preços e atividades promocionais de produtos.
Veja a BYD, por exemplo. Dados da MacroTrends mostram que, entre 2021 e 2025, as margens bruta e operacional da fabricante de veículos elétricos (NEVs) caíram drasticamente — de cerca de 100% para aproximadamente 20% e 5%, respectivamente — enquanto sua margem líquida mais que dobrou.
Isso contrasta fortemente com as margens de uma empresa típica, onde as margens bruta, operacional e líquida geralmente se movem na mesma direção. Por exemplo, de acordo com dados da MacroTrends, as margens bruta e operacional da Volkswagen permaneceram relativamente estáveis no mesmo período, enquanto sua margem líquida diminuiu ligeiramente.
Outra característica dos subsídios chineses é que eles são fornecidos aos produtores nacionais, discriminando assim os produtores não nacionais.
O Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) e a Fundação de Tecnologia da Informação e Inovação (ITIF) apontaram em um estudo que, na China, os subsídios para o setor de VEs estavam focados “quase inteiramente” em empresas sediadas no país.
De acordo com a Argus Media, uma empresa de análise e dados de commodities sediada em Londres, a BYD vendeu um total de 464.266 NEVs no exterior no primeiro semestre deste ano — um aumento acentuado em relação aos 203.404 do mesmo período em 2024.
Nos primeiros quatro meses do ano, a BYD vendeu mais de 285.000 NEVs na Europa — mais que o dobro do número vendido no mesmo período do ano anterior.
Estratégia da BYD e lacuna de vendas entre Europa e EUA
A S&P Global Mobility estimou em fevereiro que a BYD poderia dobrar suas vendas na Europa, de 83.000 em 2024 para 186.000 este ano.
O provedor de dados automotivos descreveu as estratégias de expansão da BYD na Europa, incluindo a diversificação de sua linha de veículos, visando consumidores sensíveis a custos e de alto padrão, mudando estrategicamente para veículos híbridos plug-in e expandindo rapidamente a capacidade de produção, conforme demonstrado por seus acordos na Hungria e na Turquia.
Em 31 de janeiro de 2024, a BYD anunciou a assinatura de um acordo com o governo húngaro para a construção de uma nova unidade de produção de veículos elétricos em Szeged. Em 8 de julho de 2024, o Turkish Investment Office [Escritório de Investimentos da Turquia] anunciou, em um comunicado à imprensa, que a BYD investiria US$ 1 bilhão na construção de uma fábrica em Manisa, com capacidade de produção projetada para 150.000 veículos híbridos a bateria e plug-in.
Para nivelar a competição, a UE anunciou em 30 de outubro de 2024 que imporia tarifas aos fabricantes chineses de veículos elétricos, variando de 17% a 35%, dependendo do tipo de veículo. Essas tarifas são aplicadas em adição aos atuais 10% de impostos de importação sobre veículos que entram na UE. A duração dos impostos seria de cinco anos, a menos que “uma revisão de caducidade seja iniciada antes dessa data”.
Valdis Dombrovskis, vice-presidente executivo de comércio da Comissão Europeia, disse na época que “ao adotar essas medidas proporcionais e direcionadas após uma investigação rigorosa, estamos defendendo práticas de mercado justas e a base industrial europeia”.
No entanto, as tarifas adicionais não se aplicam a veículos híbridos plug-in, deixando uma brecha que os fabricantes chineses poderiam explorar.
“O que é especialmente notável é que alguns países europeus, como a Alemanha, incluíram híbridos plug-in em seus programas de subsídios para ‘veículos verdes’, proporcionando oportunidades para os híbridos plug-in chineses entrarem no mercado de luxo”, disse Cui Dongshu em sua coluna.
Georgios Koimisis, professor associado de finanças na Universidade de Manhattan, disse que “as políticas climáticas agressivas da Europa, juntamente com os incentivos para veículos elétricos e a abertura, impulsionaram a demanda por montadoras chinesas como BYD e Geely”.
O mercado dos EUA é bem diferente para os fabricantes chineses de carros elétricos.
Até o momento, a BYD não vendeu veículos elétricos de passeio nos Estados Unidos. De acordo com a transcrição de uma teleconferência de resultados obtida pela Reuters, a empresa pretende dobrar suas vendas no exterior para mais de 800.000 unidades este ano. No entanto, o presidente da empresa, Wang Chuanfu, afirmou que a BYD não tem planos de entrar no mercado americano no curto prazo devido a questões geopolíticas.
As operações da BYD na América do Norte concentram-se em ônibus elétricos e veículos comerciais. A empresa fornece ônibus elétricos para diversas cidades americanas, incluindo Los Angeles e São Francisco.
Em 16 de maio de 2024, o então presidente americano Joe Biden anunciou que aumentaria as tarifas sobre veículos elétricos chineses de 25% para 100%, sob a ação da Seção 301, para “evitar um aumento de exportações injustamente subvalorizadas e permitir que montadoras e trabalhadores da indústria automobilística nos EUA concorram de forma justa”.
A tarifa mais severa dos EUA sobre veículos elétricos provavelmente foi moldada em parte por sua experiência no final da década de 1970, quando um aumento nas importações de automóveis japoneses de baixo custo desafiou a indústria automobilística nacional e contribuiu para o aumento dos déficits comerciais e das tensões entre Washington e Tóquio.
Alex Black, diretor de marketing da EpicVIN, disse ao The Epoch Times que as montadoras chinesas enfrentam uma situação muito mais difícil nos Estados Unidos.
Eles têm uma tarifa chinesa para automóveis, nenhum crédito fiscal federal para veículos elétricos e um ceticismo considerável do consumidor em relação a marcas desconhecidas. Eles possuem tecnologia e escala, mas sem montagem local ou redes de concessionárias, entrar no mercado americano é uma estratégia de longo prazo.
Koimisis também afirmou que o mercado americano é desafiador. “Tarifas proibitivas e políticas destinadas a apoiar veículos elétricos produzidos internamente, como a Lei de Redução da Inflação, efetivamente excluíram os veículos elétricos chineses do mercado americano”, disse ele.
Enquanto isso, Fanis Matsopoulos, membro do comitê executivo da Câmara de Comércio e Indústria de Atenas, disse que a preferência pelo tamanho do veículo — com veículos pequenos e médios sendo mais populares na Europa —, a visibilidade da marca e questões culturais e políticas também são fatores que podem explicar a divergência entre o desempenho da BYD na Europa e nos EUA.
“Na última década, uma cultura que enfatiza o apoio a produtos fabricados nos Estados Unidos criou raízes entre os consumidores americanos”, disse Matsopoulos ao The Epoch Times.
“Ao mesmo tempo, os produtos chineses são frequentemente percebidos como de qualidade inferior e como algo que representa um desafio ao bem-estar econômico e social do povo americano.”



