Matéria traduzida e adaptada do inglês, publicada pela matriz americana do Epoch Times.
Estatísticas recentes do Reino Unido indicam que, pela primeira vez na história da humanidade, menos da metade dos adultos britânicos são casados. “É uma das instituições mais antigas conhecidas pela humanidade. … Agora, mais de quatro milênios depois, o casamento pode estar à beira da extinção.”
Não se engane: o fim do casamento seria uma espécie de apocalipse. A raiz grega de apocalipse significa “revelação” ou “divulgação”, e o fim do casamento seria a revelação de um admirável mundo novo.
Algumas realidades são tão fundamentais para a vida humana e para a sociedade que um mundo sem elas é difícil de imaginar, exceto em visões apocalípticas de romances distópicos nos limites da nossa imaginação. Essas realidades incluem a mãe que embala seu bebê nos braços, os amigos que afastam as sombras com risadas e canções e o soldado que leva um tiro para salvar seus companheiros.
Um mundo sem essas realidades simples perde um elemento insubstituível da experiência humana.
Mesmo esses exemplos dispersos não chegam a expressar a importância de uma realidade que forma o pilar da civilização desde antes mesmo de ela ter um nome: o casamento. É quando um homem e uma mulher declaram um ao outro diante da comunidade: “Eu te amo e ficarei com você para sempre”. Esse compromisso fundamental torna todos os outros compromissos possíveis; é o contrato que sustenta todos os outros contratos.
O casamento traz estabilidade à sociedade porque cada homem e mulher plantam a árvore do seu casamento dentro da comunidade maior e, no devido tempo, ela dá frutos. O casamento tem sido, há muito tempo, o meio de perpetuar a sociedade, dando-lhe novos membros, que podem ser criados em lares estáveis e amorosos, estabelecidos com base no voto de compromisso feito entre marido e mulher. Se o casamento celebra o amor e traz nova vida à comunidade, então é somente por causa do casamento que a mãe segura o bebê, os amigos cantam e se alegram, o soldado dá a vida e o viajante volta para casa. É a força vital da sociedade, seu alicerce e seu futuro.
A base da família

Hoje, é claro, a procriação de filhos, a única maneira de garantir o futuro de uma sociedade, muitas vezes acontece fora do casamento. Mas será que a sociedade se tornou mais estável e próspera com a separação entre nascimentos e casamentos? As evidências sugerem que não.
Considere a estabilidade que surge de casamentos monogâmicos e comprometidos. Filhos de pais casados geralmente são criados em lares onde sabem que existe um vínculo especial e sagrado entre seus pais, um amor consagrado que pode resistir aos ventos do mundo. Filhos de pais casados têm um senso de segurança muito mais forte do que filhos de pais solteiros, o que lhes permite se tornar adultos fortes, confiantes e capazes. Como afirmou Harry Benson, diretor de pesquisa da Marriage Foundation, “o casamento pode não ser uma panaceia, mas aumenta as chances de famílias estáveis”.
Em contrapartida, a falta de monogamia e compromisso nos casamentos leva ao ciúme, à ruptura e ao abandono. Ciclos de pobreza, ausência paterna e crime são muito mais prováveis de serem alimentados por uma sociedade que desvaloriza o vínculo matrimonial.
Além disso, a desonestidade, a corrupção e as promessas quebradas se espalham e se multiplicam mais rapidamente em uma sociedade que desistiu do casamento. Se um homem e uma mulher que se amam não conseguem fazer e manter uma promessa um ao outro, como se pode esperar que alguém o faça? Certamente, um contrato comercial ou um pacto entre pessoas e políticos não será considerado mais sagrado do que um pacto entre amantes. Se um falha, os outros também falham.
Felizes para sempre
A tradição ensina isso com a mesma força que o senso comum. Séculos e séculos de sabedoria se acumulam como sedimentos em um rio e nos dizem a mesma coisa: o casamento é importante. O casamento torna as comunidades humanas mais estáveis. O casamento ajuda a vida humana e a sociedade a perdurar, e o casamento permaneceu apesar de séculos de turbulências, guerras e catástrofes.
Mas há mais razões pelas quais o casamento continua relevante no século XXI. A principal delas é a honra que se deve ao amor. O casamento é uma celebração ao longo da vida da bondade do amor. Se o amor entre um homem e uma mulher — uma das coisas mais belas e poderosas que podemos experimentar nesta vida — não vale a pena ser celebrado, honrado e solenizado publicamente, então o que vale?
O amor exige expressão. Quando nos importamos com alguém, queremos mostrar isso a essa pessoa e ao mundo. Casamos, em parte, para manifestar nosso amor ao mundo. O amante anseia por proclamar seu amor. Essa é a origem de todos os grandes poemas de amor da história. Shakespeare procurou imortalizar alguém que amava no Soneto 18. “Enquanto os homens puderem respirar ou os olhos puderem ver, isso viverá e isso te dará vida.”
Quando amamos algo, desejamos preservá-lo. Queremos que dure, se possível, para sempre. Todo amante, conscientemente ou não, deseja que seu amor participe de alguma forma do eterno. Por meio de um voto público, o casamento realiza o desejo do amante de eternizar seu amor: “até que a morte nos separe”. Ele ganha uma permanência que não tinha antes. O ataque moderno ao casamento não é uma deferência ao amor e à sua livre expressão. Em vez disso, é um insulto ao amor. Como G.K. Chesterton brilhantemente colocou:
“[Os oponentes do casamento] parecem imaginar que o ideal da constância era um jugo misteriosamente imposto à humanidade pelo diabo, em vez de ser, como é, um jugo consistentemente imposto por todos os amantes a si mesmos. Eles inventaram uma frase, uma frase que é uma contradição em preto e branco em duas palavras — ‘amor livre’ — como se um amante alguma vez tivesse sido, ou pudesse ser, livre. É da natureza do amor se comprometer, e a instituição do casamento apenas fez ao homem comum o elogio de acreditar em sua palavra.”
Nossa capacidade de nos comprometermos com um determinado futuro, de “marcar um encontro conosco mesmos”, como diz Chesterton, nos diferencia dos animais. Em seu livro Nostalgia, Anthony Esolen escreveu: “os cães procriam, mas os seres humanos se casam. A promessa deles não é por um longo tempo, mas para sempre”. Os seres humanos escolhem racionalmente transformar o amor que sentem agora em algo de valor permanente por meio do compromisso.
Mas se deixarmos a instituição milenar do casamento entrar em colapso, estaremos sucumbindo a um estado mais animal, no qual os prazeres e gratificações do momento superam todas as considerações sobre o futuro, no qual nos recusamos a apostar nosso futuro em uma única pessoa. Chesterton acreditava que nossa hesitação em fazer votos, especialmente votos matrimoniais, derivava do medo de nós mesmos e de nossa própria inconstância. “Nos tempos modernos, esse terror de si mesmo, da fraqueza e mutabilidade de si mesmo, aumentou perigosamente e é a verdadeira base da objeção a votos de qualquer tipo”, escreveu ele.
É um medo compreensível. Somos mutáveis. Mas, para muitos, o peso de um voto é suficiente para refrear essa natureza inconstante. A escolha de assumir um compromisso sempre acarreta o risco do fracasso. Entrar num casamento requer coragem. Talvez o que precisemos seja um pouco mais de coragem para assumir esse risco e ver o casamento como uma vela que nos leva através dos mares da vida, em vez de uma corrente que nos prende.



