O álcool, uma das substâncias mais consumidas mundialmente, tem sido consistentemente associado a um aumento no risco de desenvolver diversos tipos de câncer.
Estudos recentes reforçam as evidências de que não há um limite seguro para o consumo de álcool em relação ao risco de câncer.
De acordo com um estudo do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, o álcool é classificado como um agente carcinogênico do Grupo 1 pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC).
Isso implica que ele está definitivamente associado ao desenvolvimento de cânceres em humanos.
Esse estudo destaca que o consumo de álcool está diretamente relacionado ao aumento de casos de câncer de esôfago, fígado, mama, cólon e outros órgãos.
Além disso, aponta que o álcool age como um potencializador de outros fatores carcinogênicos, como o tabagismo, aumentando significativamente o risco de câncer de boca e garganta.
Segundo o Cancer Research UK (CR-UK) — entidade de pesquisa sobre câncer do Reino Unido — o consumo de qualquer quantidade de álcool está ligado principalmente ao surgimento de cânceres de boca, garganta, laringe, esôfago, estômago e intestino.
O álcool além de danificar as células, também pode atrapalhar a recuperação e regeneração de outras células. A substância também prejudica o funcionamento normal das células, atrapalhando sinais químicos e fazendo com que células se multipliquem de maneira anormal, o que leva a altos riscos de câncer.
Em outro estudo, publicado na Lancet em janeiro de 2023, intitulado “Riscos à saúde e ao câncer associados ao consumo baixo de álcool”, revelou que em 2016, o consumo de álcool foi responsável por 3 milhões de mortes em todo o mundo e 5,1% da carga global de doenças.
O estudo destacou que mesmo o consumo moderado, definido como menos de 20 gramas de álcool puro por dia, foi responsável por 23 mil novos casos de câncer na União Europeia em 2017.
Esses números incluem 11 mil casos de câncer de mama em mulheres, demonstrando que até mesmo níveis baixos de consumo podem ter consequências graves para a saúde.
Segundo este estudo, a inexistência de um limite seguro para o consumo de álcool foi evidenciada por dados que mostraram que os efeitos cancerígenos do álcool começam a se manifestar mesmo em níveis muito baixos.
A pesquisa refuta a ideia de que o consumo leve ou moderado possa oferecer proteção significativa contra doenças cardiovasculares, como sugerido por alguns estudos anteriores.
A Organização Mundial da Saúde também já firmou posição contrária ao consumo de qualquer quantidade de álcool.
Reabilitação alcoólica e redução de riscos
Um estudo da Lancet de julho de 2024 investigou o impacto da reabilitação alcoólica na redução dos riscos de câncer associados ao consumo de álcool.
Este estudo analisou mais de 25 milhões de adultos na França, entre 2018 e 2021, e revelou que a dependência do álcool aumenta significativamente o risco de cânceres associados ao álcool, como carcinoma hepatocelular, cânceres do trato aerodigestivo superior (boca, faringe e laringe), esôfago e colorretal.
Os resultados mostraram que pacientes que passaram por tratamentos de reabilitação ou mantiveram histórico de abstinência apresentaram uma redução de cerca de 40% no risco desses cânceres, em comparação com aqueles que permaneceram dependentes de álcool sem tratamento.
O estudo também observou que os benefícios da abstinência aumentam ao longo do tempo.
Pacientes que se abstiveram completamente apresentaram taxas de risco ainda menores do que aqueles que apenas reduziram o consumo por meio de reabilitação hospitalar.
Efeitos cumulativos e disparidades sociodemográficas
Os dados indicam que homens são mais frequentemente diagnosticados com cânceres associados ao álcool, especialmente câncer de fígado e do trato aerodigestivo superior.
Além disso, o estudo destacou a desigualdade no acesso a serviços de reabilitação, com populações mais pobres apresentando taxas mais altas de dependência de álcool e menor probabilidade de buscar tratamento.
Implicações futuras
O reconhecimento do álcool como um importante fator de risco para o câncer tem implicações significativas para políticas de saúde global.
Os estudos indicam que, além de intervenções individuais, abordagens estruturais são necessárias para reduzir a carga de doenças atribuídas ao consumo de álcool.
A conscientização pública, combinada com a oferta de suporte para aqueles que desejam reduzir ou cessar o consumo, é fundamental para combater o impacto dessa substância na saúde global.



