ONU reduz discretamente previsões populacionais

Por Bill King
30/06/2025 10:10 Atualizado: 30/06/2025 12:20
Matéria traduzida e adaptada do inglês, publicada pela matriz americana do Epoch Times.

Comentário

Há décadas, nos disseram que o maior problema do mundo é o excesso de pessoas. Desde Malthus, no século 18, até “A Bomba Populacional” nos anos 1960, os alertas foram severos: mais pessoas significariam mais fome, mais pobreza, mais destruição ambiental. Mas algo inesperado aconteceu. A matemática demográfica mudou. E as Nações Unidas, a autoridade mais citada do mundo em previsões populacionais, notaram isso.

Até recentemente, seus modelos previam que a população global continuaria crescendo ao longo do século 21, atingindo um pico de quase 11 bilhões até o ano 2100. Mas, em suas revisões de 2022 e 2024, a ONU discretamente reduziu suas previsões globais de população. A estimativa mais recente aponta o pico em apenas 10,3 bilhões, e isso ocorre quase duas décadas antes, por volta de 2084.

Isso ainda pode parecer um número grande. Mas é uma mudança brusca em relação às suposições de “crescimento sem fim” que muitos formuladores de políticas, investidores e instituições ainda usam para orientar suas decisões. A verdadeira questão não é apenas que a ONU está prevendo menos pessoas. É que muitos demógrafos acreditam que até esses números ainda são altos demais.

Colapso da Fertilidade

A mudança nas projeções não está acontecendo porque as pessoas estão morrendo mais rápido. Na verdade, a expectativa de vida continua aumentando, ainda que modestamente, na maior parte do mundo. A grande mudança é que as pessoas estão tendo menos filhos — muito menos.

Por volta de 1970, a taxa global de fertilidade (o número médio de filhos que uma mulher tem ao longo da vida) era de cerca de cinco filhos por mulher. Hoje, caiu para 2,25 — e continua caindo. Em quase 70% dos países do mundo, as taxas de fertilidade já estão abaixo da chamada “taxa de reposição” — o nível necessário para manter uma população estável. Em países desenvolvidos, esse número costuma ser fixado em cerca de 2,1 filhos por mulher. Em países com mortalidade mais alta, é um pouco maior.

Esse declínio global da fertilidade aconteceu mais rápido do que a maioria dos especialistas esperava. E é por isso que a ONU revisou seus modelos duas vezes apenas nos últimos cinco anos. Mas nem todos acham que a ONU foi longe o suficiente.

Ao longo da última década, várias equipes independentes de pesquisadores desenvolveram projeções populacionais alternativas. A maioria delas indica que a fertilidade cairá mais rapidamente do que a ONU está prevendo. Uma equipe do Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde (IHME) da Universidade de Washington, por exemplo, ganhou grande atenção em 2020 ao projetar que a população global atingiria o pico por volta de 2064, com pouco mais de 9 bilhões, e cairia para cerca de 8,8 bilhões até 2100.

Wolfgang Lutz, um dos demógrafos mais respeitados do mundo, também publicou projeções mostrando um pico populacional mais baixo e mais cedo. O grupo de Lutz, no Centro Wittgenstein para Demografia e Capital Humano Global, baseia seus modelos em tendências de educação e urbanização, que estão intimamente ligadas ao comportamento reprodutivo. Em uma análise de 2024 de pesquisas envolvendo mais de um milhão de mulheres na África Subsaariana, Lutz e seus coautores concluíram que as taxas de fertilidade na região estão caindo mais rápido do que o esperado, especialmente à medida que a educação feminina melhora.

Em seu livro de 2019, Empty Planet, os jornalistas canadenses Darrell Bricker e John Ibbitson resumiram os argumentos a favor das projeções mais baixas. Embora não sejam demógrafos acadêmicos, eles conduziram entrevistas e grupos focais extensivos em cerca de uma dúzia de países, perguntando às mulheres sobre suas visões em relação à família e à maternidade. Eles concluíram que o colapso da fertilidade é tanto cultural quanto econômico — e que os fatores culturais farão as taxas de fertilidade caírem ainda mais e mais rapidamente do que no passado.

“Prever é difícil — especialmente sobre o futuro.”

Quem disse isso foi o famoso filósofo americano Yogi Berra. Por isso, todos os modelos utilizam variações probabilísticas que incorporam uma ampla gama de futuros possíveis. Por exemplo, enquanto a projeção mediana da ONU prevê um pico de 10,3 bilhões em 2084, o modelo também inclui um cenário de baixa fertilidade, no qual a população atinge o pico por volta de 2060, com 9,5 bilhões, e entra em declínio a partir daí. Esse caminho mais baixo se alinha mais de perto com as projeções acadêmicas.

Tudo gira em torno da África

A taxa de fertilidade já caiu para o nível de reposição ou abaixo dele em países que abrigam quase três quartos da população mundial. Em outros 15%, a taxa está apenas um pouco acima do nível de reposição — e caindo rapidamente.

No entanto, há cerca de duas dúzias de países na África Subsaariana e em partes do Sudoeste Asiático onde a taxa ainda é muito alta. Embora esses países representem apenas cerca de 11% da população mundial, eles serão responsáveis por praticamente todo o crescimento populacional que ocorrer entre agora e o momento em que a população atingir seu pico. Os fatores em comum entre os países que mantêm altas taxas de natalidade incluem uma combinação de fundamentalismo religioso (particularmente o islamismo fundamentalista), pouco envolvimento internacional e capacidade estatal limitada.

Ainda assim, a taxa de natalidade está caindo nesses países — embora em diferentes níveis. A maior parte do debate sobre o rumo da população global no futuro se resume à velocidade e à intensidade com que esses países seguirão o mesmo declínio de fertilidade observado no restante do mundo nos últimos 50 anos.

Por que isso importa

As projeções populacionais nas quais confiamos moldam desde o planejamento urbano até o financiamento de aposentadorias. Elas influenciam políticas de imigração, construção de escolas, recrutamento militar e projeções de crescimento econômico de longo prazo. Se essas projeções estiverem erradas por um bilhão de pessoas ou por duas décadas, isso não é apenas um detalhe estatístico — é uma mudança sísmica na matemática fundamental do futuro.

Contudo, a maioria das instituições continua operando no piloto automático, partindo do princípio de que o crescimento populacional — com mais trabalhadores, consumidores e contribuintes — é a ordem natural que continuará indefinidamente. Mas os dados indicam claramente que essa era está chegando rapidamente ao fim. E, em alguns lugares, ela já terminou. Nos últimos três anos, a China tem registrado queda em sua população. O que vem a seguir — e como reagimos a isso — é uma das histórias mais cruciais e menos compreendidas do nosso tempo.

Fonte: RealClearWire

 

As opiniões expressas neste artigo são as opiniões do autor e não refletem necessariamente as opiniões do Epoch Times