Menos carros, mais tanques: a nova indústria alemã

Por Pacelli Luckwü
20/03/2025 18:26 Atualizado: 20/03/2025 18:26

A economia alemã, tradicionalmente sustentada por um setor automotivo robusto, vive um período de transformações. Enquanto a indústria automobilística enfrenta desafios estruturais que resultam em fechamento de fábricas e demissões, o ambiente geopolítico global – marcado pela guerra na Ucrânia e pela percepção de que os Estados Unidos não são mais o protetor inquestionável da Europa – impulsiona os países europeus a reavaliarem seus investimentos em defesa. Nesse cenário, a Rheinmetall desponta como protagonista, convertendo ativos industriais subutilizados em novas centrais de produção para equipamentos militares.

A crise da indústria automotiva alemã

A indústria automotiva alemã enfrenta grandes desafios, com anúncios de fechamentos de fábricas e demissões. Segundo já divulgados em outubro de 2024, a Volkswagen planeja fechar pelo menos três de suas dez fábricas na Alemanha e demitir milhares de funcionários. Além disso, a empresa pretende cortar mais de 35.000 postos de trabalho no país até 2030, buscando reduzir custos e evitar novos fechamentos. A Audi também divulgou recentemente a demissão de 7500 funcionários até 2029 só na Alemanha.

Não apenas grandes montadoras sofrem com essa crise. O fornecedor automotivo Schaeffler anunciou a eliminação de 4.700 empregos na Europa e o fechamento de duas unidades, consequência da crescente concorrência global e da transformação estrutural do setor. De forma similar, a Bosch também planeja cortar até 5.550 postos de trabalho, evidenciando as dificuldades que assolam toda a cadeia produtiva do outrora lucrativo setor.

A crise é tão profunda que já se fala na perda de até 186.000 empregos até 2035, de acordo com um estudo divulgado pela Reuters. Essa projeção é atribuída à diminuição da competitividade do setor, aos altos custos de eletricidade, ao aumento das taxas de impostos e ao fortalecimento das regulamentações ambientais e industriais. Em meio a essa conjuntura, a transição para veículos elétricos e a crescente concorrência internacional adicionam camadas de complexidade aos desafios enfrentados pelo setor.

A estratégia da Rheinmetall: redirecionamento e crescimento

Enquanto a indústria automotiva luta para se adaptar às novas realidades de mercado, a Rheinmetall, uma das maiores fabricantes de equipamentos de defesa da Europa, vem se destacando com uma estratégia de expansão e adaptação. Em 2024, a empresa registrou vendas consolidadas de €9,75 bilhões – um aumento de 36% em relação ao ano anterior – com seu segmento de defesa crescendo 50% no mesmo período. O lucro operacional atingiu €1,478 bilhão e a carteira de pedidos chegou a €55 bilhões, representando um crescimento de 44% em comparação com 2023.

Em termos de valor de mercado, a transformação é ainda mais reveladora: a Rheinmetall alcançou aproximadamente €56,2 bilhões, superando a Volkswagen, que registrou €54,7 bilhões. Essa virada se deve, em grande parte, ao ambiente de rearmamento que se instala na Europa, onde o aumento dos gastos com defesa – impulsionado por tensões geopolíticas e por um cenário internacional volátil – favorece empresas do setor.

Uma das iniciativas mais emblemáticas dessa transformação é a possível conversão de fábricas automotivas para a produção de equipamentos militares. A manchete da Newsweek, “German Defense Giant Rheinmetall May Take Over VW Factory to Make Tanks” (A Gigante de Defesa Alemã pode assumir fábrica da Volkswagen para produzir tanques de guerra), exemplifica essa nova tendência. Segundo a reportagem, a fábrica de Osnabrück, que pertence à Volkswagen, é vista como uma opção estratégica para a Rheinmetall expandir sua capacidade de produção militar. O CEO da Rheinmetall, Armin Papperger, afirmou que essa instalação seria “muito adequada” para a produção de defesa, especialmente se a empresa obtiver pedidos robustos – como os relacionados aos veículos de combate.

O rearmamento europeu e os desafios geopolíticos

A transformação industrial na Alemanha ocorre em um contexto geopolítico marcado por incertezas e mudanças na ordem mundial. A guerra na Ucrânia, que se intensificou após a invasão russa em 2022, expôs vulnerabilidades na segurança europeia e gerou uma reavaliação das políticas de defesa em todo o continente. Historicamente, a Europa dependia fortemente dos Estados Unidos para sua segurança. Contudo, a percepção de que esse protetor não é mais incondicional tem levado os países europeus a aumentarem seus gastos com defesa.

Pressionados pelos Estados Unidos, os países do Velho Continente estão redefinindo suas prioridades estratégicas. Projeções recentes sugerem que os gastos com defesa na Europa podem chegar a representar cerca de 3% do PIB, um salto expressivo em relação aos níveis historicamente baixos das últimas décadas após a queda do Muro de Berlim. Esse redirecionamento de investimentos favorece empresas do setor militar, como a Rheinmetall, que se posicionam para atender a uma demanda crescente por equipamentos e tecnologias de defesa.

A conversão de fábricas automotivas – antes símbolo do poder industrial alemão – em centros de produção militar é um dos reflexos mais visíveis dessa mudança. Além de aproveitar ativos subutilizados, essa estratégia permite que o país mantenha sua expertise industrial, agora aplicada a um setor que promete ser vital para a segurança nacional e coletiva. Em meio a esse cenário, o contraste entre o desempenho financeiro de empresas tradicionais do setor automotivo e a ascensão de empresas de defesa se torna cada vez mais evidente.

No entanto, essa transição para a indústria de defesa pode ser apenas uma solução temporária para o problema da desindustrialização, e não uma verdadeira salvação para a economia alemã. O crescimento acelerado da Rheinmetall e de outras empresas do setor ocorre exclusivamente devido ao contexto da guerra na Ucrânia e ao afastamento progressivo dos Estados Unidos como garantidores da segurança europeia. Os problemas estruturais que minam a competitividade industrial da Alemanha – como os altos custos de energia, a regulamentação ambiental rígida, a burocracia e os impostos elevados – permanecem sem solução. Se a guerra na Ucrânia terminar ou a Europa entrar em um período de maior estabilidade geopolítica, a demanda por equipamentos militares pode cair drasticamente, deixando a Alemanha sem um setor automotivo robusto e sem um mercado de defesa capaz de sustentar os ganhos recentes. Assim, a euforia momentânea pode mascarar desafios mais profundos e duradouros para a indústria alemã.

Conclusão

A crise da indústria automotiva alemã e o crescente movimento de rearmamento europeu estão interligados por um cenário de profundas transformações econômicas e geopolíticas. Enquanto a Volkswagen, Schaeffler, Bosch e Audi anunciam cortes e fechamentos – com a Volkswagen planejando fechar três de suas dez fábricas e eliminar mais de 35.000 empregos até 2030, Schaeffler eliminando 4.700 empregos, e a Bosch cortando até 5.550 postos –, a Rheinmetall aproveita o momento para redirecionar ativos industriais e se posicionar no mercado de defesa.

Essa reorientação é estimulada pelo ambiente geopolítico atual, onde a guerra na Ucrânia e a percepção de um cenário de segurança menos dependente dos Estados Unidos impulsionam os países europeus a aumentar seus investimentos em defesa.

O futuro desse processo de transformação depende de uma série de fatores, entre os quais se destacam a capacidade de adaptação das empresas, o apoio governamental e a implementação de políticas de reconversão industrial que minimizem os impactos sociais negativos. A transição exige um equilíbrio delicado entre modernização econômica e proteção dos trabalhadores, de modo que a reinvenção industrial não se traduza apenas em ganhos para o setor de defesa, mas também em oportunidades para revitalizar regiões afetadas pelo declínio do setor automotivo.

A reinvenção industrial, portanto, não é apenas uma resposta a desafios econômicos imediatos, mas um movimento que pode redefinir o futuro da economia alemã e, por extensão, o equilíbrio de poder na Europa. Enquanto as negociações para a conversão de fábricas como a de Osnabrück continuam, o mercado e a sociedade acompanham com atenção os desdobramentos dessa transformação – que promete ser um dos marcos de uma nova era industrial e geopolítica no continente europeu.

As opiniões expressas neste artigo são as opiniões do autor e não refletem necessariamente as opiniões do Epoch Times