As eleições alemãs de 2025 foram as mais importantes das últimas décadas. O pleito, que teve a maior taxa de participação desde a Reunificação, revelou um eleitorado profundamente dividido. A União Democrata-Cristã (CDU) emergiu como o maior partido, mas seu desempenho foi um dos piores de sua história. O partido Alternativa para a Alemanha (AfD) consolidou-se como a segunda maior força política, enquanto os sociais-democratas do SPD de Scholz sofreram um declínio histórico.
Resultados finais e análise
Os números finais da eleição revelam um novo equilíbrio de forças na Alemanha:
- CDU: 28,5%
- AfD: 20,8%
- SPD: 16,4%
- Verdes: 11,6%
- Linke: 8,7%
- FDP: 4,3%
O CDU, liderada por Friedrich Merz, conseguiu recuperar terreno, mas seu resultado ainda é considerado fraco para um partido que costumava contar com os votos de cerca de 40% do eleitorado. O SPD, por sua vez, colheu os frutos negativos da impopularidade do governo Scholz, registrando o pior desempenhos na sua centenária história. O AfD consolidou sua posição e expandiu sua base eleitoral, em especial no Leste alemão. O FDP, que já vinha enfraquecido, ficou abaixo da barreira dos 5%, o que impediu sua entrada no parlamento.
O retorno da CDU e os desafios da coalizão
Apesar da vitória, o CDU enfrenta desafios para formar um governo. O partido de Merz precisa de um parceiro para garantir maioria no Bundestag, e a solução mais viável é uma aliança com o SPD, que, apesar do mau desempenho, segue como terceira maior força. Essa possível “grande coalizão” levanta questionamentos.
Em temas centrais como economia e imigração, CDU e SPD têm posições divergentes. O CDU defende uma flexibilização do mercado de trabalho e cortes em regulações ambientais para impulsionar a indústria, enquanto o SPD é avesso a mudanças que possam afetar direitos trabalhistas. Na questão migratória, o CDU quer endurecer as regras de asilo, enquanto o SPD se mantém mais aberto à imigração. Essas diferenças podem dificultar a governabilidade.
O crescimento do AfD e sua exclusão do governo
O grande avanço do AfD é um dos aspectos mais relevantes dessas eleições. O partido populista de direita dobrou sua votação em relação a 2021, tornando-se a segunda maior força política do país. No entanto, segue isolado devido ao Brandmauer, um acordo entre os partidos tradicionais que o afasta de qualquer trabalho em conjunto.
O AfD consolidou sua força principalmente no Leste alemão, onde recebeu 34% dos votos, superando amplamente a CDU (17,8%). No Oeste, por outro lado, a CDU foi o partido mais votado, com 30,8%, enquanto o AfD ficou com 17,7%. Essa divisão geográfica reforça um contraste histórico entre as regiões.
Polarização geracional: jovens x aposentados
A eleição também revelou uma polarização etária. Entre os eleitores mais jovens (menores de 25 anos), os partidos que mais cresceram foram o AfD e o Linke, muito presentes no TikTok, mostrando um afastamento dos partidos tradicionais. O CDU, por outro lado, teve melhor desempenho entre eleitores acima de 60 anos e aposentados em geral. Essa fragmentação geracional reflete mudanças na preferência política do país.
O voto LGBT no AfD: uma surpresa eleitoral
Um dos dados mais inesperados foi a forte adesão da comunidade LGBT ao AfD. Caso apenas esse grupo votasse, o partido teria sido o mais votado, com 27,9%; seguido pelos Verdes com 19,9%. Essa tendência surpreende, visto que o AfD é tratado pela imprensa tradicional como de “extrema-direita” e contrário ao direito das minorias. A principal razão apontada para esse fenômeno recente é o temor desta comunidade diante da intolerância por parte dos imigrantes muçulmanos, uma pauta muito abordada pelo AfD.
Impacto internacional: o que muda para a Europa?
O resultado das eleições na Alemanha terá repercussão na União Europeia. Com um governo CDU-SPD, é esperado um retorno a uma linha mais pragmática na economia e um possível endurecimento – ainda que mais tímido do que a população gostaria por conta do SPD – das regras migratórias.
Em relação à guerra na Ucrânia, a CDU deve manter o apoio ao governo de Volodymyr Zelensky, mas ainda com possíveis restrições quanto ao envio de armamentos mais pesados. O SPD, que já vinha hesitante nesse tema, pode reforçar essa posição.
O presidente americano, Donald Trump, mostrou-se satisfeito com o resultado do pleito, chegando a dizer que a população alemã deveria estar cansada dessa agenda sem senso comum, principalmente nas questões de imigração e de energia. Ele terminou sua mensagem no “X” dizendo que muitas vitórias ainda virão.
Uma Alemanha fragmentada e em transição
A eleição de 2025 mostrou um país em transição. A CDU venceu, mas com um desempenho modesto, o AfD cresceu e se consolidou, o SPD foi duramente punido, os Verdes saíram enfraquecidos e o FDP perdeu relevância. Mais do que uma simples troca de governo, o resultado reflete uma Alemanha dividida entre o Leste e o Oeste, entre jovens se voltando para os extremos e idosos defendendo o status quo.
O desafio agora é garantir estabilidade política. Se o CDU conseguir impor sua agenda dentro da coalizão, poderá pavimentar um caminho para um governo forte que implemente as reformas necessárias para o país e dará um novo fôlego ao centro político. Caso contrário, a Alemanha pode entrar em um período de paralisia, com impacto direto sobre a economia e perder relevância no cenário internacional. Além disso, fracassos em um novo governo pode servir de combustível para que o país se polarize ainda mais. Os próximos meses serão decisivos para entender se a nova coalizão terá força para governar ou se o país continuará sua jornada de fragmentação política.
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