Desde a ascensão de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, o cenário político global foi marcado por uma guinada significativa: “America First” e “Make America Great Again” se tornaram lemas que influenciaram políticas nacionais e internacionais, redefinindo prioridades em termos de imigração, desburocratização, redução de impostos e competitividade econômica. Sob sua liderança, os EUA endureceram contra a imigração ilegal, flexibilizaram regulações e promoveram uma agenda voltada para fortalecer sua posição econômica e industrial no mundo.
Enquanto isso, a Europa, com suas antigas prioridades de ambientalismo rigoroso, políticas de fronteiras abertas e regulamentação extensiva, começou a sentir o peso de um novo contexto global, no qual sua relevância parecia estar em risco. Sob pressão de crises econômicas, tensões geopolíticas e uma competição acirrada com os Estados Unidos e a China, o continente enfrenta um momento de inflexão. A recente guinada política da Comissão Europeia na direção de mais competitividade e menos regulações verdes, junto à retórica mais dura de líderes como Friedrich Merz na Alemanha, evidencia uma Europa que busca se reposicionar no cenário mundial, abandonando, ao menos em parte, as estratégias que a caracterizaram na última década.
A mudança de prioridades: do Green Deal à competitividade econômica
A Comissão Europeia, sob a liderança de Ursula von der Leyen, está passando por uma transformação significativa em sua agenda política. Durante seu primeiro mandato, o foco esteve centrado no Green Deal, um ambicioso plano ambiental que visava posicionar a Europa como líder global na luta contra as mudanças climáticas. Com a aprovação de cerca de 70 leis ambientais, o Green Deal buscava transformar o continente em uma economia neutra em carbono até 2050. No entanto, o novo programa “Kompass für Wettbewerbsfähigkeit” (Bússola para a Competitividade), que deve guiar a segunda gestão de Von der Leyen, sinaliza uma mudança de rumo, priorizando o fortalecimento da economia e da competitividade europeia em detrimento de políticas ambientais mais rigorosas.
Simplificação burocrática e estímulo à inovação
Um dos pilares centrais do novo programa é a simplificação burocrática, vista como essencial para impulsionar a competitividade das empresas europeias. O plano prevê uma redução de 25% nas exigências regulatórias para empresas em geral e de 35% para pequenas e médias empresas (PMEs), além de agilizar processos de autorização, especialmente em setores estratégicos como indústrias e química. A ideia é tornar os fundos europeus mais acessíveis e reduzir os entraves que, segundo críticos, têm dificultado o crescimento econômico e a inovação no continente.
Além disso, a Comissão Europeia está adotando uma abordagem de “neutralidade tecnológica”, o que significa maior apoio a tecnologias como inteligência artificial, biotecnologia, robótica e energia nuclear, sem priorizar exclusivamente fontes renováveis. Essa mudança reflete uma tentativa de equilibrar as metas ambientais com a necessidade de fortalecer a base industrial e tecnológica da Europa.
Respostas aos desafios globais
A nova estratégia também é uma resposta direta aos desafios impostos pela competição global, especialmente dos Estados Unidos e da China. Com o avanço acelerado dessas potências em áreas como tecnologias verdes e mercados globais, a UE busca adotar medidas de proteção econômica, como a “preferência europeia” em contratos públicos para setores estratégicos. Além disso, a Comissão planeja promover acordos de livre comércio com países como Austrália, Índia e Indonésia, visando expandir a influência econômica europeia e reduzir a dependência das economias da China e dos EUA.
A independência energética também ganha destaque no novo programa. A UE pretende reduzir sua dependência do gás russo, que ainda representa uma parcela significativa das importações europeias, e buscar alternativas locais e globais. Essa medida não apenas fortalece a segurança energética do continente, mas também se alinha aos objetivos de competitividade e autossuficiência.
Críticas ao Green Deal e o equilíbrio entre economia e meio ambiente
A “Bússola para a Competitividade” reflete uma percepção crescente de que as políticas ambientais do Green Deal foram excessivamente rígidas e acabaram por prejudicar a competitividade europeia. Para se ter uma ideia, os empresários europeus consideram a burocracia e o excesso de regulamentação os maiores entraves aos negócios.
O novo programa busca um equilíbrio entre a preservação ambiental e a viabilidade econômica, reconhecendo que, sem uma base industrial forte e uma economia dinâmica, será difícil alcançar os objetivos climáticos de longo prazo.
Essa mudança de foco não está isenta de críticas. Ambientalistas argumentam que a redução da ênfase no combate às mudanças climáticas pode comprometer os avanços já alcançados e minar a liderança global da Europa nessa área. No entanto, a Comissão Europeia defende que a nova estratégia é necessária para garantir que a UE possa competir em um cenário global cada vez mais desafiador.
Uma nova filosofia: “Economia Primeiro” e “Europa Primeiro”
O lema implícito da “Bússola para a Competitividade” parece ser “Economia primeiro” e “Europa primeiro”, refletindo uma priorização clara do crescimento econômico e da posição estratégica da UE no mundo. Essa nova filosofia marca uma guinada em relação ao idealismo ambiental do Green Deal, substituindo-o por um pragmatismo que busca alinhar as metas climáticas com as necessidades imediatas de recuperação econômica e competitividade global.
Essa mudança de orientação estratégica evidencia o esforço da UE para se reposicionar diante das pressões econômicas, industriais e geopolíticas do século XXI. Ao mesmo tempo, coloca em evidência o delicado equilíbrio que a Comissão Europeia terá de manter entre seus compromissos climáticos e a necessidade de garantir um futuro próspero e competitivo para o continente.
Da competitividade à segurança: a imigração e o debate sobre as fronteiras alemãs
Enquanto a Comissão Europeia busca reposicionar a UE no cenário global com o “Bússola para a Competitividade”, outro tema crucial vem ganhando destaque no debate político europeu: a questão da imigração e da segurança interna. Na Alemanha, esse debate ganhou urgência após uma série de atentados violentos, como o mais recente,ocorrido em Aschaffenburg, onde um menino de 2 anos e um adulto de 41 anos, que tentou protegê-lo, foram mortos, além de outros episódios em Magdeburg, Solingen e diversas localidades. Esses incidentes, muitas vezes envolvendo imigrantes do mundo muçulmano — alguns já conhecidos pelas autoridades e até sem direito legal de permanecer no país —, reacenderam o debate sobre o controle de fronteiras e a política de imigração.
A proposta de Merz: fronteiras fechadas e deportações em massa
Diante desse cenário, o líder da União Democrata-Cristã (CDU), Friedrich Merz, apresentou uma proposta dura e controversa para reforçar o controle migratório na Alemanha. O plano inclui:
Controle permanente das fronteiras alemãs com a negação de entrada a qualquer indivíduo sem documentos válidos, independentemente de estar ou não em busca de asilo.
Detenção imediata de pessoas com ordens de deportação já emitidas.
Aumento substancial no número de deportações, com mais poderes para a polícia federal alemã deter, prender e deportar imigrantes irregulares.
A proposta de Merz reflete uma resposta direta às preocupações da população alemã com a segurança e a integridade das fronteiras nacionais. No entanto, ela também enfrenta resistência, especialmente do Partido Social-Democrata (SPD) e dos Verdes, que argumentam que algumas medidas podem violar as leis europeias e os direitos humanos. Além disso, juristas alertam para possíveis inconstitucionalidades no texto.
O Dilema Político: o papel do AfD e a estratégia de Merz
Um dos maiores desafios para a aprovação da proposta é o cenário político fragmentado na Alemanha. Embora muitos pontos possam ser aprovados com uma minoria simples no parlamento, o CDU enfrenta o risco de depender dos votos do Alternativa para a Alemanha (AfD), partido considerado de extrema-direita que tem sido associado a discursos anti-imigração e teorias da conspiração. Para evitar essa associação indesejada, Merz incluiu no texto da proposta uma condenação explícita ao AfD, descrevendo-o como um partido que “se utiliza dos problemas, das preocupações e dos medos que surgem da imigração em massa para promover teorias da conspiração e o ódio aos estrangeiros”.
Com essa jogada, Merz tentou “matar dois coelhos com uma cajadada”: primeiro, reforçar o chamado “Brandmauer” (muralha de fogo) — a barreira política e moral que separa partidos tradicionais do AfD —, e segundo, direcionar as críticas para os partidos que o acusaram de estar disposto a negociar com a extrema-direita. A estratégia parece ter ressonância popular: cerca de 66% dos alemães apoiam a proposta, segundo pesquisas recentes.
O Preço Político: AfD em ascensão, CDU em queda
Apesar do apoio popular, a proposta de Merz não impediu que o AfD ganhasse um ponto percentual nas últimas pesquisas, enquanto a CDU perdeu um. Esse movimento sugere que, embora a população alemã esteja preocupada com a imigração e a segurança, a estratégia de Merz pode não ser suficiente para conter o avanço do AfD. O AfD, por sua vez, continua a capitalizar o descontentamento popular, posicionando-se como a única força política disposta a adotar medidas duras e imediatas.
O Equilíbrio Frágil entre Segurança e Direitos
O debate sobre a proposta de Merz ilustra o dilema central que a Alemanha — e, por extensão, a Europa — enfrenta: como equilibrar a necessidade de segurança interna e controle migratório com o respeito aos direitos humanos e às leis europeias. Enquanto a Comissão Europeia busca fortalecer a competitividade econômica, os Estados-membros lidam com questões internas que, se não forem resolvidas, podem minar a coesão e a estabilidade do bloco.
A proposta de Merz, portanto, não é apenas uma resposta aos atentados recentes, mas também um reflexo das tensões políticas e sociais que permeiam a Alemanha e a Europa em um momento de incertezas, principalmente com a proximidade das eleições federais alemãs, marcadas para 23 de fevereiro.
Conclusão: um mundo em transformação e os desafios da Europa
A ascensão de Donald Trump e sua política de “America First” marcaram o início de uma nova era na geopolítica global, na qual o nacionalismo e a competição econômica passaram a ditar as regras do jogo. Esse cenário pressionou a Europa a repensar seu papel no mundo, levando a Comissão Europeia, sob Ursula von der Leyen, a abandonar parcialmente o ambicioso Green Deal em favor do “Kompass für die Wettbewerbsfähigkeit”, um plano que prioriza a competitividade econômica e a simplificação burocrática. No entanto, enquanto a UE busca se reposicionar no tabuleiro global, desafios internos — como a crise migratória e a crise de representatividade dos partidos tradicionais — ameaçam minar sua coesão.
Na Alemanha, a proposta de Friedrich Merz para reforçar o controle de fronteiras e aumentar as deportações reflete essa tensão entre segurança e as políticas de tolerância de outrora. Ao mesmo tempo, sua estratégia de condenar o AfD tenta preservar a barreira contra a direita populista, mas não impede o crescimento do partido nas pesquisas.
Neste momento de transformação global, a Europa se vê forçada a adotar estratégias que, até recentemente, eram impensáveis dentro dos parâmetros políticos e econômicos do continente. Inspiradas em algumas das políticas implementadas por Donald Trump, essas medidas visam garantir a competitividade da região em um cenário global cada vez mais competitivo e fragmentado.
Tais ações, que vão contra a agenda que dominou as últimas décadas na Europa, sinalizam uma mudança de paradigma, na qual a necessidade de afirmar a relevância da Europa no palco internacional supera os compromissos anteriores com os princípios de uma política multilateral, ambientalista e voltada para a integração. A grande questão que se coloca agora é: até que ponto a Europa está disposta a sacrificar as pautas paralisantes das últimas décadas para se modernizar e manter sua relevância entre as potências globais em um mundo em constante mutação?
As opiniões expressas neste artigo são as opiniões do autor e não refletem necessariamente as opiniões do Epoch Times



