Análise de notícias
A Alemanha inicia um novo, mas velho, ciclo político com a formação de uma coalizão entre CDU, CSU e SPD. O acordo, firmado entre três partidos de centro, promete uma ampla agenda de reformas econômicas, sociais e institucionais — mas também já levanta controvérsias, inclusive dentro da base aliada. Ao mesmo tempo em que o governo tenta dar sinais de renovação, firmeza e responsabilidade, o futuro chanceler Friedrich Merz, do CDU, é criticado por recuos significativos em promessas feitas durante a campanha eleitoral.
O documento que norteia o novo governo é extenso e ambicioso. Em mais de 140 páginas, detalha propostas que vão desde investimentos maciços em inovação e descarbonização da indústria até mudanças sensíveis em políticas sociais como o Bürgergeld — espécie de renda básica alemã — e as regras de imigração.
Divisão ministerial e nova correlação de forças
Dos 17 ministérios, o CDU e o SPD controlam sete cada, e o CSU fica com os três restantes. A nova distribuição reflete o equilíbrio delicado de forças, com a CDU assumindo a liderança do governo sob Merz, enquanto busca manter a coesão interna diante das concessões feitas para garantir a aliança com os social-democratas.
Economia: inovação, fundo público-privado e digitalização
Um dos pilares do acordo é o crescimento econômico. A meta é ambiciosa: elevar o crescimento potencial do país para mais de 1% ao ano. Para isso, será criado o “Fundo Especial”, com 500 bilhões de euros em capital mobilizado para investimentos públicos e recursos privados, com foco em inovação, infraestrutura e startups.
A coalizão também se compromete a cortar impostos e reduzir custos energéticos, medidas que favorecem diretamente a competitividade industrial. Além disso, o Estado será digitalizado — desde o registro de empresas até a prestação de serviços públicos. Abrir uma empresa não deverá demorar mais do que 24 horas.
Indústria e energia: descarbonização e hidrogênio como motores
A Alemanha quer manter sua força como potência industrial, ao mesmo tempo em que avança para a neutralidade climática. O acordo prevê o uso intensivo de tecnologias de captura e armazenamento de carbono (CCS), o fortalecimento da economia do hidrogênio e o incentivo ao uso de veículos elétricos e híbridos, incluindo subsídios e isenções fiscais.
Aqui, surgem as primeiras críticas. O partido populista de direita, o AfD, aponta que o plano energético da coalizão “parece escrito pelos Verdes”, que, na eleição, perderam votos e terminaram em quarto lugar. A crítica recai principalmente sobre Merz, que, durante a campanha, foi implacável contra a “agenda verde”, mas agora assume compromissos relevantes com energias renováveis.
Reforma do Bürgergeld e endurecimento de sanções
Na área social, a mudança mais significativa é a transformação do Bürgergeld. O benefício, que substituiu o antigo Hartz IV, será reformulado com base no princípio do “Fördern und Fordern” (incentivar e exigir). As regras de condicionalidade serão endurecidas. Haverá sanções mais rápidas e, em casos de recusa reiterada de trabalho, pode haver até a suspensão total do benefício.
Serviço militar e imigração: contenção e controle
O governo pretende lançar um novo modelo de serviço militar voluntário, voltado principalmente para jovens, como forma de fortalecer a coesão cívica e a prontidão defensiva da Alemanha.
Na área migratória, a coalizão promete a defesa de fronteiras e propõe reduzir a imigração ilegal “em cooperação com a União Europeia”. A oposição acusa Merz de recuar: nas eleições, ele afirmava que a imigração irregular deveria “parar imediatamente”. Agora, o documento da coalizão fala em “reduzir gradualmente”.
Também houve ajuste na política de naturalização. A proposta de conceder cidadania em três anos para estrangeiros bem integrados foi descartada. A nova regra estabelece cinco anos como prazo mínimo — redução em relação aos atuais oito, mas aquém das expectativas mais progressistas.
Para atrair profissionais qualificados, será criada a agência digital Work-and-Stay-Agentur, que funcionará como um balcão único para reconhecimento de diplomas, vistos e integração ao mercado de trabalho.
Habitação, infraestrutura e meio ambiente
Encontrar uma moradia nos grandes centros alemães é um trabalho árduo que pode durar meses, tamanha a escassez de imóveis. Comprar um, então, tornou-se coisa de rico.
O governo quer acelerar o licenciamento de obras e reformar o código de construção. A meta é tornar a moradia mais acessível, tanto no aluguel quanto na compra, com incentivo à construção modular e sustentável.
Política externa: Europa, Ucrânia e comércio global
A coalizão reforça seu alinhamento com a União Europeia e a OTAN, destaca o apoio à Ucrânia e defende a ordem internacional baseada em regras. No comércio exterior, há o compromisso de concluir acordos com Mercosul, México e Chile, além de retomar conversas com os Estados Unidos para um tratado comercial.
Críticas a Merz: pragmatismo ou incoerência?
Merz, que conduziu uma campanha marcada por um tom duro contra imigração, dívidas e ambientalismo, enfrenta críticas por mudança radical de rumo. Durante os debates, prometeu rigidez com o freio constitucional da dívida — mas autorizou, logo de início, um aumento significativo do endividamento público para se financiar.
O futuro chanceler argumenta que as medidas são necessárias para “salvar a economia da estagnação”, mas enfrenta resistência tanto à direita quanto dentro da CDU, onde vozes já falam em “desvio ideológico”.
A nova coalizão alemã inicia sua jornada com um plano ambicioso, que tenta combinar reformas econômicas liberais, tão desejadas pelos agentes econômicos, com fortes compromissos sociais e ambientais. Mas o desafio será manter a coesão política entre os dois partidos que divergem em pontos-chave — e justificar à sociedade as mudanças de rumo de seu principal líder. Friedrich Merz terá que equilibrar pragmatismo e fidelidade a seu eleitorado, sob o risco de perder apoio tanto no Bundestag quanto no eleitorado a ponto de ser definitivamente ultrapassado pelo AfD. E as últimas pesquisas mostram exatamente o CDU ficando atrás do AfD.
As opiniões expressas neste artigo são as opiniões do autor e não refletem necessariamente as opiniões do Epoch Times



