Restrições chinesas às terras raras ameaçam defesa e economia da Europa, dizem especialistas

O domínio de Pequim no processamento de terras raras e na produção de ímãs deixa a Europa vulnerável a interrupções no fornecimento em indústrias importantes.

Por Jarvis Lim
21/10/2025 12:45 Atualizado: 21/10/2025 12:45
Matéria traduzida e adaptada do inglês, publicada pela matriz americana do Epoch Times. 

As últimas restrições à exportação de terras raras da China podem afetar bastante os setores de defesa e economia da Europa, alertam os especialistas, com pedidos cada vez maiores por uma cooperação concreta entre a UE e os EUA para enfrentar o controle de Pequim sobre esses minerais importantes.

O chefe da indústria da UE, Stephane Sejourne, se reuniu com empresas europeias afetadas em 20 de outubro para discutir as restrições de Pequim às terras raras, segundo a AFP. A reunião virtual contou com executivos dos setores automotivo, de defesa, energia eólica, químico e de mineração.

Pequim apertou seus controles de exportação de minerais de terras raras em 9 de outubro, exigindo licenças para produtos que excedam um limite de 0,1% de conteúdo.

As novas regras se aplicam a empresas estrangeiras que usam matérias-primas de origem chinesa ou tecnologia chinesa para extração, refino, fabricação de ímãs ou reciclagem, com a maioria das restrições entrando em vigor em 1º de dezembro.

Indústria de defesa europeia em risco

Alicia García Herrero, economista-chefe para a Ásia-Pacífico da Natixis Research, alertou que as restrições exploram a forte dependência da Europa em relação à China.

Ela disse que “a China está basicamente transformando suas relações com a Europa em uma arma”, o que é uma medida que pode afetar fortemente algumas empresas europeias de defesa.

“As cinco novas restrições agora incluídas são ainda mais abrangentes, especialmente para armas de precisão. Isso é importante para a Europa agora, porque a Europa está começando a fabricar sua própria munição de precisão, e isso afeta diretamente o plano de defesa europeu”, disse Herrero ao Epoch Times.

De acordo com o Ministério do Comércio da China (MOFCOM, na sigla em inglês), os cinco elementos de terras raras adicionais são hólmio, érbio, túlio, európio e itérbio, elevando o número total de elementos de terras raras controlados para 12.

Ecoando a opinião de Herrero, Nabeel Mancheri, consultor sênior da EIT RawMaterials, disse que a Europa provavelmente terá que lidar com o impacto imediato na produção de componentes críticos de defesa, como semicondutores e chips, já que o continente carece de fontes alternativas de terras raras refinadas. A EIT RawMaterials é uma organização financiada pela UE com foco em materiais críticos.

“Eles estão tomando diferentes medidas, como financiar diferentes projetos e colaborar com países terceiros. Esse esforço vai dar frutos em alguns anos, talvez até 2030, mas, no curto prazo, a Europa vai ter dificuldades para resolver isso”, disse Mancheri ao Epoch Times.

Gavin Harper, pesquisador de materiais críticos da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, identificou os drones militares como uma vulnerabilidade estratégica fundamental para a autonomia de defesa da Europa, citando o controle de Pequim sobre os ímãs de terras raras essenciais para sua produção.

“Ímãs de terras raras são usados nos motores que acionam as hélices dos drones e também podem ser usados nos atuadores de uma variedade de drones. O controle da China sobre a cadeia de suprimentos de terras raras pode representar um risco estratégico para outras forças armadas que desejam construir drones em grande escala”, disse Harper ao Epoch Times.

Setores automotivo e de energias renováveis enfrentam perturbações

Mas o impacto vai além da defesa, já que Enrique Dans, professor de Inovação e Tecnologia da IE Business School em Madri, Espanha, observa que os novos controles deixam a economia europeia “substancialmente vulnerável”, com o verdadeiro ponto de estrangulamento sendo o domínio da China sobre o processamento de terras raras em ímãs permanentes.

“A produção de ímãs permanentes está no centro dos veículos elétricos, turbinas eólicas e muitos sistemas eletrônicos industriais. Portanto, a verdadeira perturbação não vem da falta de matéria-prima, mas principalmente da falta de refino e produção de ímãs fora da China”, disse Dans ao Epoch Times.

O domínio da China no setor de terras raras inclui cerca de 70% da mineração de terras raras, 90% da separação e processamento e 93% da fabricação de ímãs, de acordo com o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na sigla em inglês).

Dans previu que as indústrias automotiva e de energias renováveis podem esperar atrasos, aumentos de custos e paralisações temporárias no curto prazo, destacando um risco sistêmico para a economia da zona do euro que decorre de sua dependência das instalações chinesas para refinar esses minerais críticos.

“O Banco Central Europeu alertou sobre a exposição da zona do euro e documentou interrupções na produção relacionadas a quedas repentinas nos embarques de ímãs. Definitivamente, é um impacto que eles sentirão”, disse Dans.

Harper se preocupou que os controles da China sobre as exportações de ímãs de terras raras “sejam problemáticos” para as cadeias de abastecimento dessas indústrias, já que outras fontes desses componentes são limitadas e levarão tempo para serem desenvolvidas.

“Os equipamentos usados para fabricar esses ímãs também estão sob controle de exportação, o que tornará mais difícil para o Ocidente estabelecer suas próprias rotas de processamento e cadeias de abastecimento alternativas”, disse ele.

Cooperação transatlântica necessária

Em meio a esses desafios, o ministro das Relações Exteriores da Dinamarca, Lars Løkke Rasmussen, pediu uma “resposta dura” da UE, observando que essa é uma área em que o bloco compartilha um “interesse comum” com os Estados Unidos.

Logo depois, os ministros das Finanças do G7 — um grupo formado por Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, Reino Unido e Estados Unidos — concordaram, em 16 de outubro, em coordenar sua resposta às últimas restrições à exportação de terras raras da China.

Sobre uma possível cooperação, Herrero disse que a Europa poderia se unir ao Japão para diminuir o impacto dos controles de exportação da China, já que o Japão tem alguma capacidade de refino de terras raras, mas alertou que isso pode não ser suficiente.

“Sem os EUA, será difícil, porque ambos temem a reação da China”, disse Herrero.

Dans disse que a coordenação entre a UE e os EUA é necessária, mas está longe de ser suficiente, observando que ambos os lados devem implementar ações concretas nos próximos meses.

“As ações necessárias vão desde a coordenação de licenças de exportação para desbloquear remessas de estoque, compras conjuntas para melhorar o poder de barganha e apoio temporário aos preços para tornar viável qualquer projeto de processamento não chinês. É preciso torná-los rentáveis”, disse ele.

A médio e longo prazo, Dans enfatizou a importância de cumprir as metas da Lei de Matérias-Primas Críticas (CRM Act) da UE de 10% de extração, 40% de processamento e 25% de reciclagem até 2030, criando capacidade compartilhada de separação de terras raras pesadas e padronizando as especificações de defesa para garantir a intercambiabilidade transatlântica de componentes.

“O verdadeiro teste será se eles conseguirão construir refinarias, centros de reciclagem e contratos de compra de longo prazo com rapidez suficiente para contrariar a influência de Pequim”, disse Dans.