Entenda em 5 aspectos a crise humanitária gerada pelo conflito no Sudão

Divisão entre militares, interesses regionais estratégicos e a postura da mídia internacional ajudam a compreender a guerra, que envolve relatos de tortura, abusos e assassinato de crianças.

Por Redação Epoch Times Brasil
27/03/2025 14:52 Atualizado: 27/03/2025 16:06

Há 46 anos em guerra civil, a esperança de dias de paz é um exercício contínuo para o povo do Sudão. Recentemente os conflitos têm se agravado, desde abril de 2023, o país com maioria muçulmana situado no norte da África tem sido devastado por uma guerra entre o Exército do Sudão (SAF) e as Forças de Apoio Rápido (RSF).

O conflito já matou mais de 150 mil pessoas e deslocou mais de 11 milhões de sudaneses.  Na quarta-feira, o exército sudanês conseguiu expulsar as Forças de Apoio Rápido (RSF) da maior parte do centro de Cartum, capital do Sudão, em um importante avanço militar, conforme relatos de moradores locais.

Após dois anos, o exército tomou o controle de áreas estratégicas da cidade, incluindo o palácio presidencial e o aeroporto, localizados no centro da capital. Imagens de drones mostraram as forças da RSF recuando ao longo do rio Nilo, sugerindo a retirada do grupo das áreas conquistadas.

Uma imagem tirada de um vídeo divulgado pela rede de notícias saudita Al-Arabiya em 21 de março de 2025 mostra soldados do exército sudanês andando pelo palácio presidencial em Cartum. O exército sudanês recapturou o palácio presidencial em Cartum das Forças de Apoio Rápido em 21 de março, desferindo um duro golpe nos paramilitares que responderam com ataques mortais de drones. (Foto de -/AL-ARABIYA/AFP via Getty Images)

A vitória no centro de Cartum representa uma grande conquista para o exército sudanês, que também assumiu o controle de uma base importante da RSF ao sul da cidade, a última grande fortaleza do grupo paramilitar na região.

No entanto, apesar desse avanço, a guerra entre o exército e as RSF continua, com a RSF ainda mantendo o controle de vastas áreas no oeste do Sudão. A luta pelo controle do país persiste, com o Sudão se dividindo em zonas de controle rivais, ameaçando uma possível partição.

O que está por trás dessa guerra e quais são os principais elementos que definem essa tragédia humanitária? Podemos entender o conflito em cinco pontos essenciais.

1 – Origem: ruptura entre generais

(Direita) Chefe do exército sudanês, general Abdel Fattah Al-Burhan, discursa, em Porto Sudão, em 17 de fevereiro de 2025. (Foto: -/AFP via Getty Images) (Esquerda) Comandante paramilitar das Forças de Apoio Rápido do Sudão, general Mohamed Hamdan Daglo (Hemedti) em Cartum, capital do Sudão, em 8 de junho de 2022. (Foto de ASHRAF SHAZLY/AFP via Getty Images)

O conflito começou após uma ruptura entre dois generais sudaneses: Abdel Fattah al-Burhan, líder das Forças Armadas do Sudão (SAF), e Mohamed Hamdan Dagalo, mais conhecido como Hemedti, comandante das Forças de Apoio Rápido (RSF).

Ambos haviam sido aliados na derrubada do regime de Omar al-Bashir, em 2019, e estavam unidos no golpe de 2021, que interrompeu a transição democrática no país. Porém, divergências sobre a integração da RSF às forças armadas regulares, o controle da cadeia de comando e a supervisão civil se tornaram insustentáveis.

Em abril de 2023, esses pontos de tensão explodiram em combates, resultando na guerra aberta. Enquanto o exército possui recursos superiores, como poder aéreo, a RSF, mais ágil, conseguiu se infiltrar em várias áreas urbanas e controlou rapidamente regiões-chave.

2 – Protagonismo: generais e milícias

O confronto é liderado por dois homens poderosos: tanto Hemedti quanto Burhan têm ambições de comandar o Sudão. O exército, que foi favorecido por décadas pelo regime de Bashir, conta com apoio de antigos aliados, principalmente do Egito e das potências árabes. 

Por outro lado, a RSF surgiu a partir das milícias janjaweed, que operaram no oeste do Sudão durante o conflito de Darfur. Hemedti e seus aliados, como membros de sua família e seu clã, têm grande influência na região de Darfur, de onde o grupo se originou.

Ambos os lados têm sido acusados de cometer crimes de guerra, incluindo assassinatos étnicos, saques e violência sexual.

A RSF, por exemplo, é acusada de matar civis em massacres etnicamente direcionados, enquanto o exército sudanês é acusado de realizar bombardeios indiscriminados contra áreas residenciais.

3 – Interesses estratégicos regionais

O conflito sudanês não é apenas interno. Diversas potências estrangeiras têm se envolvido diretamente ou indiretamente na guerra, cada uma com seus próprios interesses estratégicos. Países como os Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Egito, Rússia e Irã têm exercido influências distintas no país.

  • — Emirados Árabes Unidos: forneceram apoio militar à RSF, incluindo armas e treinamento, segundo especialistas da ONU.
  • — Egito: tem laços profundos com o exército de Burhan, sendo uma potência regional chave no apoio ao regime de Cartum.
  • — Rússia: tem interesse em estabelecer uma base naval no Mar Vermelho, uma área estratégica para o controle de rotas comerciais.
  • — Arábia Saudita: tem tentado mediar o conflito, mas sem sucesso até o momento.

Esses interesses estrangeiros têm agravado a complexidade da guerra, tornando difícil qualquer tipo de solução pacífica. A competição por recursos, como ouro e outros minerais, também está no centro das disputas.

4 – Massacres e deslocamento em massa

A Organização das Nações Unidas (ONU) descreve o Sudão como tendo a maior crise humanitária do mundo, com 26 milhões de pessoas enfrentando fome extrema, e mais de 12 milhões forçadas a deixar suas casas. Em cidades como Cartum e Omdurman, relatos de abusos são constantes.

Mohamed Abdul Salam, um trabalhador de 37 anos, conhecido como “Bundug”, foi libertado de uma prisão da RSF após ser torturado e submetido à fome extrema, mas morreu dias depois. Outro exemplo trágico é Mohammed Abdullah, uma criança de nove anos, que foi morta por estilhaços enquanto brincava.

A ajuda humanitária é insuficiente, com hospitais destruídos e a maioria dos centros médicos inacessíveis. Organizações como Médicos Sem Fronteiras estão no terreno, mas a destruição em larga escala de infraestrutura dificultou o trabalho de socorro.

Imagem de arquivo de prédios de Cartum atingidos por incêndio durante confrontos entre o Exército e um grupo paramilitar no Sudão durante duas semanas. (EFE/EPA/STRINGER)

5 – Mídia e comunidade internacional

O Sudão enfrenta o que muitos analistas chamam de uma “crise ignorada”. A cobertura midiática é escassa, especialmente quando comparada a outros conflitos globais, como a guerra na Ucrânia. Além disso, a comunidade internacional, apesar de realizar esforços pontuais, tem sido lenta e, em muitos casos, descoordenada em sua resposta.

O governo dos EUA destinou US$ 2 bilhões em ajuda humanitária, mas o apelo das Nações Unidas de US$ 2,7 bilhões para 2024 foi apenas parcialmente atendido, recebendo apenas 57% do financiamento necessário.

Organizações como a Cruz Vermelha têm sido criticadas pela sua inação em algumas áreas, enquanto Médicos Sem Fronteiras tenta lidar com a escassez de recursos.

Além disso, países como os EUA e a União Europeia impuseram sanções a Burhan e Hemedti, enquanto a ONU declarou que a RSF cometeu genocídio, uma acusação negada pelos paramilitares. Contudo, esses esforços têm sido amplamente ineficazes, e o conflito persiste sem uma resolução à vista.