China e Índia prometem reatar relações em meio às tarifas dos EUA; analistas questionam efeitos

O primeiro-ministro indiano Narendra Modi se encontrou com o líder chinês Xi Jinping antes de uma cúpula regional em Tianjin.

Por Dorothy Li
01/09/2025 13:11 Atualizado: 01/09/2025 13:11
Matéria traduzida e adaptada do inglês, publicada pela matriz americana do Epoch Times.

O líder chinês Xi Jinping instou o primeiro-ministro indiano Narendra Modi a reforçar a cooperação e deixar de lado as disputas fronteiriças que há décadas azedam as relações entre os dois vizinhos, durante uma reunião realizada em 31 de agosto.

Analistas interpretaram a medida como parte da estratégia de Pequim para capitalizar as queixas de Nova Délhi sobre as tarifas dos EUA, numa tentativa de formar uma frente unida contra os Estados Unidos, embora esperassem efeitos limitados.

Em uma reunião com Modi antes de uma cúpula regional, Xi disse a Modi que os dois países “não devem permitir que a questão da fronteira defina o relacionamento geral entre a China e a Índia”, de acordo com o Ministério das Relações Exteriores da China.

Se a Índia e a China puderem se ver como “parceiros” em vez de “rivais”, o relacionamento entre os dois países poderá “florescer e avançar de forma constante”, disse Xi, segundo o ministério.

Modi, por sua vez, “destacou a importância da paz e da tranquilidade nas áreas de fronteira para o desenvolvimento contínuo das relações bilaterais”, de acordo com o comunicado da Índia.

Modi está em sua primeira visita à China desde o mortal conflito fronteiriço de 2020 na região de Galwan, no Himalaia, que custou a vida de pelo menos 20 soldados indianos e um número desconhecido de soldados chineses.

O incidente mortal aumentou as tensões entre os dois vizinhos com armas nucleares, congelando efetivamente a maioria das áreas de cooperação bilateral. Sinais de um descongelamento nas relações começaram a surgir em outubro de 2024, quando os dois países chegaram a um acordo de patrulha de fronteira antes de uma reunião entre Modi e Xi à margem da cúpula do BRICS na Rússia.

Em julho, o ministro das Relações Exteriores da Índia, Subrahmanyam Jaishankar, visitou Pequim, enquanto o principal diplomata da China, Wang Yi, viajou recentemente a Nova Délhi para se reunir com Modi e altos funcionários indianos.

A viagem de Modi à China ocorreu menos de uma semana após a entrada em vigor da tarifa adicional de 25% dos EUA sobre a Índia. A medida eleva a taxa dos EUA sobre a Índia — a terceira maior economia do mundo — para 50%. O governo Trump afirmou que as novas tarifas foram uma resposta à compra maciça de petróleo russo por Nova Délhi, enquanto o governo de Modi considerou a ação de Washington “injustificada” e “irracional”.

Durante a reunião com Xi, Modi afirmou que tanto a Índia quanto a China buscam “autonomia estratégica” e que as relações entre os dois países “não devem ser vistas através das lentes de um terceiro país”, de acordo com o comunicado divulgado pelo gabinete de Modi.

Modi enfatizou “a necessidade de proceder a partir de uma direção política e estratégica para expandir os laços bilaterais de comércio e investimento”, ao abordar o déficit comercial da Índia com a China, informou o gabinete do primeiro-ministro indiano.

A China ultrapassou os Estados Unidos e se tornou o maior parceiro comercial da Índia no ano fiscal de 2023-2024, encerrado em março. Mas a Índia está cada vez mais frustrada com seu déficit comercial com a China, que aumentou para US$ 99,2 bilhões no último ano fiscal, segundo dados comerciais de Nova Délhi.

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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aperta a mão do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, durante uma reunião no Salão Oval da Casa Branca, em Washington, em 13 de fevereiro de 2025. (Jim Watson/AFP via Getty Images)

A visita de Modi indica que Nova Délhi continua comprometida com sua abordagem diplomática de não alinhamento de longa data, uma estratégia que lhe permite formar múltiplas parcerias sem se comprometer totalmente com nenhum bloco específico, de acordo com Su Tzu-yun, analista sênior do Instituto de Pesquisa de Defesa Nacional e Segurança, um think tank financiado pelo governo de Taiwan.

“A Índia tem historicamente mantido uma política externa não alinhada, embora tenha se aproximado dos Estados Unidos” nos últimos anos, particularmente durante o governo Biden, que abriu as portas para mais oportunidades de investimento em meio às tensões com a China sobre disputas de fronteira, disse Su ao Epoch Times.

Após duas dúzias de rodadas de conversas fronteiriças com Pequim e diante de novas tarifas dos EUA, a Índia parece ter revertido para sua postura diplomática tradicional, disse Su.

Mensagem moderada da Índia

Modi está em Tianjin, uma cidade portuária vizinha a Pequim, para participar da Organização de Cooperação de Xangai (SCO), um bloco de poder regional que, segundo analistas baseados em Taiwan, é uma plataforma para o Partido Comunista Chinês (PCCh) projetar seu poder na Ásia Central.

A China fundou a SCO em 2001, juntamente com a Rússia e o Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão e Uzbequistão — todas ex-repúblicas soviéticas.

A Índia e o Paquistão tornaram-se membros plenos do bloco em 2017, apesar de suas rivalidades de décadas. O Irã aderiu à organização em 2023, seguido pela Bielorrússia, um aliado próximo do Kremlin, que foi admitido em 2024.

Por meio da cúpula da SCO deste ano, a China quer fortalecer a cooperação com o Sul Global, trazendo esses países para sua órbita em meio às tensões comerciais com os Estados Unidos, de acordo com Shen Ming-Shih, pesquisador do Instituto de Pesquisa de Defesa Nacional e Segurança de Taiwan.

O regime chinês espera “capitalizar” as reclamações desses países sobre as tarifas dos EUA e “mobilizá-los para formar um bloco anti-Trump ou anti-EUA”, disse Shen ao Epoch Times.

“O objetivo principal é usar os interesses econômicos como pretexto para semear divisões entre essas nações [do Sul Global] e os Estados Unidos e, então, aproveitar essa oportunidade para conquistá-las e, juntos, combater os Estados Unidos.”

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O primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi (à esquerda), e o primeiro-ministro do Japão, Shigeru Ishiba, apertam as mãos durante uma coletiva de imprensa conjunta em Tóquio, em 29 de agosto de 2025. (Takashi Aoyama/Pool/AFP via Getty Images)

A cúpula da SCO acontece poucos dias antes de Pequim realizar seu desfile militar para marcar o fim da Segunda Guerra Mundial. O regime deve exibir suas armas mais avançadas fabricadas no país no desfile, enquanto Xi deve fazer um discurso no pódio do Portão Tiananmen, em Pequim.

Alguns convidados da SCO, incluindo o líder russo Vladimir Putin e o líder iraniano Masoud Pezeshkian, devem comparecer ao desfile de 3 de setembro. Modi, no entanto, não estava entre os 26 líderes estrangeiros que a China disse que participariam do evento.

“A mensagem de Modi é cuidadosamente calibrada — participar da cúpula da Organização de Cooperação de Xangai, mas faltar à cerimônia do PCCh em 3 de setembro, sinalizando que ainda existem diferenças fundamentais entre Nova Délhi e o PCCh”, disse o especialista em China Wang He ao Epoch Times. Portanto, Wang diz que espera que a Índia “busque uma cooperação estratégica mais profunda com os Estados Unidos, em vez de se alinhar estreitamente com a China”.

A reunião bilateral em Tianjin ocorreu dois dias depois que Modi e o primeiro-ministro japonês Shigeru Ishiba concordaram em reforçar a cooperação comercial, militar e em outras áreas entre os dois países, após suas reuniões em Tóquio.

Em uma declaração conjunta, os dois líderes reafirmaram seu compromisso de promover a cooperação por meio da estrutura Quad, uma parceria regional que também inclui os Estados Unidos e a Austrália e que visa combater a postura cada vez mais agressiva do PCCh no Indo-Pacífico.