Cecot: a prisão de El Salvador que despertou o interesse dos EUA

Centro de confinamento virou símbolo da política de segurança de Nayib Bukele, atraiu apoio de Trump e agora é usado para prender deportados por Washington

Por Redação Epoch Times Brasil
27/03/2025 19:32 Atualizado: 27/03/2025 19:32

Quando Nayib Bukele assumiu a presidência de El Salvador em 2019, havia 38 mortes por 100 mil habitantes, em 2023, a taxa foi de apenas 1,7 homicídios por 100 mil, fazendo do país de acordo com o próprio Bukele “a nação mais segura do Hemisfério Ocidental”.

Bukele atingiu essa transformação drástica nos índices de violência por meio de uma política de segurança pública extremamente rígida, centrada no enfrentamento direto às gangues criminosas conhecidas como maras, como a MS-13 e a Barrio 18, que por décadas dominaram bairros inteiros em El Salvador.

A estratégia foi chamada por seu governo de “Guerra Contra as Gangues” e o principal símbolo desse sistema é o Cecot (Centro de Confinamento do Terrorismo), um mega presídio inaugurado em 2023 com capacidade para 40 mil detentos. Ele foi construído em tempo recorde e abriga os presos considerados mais perigosos.

O Cecot

O modelo prisional implementado por Bukele é baseado em isolamento extremo, controle rígido e repressão total à atividade das gangues.

No Cecot, os presos não têm direito a visitas, advogados ou comunicação externa. Eles são mantidos em celas coletivas, com controle absoluto por parte do Estado. As celas têm poucas ou nenhuma abertura para luz natural, e os detentos passam a maior parte do tempo confinados. Não há espaços para lazer, educação ou trabalho.

Todo o ambiente é monitorado por câmeras de vigilância de alta resolução, sensores de movimento e patrulhamento constante por guardas armados. As movimentações internas são feitas com o uso de correntes e de forma extremamente disciplinada. A alimentação é padronizada e servida em porções mínimas. Os detentos não têm permissão para falar, gritar ou agir sem autorização direta.

O sistema é concebido para quebrar o comando e controle das gangues. Antes, essas organizações exerciam influência direta mesmo de dentro das prisões, coordenando crimes, extorsões e assassinatos. Com o novo modelo, o objetivo é eliminar qualquer possibilidade de articulação entre membros das maras.

Além do Cecot, outras prisões em El Salvador passaram por mudanças estruturais, adotando o mesmo padrão de endurecimento. As celas foram esvaziadas de objetos pessoais e qualquer tentativa de imposição de poder interno é reprimida com isolamento.

Bukele também ampliou o uso da detenção preventiva sem necessidade de prova concreta, algo viabilizado pelo estado de exceção. Milhares de pessoas foram presas apenas por suspeita de envolvimento com gangues, muitas vezes com base em denúncias anônimas, aparência física ou simples presença em áreas controladas pelas maras.

Críticos afirmam que o modelo fere direitos humanos básicos, mas o governo justifica as medidas com base nos resultados: queda histórica nos homicídios e retomada do controle territorial pelo Estado.

Para Bukele, o sistema carcerário deixou de ser uma extensão do crime organizado e passou a ser um instrumento de domínio total sobre os criminosos.

EUA visita El Salvador

O Cecot passou a ser também instrumento de cooperação internacional na política migratória e de segurança, especialmente com os Estados Unidos. Neste mês, 238 venezuelanos deportados pelo governo Trump foram enviados ao presídio, sob a justificativa de ligação com o grupo criminoso Tren de Aragua.

A ação faz parte de uma parceria direta entre Nayib Bukele e o presidente americano Donald Trump, reforçada pela visita da secretária de Segurança Interna dos EUA, Kristi Noem. Durante a visita, Kristi declarou: “Se você comete um crime, esta é uma consequência que pode enfrentar”, destacando o caráter exemplar da prisão.

A secretária publicou ainda em suas redes sociais: “O presidente Trump e eu temos uma mensagem clara para os imigrantes ilegais criminosos: VÃO EMBORA AGORA. Se você não for, vamos caçá-lo, prendê-lo, e você pode parar nesta prisão salvadorenha”. A frase evidencia a intenção de utilizar o Cecot como mensagem dissuasiva para potenciais imigrantes ilegais com histórico criminal.

Além dos venezuelanos, 23 salvadorenhos suspeitos de integrar grupos criminosos também foram levados ao Cecot. O governo de Washington afirma que os venezuelanos são membros de organizações violentas e terroristas, embora suas famílias e autoridades da Venezuela defendam que são apenas imigrantes sem documentos.

A deportação em massa invocou uma lei de guerra de 1798 e enfrentou resistência nos EUA: uma corte de apelações rejeitou um pedido da Casa Branca para manter as deportações. Mesmo assim, a colaboração entre El Salvador e os EUA continua ativa.

Durante a visita, Kristi Noem e o ministro da Justiça e Segurança de El Salvador, Gustavo Villatoro, trataram da ampliação dos voos de deportação e da troca de informações sobre antecedentes criminais de fugitivos, segundo nota da embaixada americana.

Apesar da repercussão internacional e das críticas de entidades de direitos humanos, o governo Bukele mantém a postura firme. O Cecot não apenas serve para conter a criminalidade interna, mas também se tornou vitrine de uma nova abordagem regional contra o crime organizado e a imigração irregular.