Prisioneiro da era da Paz Celestial revela “segredo aberto” da China sobre extração forçada de órgãos

“Todos sabiam que quando tiravam sangue de um condenado à morte, era para compatibilidade de órgãos”, disse Gu Kai.

Por Michael Zhuang
18/09/2025 15:42 Atualizado: 18/09/2025 15:42
Matéria traduzida e adaptada do inglês, publicada pela matriz americana do Epoch Times.

Durante 36 anos, Gu Kai carregou um segredo terrível demais para ser revelado.

Em 1989, o então estudante universitário foi preso em Xangai por apoiar os protestos da Praça da Paz Celestial e, enquanto estava na prisão, afirmou ter testemunhado evidências de que o sistema de execução da China era utilizado para extrair órgãos de prisioneiros.

Temendo repercussões contra si mesmo e sua família, Gu permaneceu em silêncio até este ano. Em março, após visitar o Liberty Sculpture Park e o Memorial da Praça Tiananmen em Yermo, Califórnia, e participar de um evento comemorativo do 36º aniversário do massacre, ele decidiu compartilhar o que havia testemunhado.

“De repente, senti que tinha sido muito covarde”, disse Gu à edição chinesa do Epoch Times. “Eu temia pela minha família e meus pais, então tinha medo de falar”.

O destino de um prisioneiro em Xangai

Gu tinha 21 anos quando as autoridades o detiveram, acusando-o de ser um “contrarrevolucionário”, uma acusação frequentemente usada pelo Partido Comunista Chinês (PCCh) contra dissidentes políticos. Ele foi colocado no Centro de Detenção nº 1 de Xangai, em uma cela de 12 metros quadrados com mais de uma dúzia de detentos.

Em novembro de 1989, um jovem prisioneiro condenado à morte chamado Ge Yanping foi transferido para a cela de Gu. Ge, então com 25 anos, trabalhava no grupo estatal chinês Baosteel antes de ser condenado por homicídio. Gu lembra que, em janeiro de 1990, os médicos da prisão coletaram vários frascos de sangue de Ge.

“Todos sabiam que, quando coletavam sangue de um prisioneiro condenado à morte, era para compatibilidade de órgãos.

Era um segredo aberto”, disse Gu.

Semanas depois, os guardas chamaram o número de Ge, 728, e o levaram embora, dizendo que ele iria ao tribunal. Ele nunca mais voltou. Antes de partir, Ge confiou a Gu o endereço de sua casa e pediu que ele fosse ver como estavam seus pais, caso ele sobrevivesse à prisão.

O que aconteceu com Ge logo depois deixaria uma marca ainda mais profunda em Gu.

A evidência devastadora de um pai

Após sua libertação em agosto de 1990, Gu visitou os pais de Ge. O que ele viu lá o assombrou ainda mais do que a prisão.

O pai de Ge, um soldado aposentado e membro do Partido Comunista, mostrou-lhe um conjunto de documentos e fotografias obtidos por meio de contatos no sistema judicial. As imagens, segundo Gu, incluíam Ge ajoelhado para a execução no momento em que uma bala atingiu sua cabeça, bem como imagens da equipe médica retirando sua pele e abrindo seu peito para remover seus órgãos.

“As fotos eram chocantes”, disse Gu. “Ficou claro que ele não havia morrido completamente com o tiro antes de eles começarem. Eles o despiram, abriram seu corpo e retiraram seus órgãos”.

O pai de Ge chorou ao explicar por que havia permanecido em silêncio. “Meu filho matou alguém e merecia a pena de morte”, disse ele a Gu. “Mas por que eles tiveram que mutilar o corpo dessa forma? Se eu tivesse protestado na época, teria perdido meu emprego e minha pensão. Isso teria destruído toda a família”.

Gu disse que o pai de Ge só conseguiu obter as fotos porque tinha contatos no sistema judiciário do PCCh. Oficialmente, ele só recebeu as cinzas do filho.

Outros ex-detentos deram depoimentos semelhantes. Yang Wei, um ativista pró-democracia preso na mesma época, lembrou que os médicos frequentemente coletavam sangue de prisioneiros acorrentados no corredor da morte. Quando ele perguntou aos médicos o motivo, eles responderam que era para “exames de saúde”, mas ele disse que todos sabiam que era para compatibilidade de órgãos.

“Eles não estavam doentes”, disse Yang. “Eles estavam sendo preparados”.

Ambos os relatos reforçam as alegações de longa data de que a China tem contado com prisioneiros executados para fornecer órgãos para sua indústria de transplantes, uma prática que Pequim negou durante anos antes de admitir, em 2005, que era uma prática comum.

Gu enfatizou que, na China comunista, as primeiras fontes de órgãos para transplante eram prisioneiros no corredor da morte, mendigos ou pacientes que haviam morrido inesperadamente. Com o tempo, o escopo se expandiu gradualmente — uma realidade destacada no documentário “Órgãos do Estado”.

Em 2006, foi relatado pela primeira vez que praticantes da disciplina espiritual Falun Gong foram mortos pelo regime por seus órgãos. Várias investigações internacionais, incluindo o Tribunal da China no Reino Unido, concluíram em 2019 que Pequim havia cometido extração forçada de órgãos em grande escala por muitos anos e que os praticantes do Falun Gong eram sua principal fonte.

A questão ressurgiu em 3 de setembro, durante o desfile militar do PCCh, quando uma transmissão ao vivo captou o presidente russo, Vladimir Putin, dizendo ao líder chinês, Xi Jinping, que transplantes contínuos de órgãos poderiam prolongar a vida, até mesmo levando à “imortalidade”. Xi comentou que a prática poderia ajudar os seres humanos a viver até 150 anos neste século.

O PCCh há muito enfrenta acusações internacionais de envolvimento na extração forçada de órgãos. O momento do microfone aberto rapidamente provocou indignação pública.

“Em um país sem democracia, sem eleições, sem liberdade de expressão, qualquer tipo de atrocidade pode acontecer”, disse Gu.

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Sabrina Sohail participa de uma coletiva de imprensa sobre a Lei contra a Extração Forçada de Órgãos, aprovada pela Câmara, no Capitólio, em Washington, em 7 de maio de 2025. (Madalina Vasiliu/Epoch Times)

Décadas depois, e agora morando em Nova Iorque, Gu ainda luta para processar o que viu e aprendeu. As fotografias do pai de Ge permanecem gravadas em sua mente.

“É realmente trágico que tais coisas tenham acontecido”, disse ele. “Somente quando chegar o dia em que a China se tornar democrática é que esse segredo obscuro será exposto — porque o Partido Comunista ainda mantém os arquivos, um registro das ações de cada pessoa”.

Cheng Mulan e Chang Chun contribuíram para esta reportagem.