Matéria traduzida e adaptada do inglês, publicada pela matriz americana do Epoch Times.
Análise
A mais recente frente da rivalidade entre EUA e China está se desenrolando nos campi americanos. Estudantes chineses — antes vistos como pontes entre as duas nações — agora são incentivados, e às vezes forçados, a escolher um lado.
Analistas afirmam que a pressão do líder do Partido Comunista Chinês, Xi Jinping, por uma China mais forte e assertiva colocou Pequim em rota de colisão com Washington. À medida que ambos os governos endurecem suas posições, centenas de milhares de estudantes chineses nos Estados Unidos sentem a pressão.
Os funcionários consulares americanos agora rotineiramente negam ou cancelam vistos vinculados à rede militar-industrial do regime.
Pequim, por sua vez, reforçou a vigilância de seus cidadãos no exterior, classificando estudantes que falam abertamente como riscos à segurança e, em alguns casos, prendendo-os ao retornarem. A neutralidade acadêmica não é mais uma opção.
Portas da América começam a fechar
Em março, o deputado republicano por Michigan, John Moolenaar, presidente do Comitê Seleto da Câmara dos Estados Unidos sobre o Partido Comunista Chinês (PCCh), ordenou que seis universidades — Stanford, Carnegie Mellon, Purdue, Universidade de Illinois, Universidade de Maryland e Universidade do Sul da Califórnia — entregassem as listas de matrícula de todos os cidadãos chineses no campus.
Os dados revelaram que todas as seis escolas estavam treinando estudantes de pós-graduação dos “Sete Filhos da Defesa Nacional” da China, instituições de elite que injetam talentos diretamente no Exército de Libertação Popular.
Quando o comitê divulgou suas conclusões em 19 de setembro, observou que os contribuintes dos EUA estavam ajudando a pagar a conta.
Uma universidade relatou que 515 de seus 1.139 estudantes de pós-graduação, professores e funcionários chineses foram financiados por meio de bolsas ou contratos federais; outra disse que 1.115 de seus 2.580 estudantes de pós-graduação chineses foram financiados por meio de bolsas de ensino ou pesquisa.
O comitê instou o Departamento de Estado americano a negar vistos a candidatos dos Sete Filhos, dos relacionados “Sete Filhos da Indústria de Armas” e de 58 universidades supervisionadas pela Administração Estatal Chinesa para Ciência, Tecnologia e Indústria para Defesa Nacional.
O Departamento de Estado dos EUA já estava se movendo nessa direção. Desde maio, revogou vistos para cidadãos chineses em áreas sensíveis ou com laços abertos com o PCCh.
O presidente americano Donald Trump sugeriu brevemente permitir a entrada de 600.000 estudantes chineses no país, mas analistas disseram que isso era uma moeda de troca, não uma política.
Em agosto, agentes de fronteira dos EUA expulsaram um estudante de filosofia chinês, identificado apenas como Gu, após descobrirem que ele pertencia a vários grupos de bate-papo da Associação de Estudantes e Acadêmicos Chineses (CSSA) ligados ao Departamento de Trabalho da Frente Unida do PCCh, que realiza operações de propaganda e influência no exterior.
Pequim protestou, mas negativas semelhantes continuam.
“Não há muita diferença entre os governos Biden e Trump sobre essa questão”, disse o Sr. Han, um cidadão chinês que concluiu seus estudos de pós-graduação nos Estados Unidos este ano.
“As regras agora são aplicadas com mais rigor. Alguns departamentos não aceitam mais candidatos chineses.”
Atos de desaparecimento nos campi
A Universidade Purdue mostra o quão rápido o cenário está mudando.
Antigamente a segunda maior universidade pública do país para estudantes internacionais, a Purdue costumava atrair milhares de pessoas da China continental para seus programas de engenharia.
Esses números estão despencando: o total de matrículas de graduação chinesas no outono de 2024 caiu para 747, abaixo dos 3.241 do outono de 2014. No geral, as matrículas chinesas caíram mais 5,2% neste ano.
“Percebi isso na primavera de 2022”, disse Chen Langri, recém-formado na Purdue. “Nos cursos de educação geral, costumava haver cinco ou seis estudantes chineses por turma. Na primavera seguinte, já não havia quase nenhum.”
“Alguns recém-chegados saíram depois de apenas um semestre”, disse ele ao Epoch Times. “Normalmente, as pessoas são transferidas para Purdue, não para fora.”
Com a diminuição do número de estudantes chineses, Chen observa um aumento notável de estudantes taiwaneses em laboratórios e salas de aula.
Pequim reforça seu controle
Enquanto Washington bloqueia a porta da frente, Pequim vigia os fundos.
Declarações oficiais de Pequim acusam os Estados Unidos de colocar uma “cortina de ferro” para a ciência e a tecnologia, mas, extraoficialmente, o PCCh intensificou seu próprio monitoramento de estudantes chineses no exterior.
Em 2016, o Ministério da Educação da China ordenou uma “educação patriótica” mais rigorosa para os cidadãos que estudavam no exterior. Estudantes patrocinados pelo governo tiveram que assinar contratos jurando lealdade e evitando atividades que pudessem prejudicar os interesses do regime.
Durante os protestos de Hong Kong em 2019, os membros do PCCh no exterior foram instruídos a se comunicar com suas células locais do Partido em casa pelo menos duas vezes por ano; membros do Partido que estudaram no exterior por mais de cinco anos sem retornar à China, ou perderam contato com a organização do Partido por mais de seis meses, poderiam ter sua filiação suspensa.
A pressão aumentou após as manifestações do “Livro Branco” de 2021 contra os confinamentos da COVID, quando estudantes dentro e fora da China se coordenaram online.
Desde então, autoridades alfandegárias chinesas questionam os retornados sobre seus estudos e postagens nas redes sociais.
Em julho de 2024, Zhang Yadi, um estudante na França, foi preso enquanto visitava sua casa por “incitar o separatismo” após expressar apoio ao Tibete e ao Movimento do Livro Branco [protestos contra a censura na China].
“Não é que os estudantes chineses sejam o problema”, disse Lan Shu, analista de assuntos chineses baseado nos EUA e ex-apresentador da Sound of Hope TV, uma rede de transmissão internacional em língua chinesa.
“O PCCh voltou à suspeita da era Mao [Tsé-Tung], onde qualquer pessoa com laços estrangeiros é suspeita”, disse Lan ao Epoch Times.
A pressão familiar aumenta o medo.
Wang, um estudante de cinema em Los Angeles, disse que seus pais o alertaram para não criticar Pequim durante ligações internacionais.
“Eles me alertam para não fazer comentários sobre a China. Dizem que a polícia os visitou”, disse Wang ao Epoch Times.
Escolhendo lados — ou buscando asilo
A pressão reduziu a matrícula de chineses em faculdades americanas de 373.000 no ano acadêmico de 2019-20 para 277.000 em 2023-24, de acordo com o Migration Information Institute [instituto dos Estados Unidos especializado em dados sobre migração].
Ao mesmo tempo, os pedidos de refúgio estão aumentando.
De acordo com a Safeguard Defenders [organização internacional de direitos humanos sediada na Suécia], citando dados da Agência da ONU para Refugiados, 176.239 cidadãos chineses buscaram refúgio no exterior em 2024 — um aumento de 169% em relação a 2019, e mais de 14 vezes desde que Xi assumiu o poder em 2012.
Os Estados Unidos receberam 88.722 desses pedidos de asilo. A Austrália também registrou um número recorde de pedidos.
“O relacionamento se deteriorou a ponto de você ter que escolher”, disse Han, agora um requerente de asilo. “Com Obama, você podia ser neutro. Agora, se você quiser ficar [nos EUA], precisa romper completamente com o PCCh.”
Com a economia da China desacelerando e o desemprego entre os jovens atingindo níveis recordes, muitos veem perspectivas melhores no exterior, apesar dos riscos de perda de bolsas de estudo, assédio familiar ou exílio permanente, de acordo com Han.
“A menos que sua família seja poderosa na China, os EUA oferecem mais oportunidades”, acrescentou Han.
“Para alguns, os laços familiares os puxarão de volta”, disse Lan. “Outros, especialmente aqueles cujos pais viveram a Revolução Cultural, ficarão [fora da China] para sempre. Para muitos nascidos após a década de 1990, a escolha moldará o resto de suas vidas.”
Nem Washington nem Pequim estão recuando. O Congresso americano está prestes a tornar rotineira a recusa de vistos para qualquer pessoa ligada à rede de defesa da China, e as universidades estão transferindo o recrutamento para Taiwan e Índia.
Pequim, comprometida com a “fusão militar-civil”, não mostra sinais de que irá aliviar o escrutínio dos retornados.
Para os estudantes chineses, cada inscrição, travessia de fronteira ou evento no campus pode parecer um teste. Mesmo assim, eles continuam se candidatando, estudando e avaliando o futuro em dois continentes.
Song Tang e Yi Ru contribuíram para esta reportagem.



