China envia porta-aviões para Hong Kong em meio a crescentes tensões marítimas

Analistas afirmam que os porta-aviões chineses, tradicionalmente movidos a energia convencional, enfrentam problemas de suprimento, já que a China não possui bases além da primeira cadeia de ilhas.

Por Alex Wu
07/07/2025 10:10 Atualizado: 07/07/2025 10:10
Matéria traduzida e adaptada do inglês, publicada pela matriz americana do Epoch Times. 

O Shandong, primeiro porta-aviões construído na China, atracou em Hong Kong na quinta-feira (3 ), poucos dias após o 28º aniversário da transferência do território do Reino Unido para Pequim.

A chegada ocorre em um momento em que o regime comunista chinês continua a expandir ativamente seu poder naval, o que tem gerado preocupação em outros países da região.

Esta é a segunda vez que um porta-aviões chinês visita Hong Kong. O primeiro, o Liaoning, esteve na cidade em 2017. O Shandong é o segundo porta-aviões da China e tem participado recentemente de exercícios militares no Pacífico Ocidental junto com o Liaoning.

Segundo a mídia estatal chinesa, o Shandong chegou acompanhado por dois destróieres e uma fragata para sua visita a Hong Kong. Os navios de guerra permanecerão na cidade por cinco dias a partir da quinta-feira. O porta-aviões foi aberto para visitação pública durante o fim de semana.

Comissionado em 2019, o Shandong é o segundo porta-aviões da China e o primeiro construído inteiramente no país. Ele representa uma peça-chave nas ambições estratégicas regionais da China. O Partido Comunista Chinês (PCCh) tem acelerado a modernização de seu poder naval para ampliar sua influência na região do Pacífico e desafiar a aliança liderada pelos Estados Unidos, que promove valores de liberdade e democracia liberal, em contraponto aos valores socialistas defendidos pelo PCCh.

Um terceiro porta-aviões chinês, com design de convés plano, está atualmente em testes no mar, enquanto um quarto está em construção.

O Departamento de Defesa dos Estados Unidos informou em dezembro de 2024 que a China possui a maior marinha do mundo, com um poder de combate superior a 370 navios e submarinos. A China ultrapassou os Estados Unidos em número de navios de força de combate entre 2015 e 2020.

Em junho, o Japão expressou preocupações de que os exercícios com dois porta-aviões no Pacífico Ocidental, conduzidos pela China, foram os primeiros do tipo e refletem a intenção de Pequim de ampliar suas capacidades de combate de longo alcance.

O Shandong esteve em águas filipinas durante um exercício militar conjunto entre EUA e Filipinas, em abril, aumentando as tensões entre Manila e Pequim por causa de disputas territoriais no Mar do Sul da China.

Também em abril, o Shandong participou de exercícios de intimidação próximo a Taiwan, para testar a capacidade da marinha chinesa de “bloquear” a ilha autônoma, que é aliada dos Estados Unidos e reivindica ser o único governo legítimo da China.

O regime chinês afirma que Taiwan faz parte de seu território, apesar de nunca ter governado a ilha. O Partido Comunista Chinês não descarta o uso da força para tomar o controle da ilha.

O atracamento do porta-aviões Shandong em Hong Kong tem a intenção de “mostrar seu poder militar para o mundo exterior, especialmente para o Ocidente”, disse Shen Ming-shih, diretor da Divisão de Pesquisa em Segurança Nacional do Instituto de Defesa e Segurança Nacional de Taiwan, ao The Epoch Times.

A visita do Shandong a Hong Kong tem como objetivo realizar uma “doutrinação política suave”, afirmou Chung Chih-tung, pesquisador assistente do mesmo instituto, ao The Epoch Times em 6 de julho. “Espera-se passar a impressão de que a China é uma potência forte para a sociedade de Hong Kong, mostrar a supremacia da sua segurança nacional e inspirar o ‘patriotismo’ do povo de Hong Kong”, disse ele.

Projetos da União Soviética

Shen Ming-shih afirmou que os chineses estão “confiantes na capacidade de combate do Shandong”.

No entanto, os porta-aviões chineses ainda ficam atrás dos norte-americanos em termos de tecnologia e qualidade.

Tanto o Shandong quanto o Liaoning utilizam projetos de porta-aviões da União Soviética, datados entre 1922 e 1991, com caças J-15 e helicópteros chineses a bordo.

O porta-aviões chinês Liaoning (à direita) chega às águas de Hong Kong em 7 de julho de 2017. (Foto: Anthony Wallace/AFP via Getty Images)
O porta-aviões chinês Liaoning (à direita) chega às águas de Hong Kong em 7 de julho de 2017. (Foto: Anthony Wallace/AFP via Getty Images)

O Shandong é, na verdade, baseado no Valk, que foi o predecessor do Liaoning, afirmou Shen Ming-shih. “Ele é construído a partir de um projeto elaborado na década de 1980. Seu desempenho e qualidade não são tão bons quanto os dos porta-aviões dos EUA, especialmente na quantidade de aeronaves que pode transportar, que é de cerca de 40 a 50 no total. O porta-aviões dos EUA pode levar o dobro de caças em comparação ao do Partido Comunista Chinês ”, explicou.

“A capacidade de combate do porta-aviões Shandong está cerca de 15 a 20 anos atrasada em relação ao porta-aviões norte-americano atual”, estimou Shen Ming-shih. “Por isso, acredito que o PCCh não usará seus porta-aviões de forma precipitada.”

Shen Zhou, colunista da edição em chinês do The Epoch Times, observou em um comentário no sábado (5) que, após retornar da primeira cadeia de ilhas — que inclui o arquipélago japonês, as Ilhas Ryukyu, Taiwan, norte das Filipinas e partes de Bornéu —, “o Shandong não foi diretamente para Hong Kong, mas retornou primeiro para sua base em Sanya, na ilha de Hainan, para manutenção, e só depois voltou a Hong Kong.”

“Esse vai e vem seria impensável para um porta-aviões dos Estados Unidos”, disse ele.

Ele comparou com os porta-aviões americanos que atuam no Pacífico Ocidental, “que podem atracar em portos de muitos países a qualquer momento, incluindo Guam, Japão, Filipinas, Vietnã, Singapura, entre outros. Em novembro de 2018, o USS Ronald Reagan também atracou em Hong Kong.”

Em comparação, o porta-aviões chinês “parece ser muito mais frágil”, escreveu ele. “Após um curto período de exercícios de longa distância, ele precisa voltar ao seu porto de origem para reparos e não pode atracar diretamente em Hong Kong, o que também reflete a diferença nos níveis de prontidão para o combate.”

Após uma breve viagem fora da primeira cadeia de ilhas em meados de junho, o porta-aviões chinês Shandong retornou à sua base em Sanya, Hainan, e depois visitou Hong Kong na quinta-feira (3).(Google Maps/Epoch Times)
Após uma breve viagem fora da primeira cadeia de ilhas em meados de junho, o porta-aviões chinês Shandong retornou à sua base em Sanya, Hainan, e depois visitou Hong Kong na quinta-feira (3). (Google Maps/Epoch Times)

Shen Zhou acrescentou que o porta-aviões chinês não ousa reabastecer em Hong Kong, talvez por medo de questões de segurança.

“Embora o Partido Comunista Chinês tenha controle total sobre Hong Kong e manipule muitos oficiais e empresários locais, ele não confia de fato nessas pessoas. Por isso, enviou a frota do porta-aviões Shandong de volta a Sanya para reabastecimento e manutenção, antes de ir para Hong Kong.”

Problemas de suprimento

Analistas também destacam as dificuldades de suprimento para os porta-aviões chineses, especialmente em combate, já que a China não possui bases ao longo da primeira ou segunda cadeia de ilhas.

Caso uma guerra estoure, “a frota do porta-aviões Shandong só poderá fazer viagens de ida e volta entre Sanya ou obter suprimentos por meio de navios de apoio, o que limita severamente sua capacidade de combate”, escreveu Shen Zhou.

Tanto o Liaoning quanto o Shandong são porta-aviões movidos a energia convencional, observou Shen Ming-shih. “O combustível deles acaba após cerca de sete dias navegando, então precisam depender de navios-tanque para reabastecimento,”

Confiar apenas em navios de suprimento é “uma fraqueza fatal”, disse Shen Ming-shih. “Porque, enquanto Taiwan, Japão ou Estados Unidos destruírem esses navios, o porta-aviões perderá seus suprimentos e ficará mais vulnerável no mar.”

Se os porta-aviões chineses forem para áreas mais distantes, mas o Partido Comunista Chinês não tiver bases militares no exterior, o abastecimento se tornará um problema, continuou Shen Ming-shih. “Por isso, é improvável que os porta-aviões chineses alcancem o Pacífico Central agora.”

E para o oeste, “não vimos o Shandong e o Liaoning atravessando o Estreito de Malaca para o Oceano Índico, porque o primeiro problema a ser resolvido é a logística e o suprimento”, acrescentou.

Shen Ming-shih ressaltou que o terceiro porta-aviões chinês, o Fujian, também é movido a energia convencional e enfrenta problemas semelhantes. Em comparaçã

Chung compartilha a mesma avaliação.

“O aspecto mais importante de um porta-aviões é o seu suporte logístico, pois ele é essencial para operações em alto mar. Entre a primeira e a segunda cadeia de ilhas, a China não possui bases militares que possam oferecer apoio de suprimento e transporte, ao contrário dos Estados Unidos, que contam com essa infraestrutura em Guam.”

Caças J15 a bordo do porta-aviões chinês Liaoning durante um exercício no mar em 24 de abril de 2018.(Foto: -/AFP via Getty Images)
Caças J15 a bordo do porta-aviões chinês Liaoning durante um exercício no mar em 24 de abril de 2018. Foto: -/AFP via Getty Images

Como a “projeção estratégica oceânica do regime chinês é limitada por problemas de suprimento, seu atual alcance de operações está principalmente concentrado ao redor da primeira cadeia de ilhas”, acrescentou Chung.

Analistas destacam que outros países têm diferentes formas de responder à expansão marítima do PCC na região, especialmente visando seus porta-aviões.

Shen Ming-shih observou que o Japão implantou mísseis antinavio de longo alcance em suas ilhas do sudoeste, e Taiwan também posicionou mísseis antinavio terrestres do norte ao leste da ilha.

“Além disso, a Força Aérea de Taiwan lança mísseis Harpoon a partir dos seus F-16, ou mísseis Hsiung Feng III em navios de guerra, e os Estados Unidos também implantaram alguns mísseis antinavio de longo alcance na parte norte da ilha de Luzon, nas Filipinas”, afirmou. “Os submarinos táticos norte-americanos movidos a energia nuclear, com seus torpedos pesados ou mísseis antinavio, podem facilmente destruir esses porta-aviões.”

Chung acrescentou que “o Exército dos EUA atualmente possui mísseis antinavio de longo alcance nas Filipinas, e, claro, também em Taiwan e no Japão.”

“Claro que o alcance dos ataques dos caças do Japão, Taiwan e Filipinas será ainda maior, o que representará uma ameaça considerável para os porta-aviões chineses movidos a energia convencional”, completou.

Luo Ya e Associated Press contribuíram para esta matéria.