Ameaças de bomba de Pequim contra Shen Yun têm ramificações diplomáticas, avaliam especialistas

A campanha de ameaças do regime chinês contra o Shen Yun é parte de uma guerra não convencional contra os Estados Unidos e irá aumentar se não for controlada, afirmaram especialistas.

Por Petr Svab e Eva Fu
14/03/2025 22:15 Atualizado: 24/03/2025 20:01
Matéria traduzida e adaptada do inglês, publicada pela matriz americana do Epoch Times.

CIDADE DE NOVA IORQUE – Dezenas de falsas ameaças de bomba contra a companhia de artes cênicas Shen Yun, sediada em Nova York, parecem fazer parte de uma campanha sistemática de atividade criminosa do regime chinês em solo americano — um problema que precisará ser resolvido nos mais altos níveis diplomáticos, disseram vários especialistas ao The Epoch Times.

A ameaça mais recente forçou a evacuação do Kennedy Center, na capital do país, antes da apresentação de abertura do Shen Yun.

O Shen Yun, que apresenta shows de dança e música de alto calibre sob o slogan “China antes do comunismo”, tem sido há muito tempo um alvo principal do Partido Comunista Chinês (PCCh). Foi fundado por praticantes do Falun Gong, um grupo religioso brutalmente perseguido pelo PCCh desde 1999.

Investigações de ameaças de bomba, especialmente se envolverem suspeitos de fora do país, são rotineiramente conduzidas pelo Departamento Federal de Investigação americano (FBI), de acordo com o ex-promotor federal Nathan Williams. Há um estatuto federal dedicado criminalizando ameaças de bomba, ele observou.

Neste caso, no entanto, as ameaças vêm com exigências para que os shows do Shen Yun sejam cancelados. Algumas incluíram exigências de resgate, e algumas até ameaçaram membros do Congresso dos EUA que apoiam o Falun Gong.

Segurança extra é colocada em prática ao redor do Kennedy Center Opera House em Washington em 21 de fevereiro de 2025, após uma ameaça de bomba contra o Shen Yun ter sido eliminada no dia anterior (Madalina Vasiliu/The Epoch Times)

“O que está ocorrendo é uma forma de extorsão — ameaças de danos físicos se um certo comportamento não for instituído ou uma certa forma de expressão não for encerrada”, apontou Marc Ruskin, ex-agente do FBI e promotor federal, ao Epoch Times.

“A extorsão é um dos crimes federais que poderia ser usado para investigar e processar os indivíduos que estão cometendo esses atos ruins.”

A maioria das ameaças por e-mail teve como alvo teatros dos EUA, bem como as instalações de treinamento do Shen Yun no norte do estado de Nova York. Algumas, no entanto, foram direcionadas aos shows do Shen Yun em países da Europa e em Taiwan.

Vários especialistas em segurança cibernética disseram anteriormente ao The Epoch Times que o PCCh é provavelmente o responsável pelas ameaças.

Dado o escopo internacional, a investigação provavelmente iria além do FBI, de acordo com Matthew Shoemaker, ex-oficial de inteligência da Agência de Inteligência de Defesa dos Estados Unidos (DIA).

“Pelo menos algumas agências diferentes vão levar isso a sério”, comentou.

A investigação provavelmente envolveria a Agência de Segurança Nacional americana (NSA), que poderia ajudar a rastrear quem enviou os e-mails. O Departamento de Estado dos EUA também pode se envolver, dadas as implicações para as relações diplomáticas com a China. O Tesouro pode intervir se houver um rastro de dinheiro a seguir, afirmou ele.

Se a investigação confirmar o envolvimento do PCCh, o assunto provavelmente será levado à Casa Branca, acrescentou Shoemaker.

Uma placa para a Agência de Segurança Nacional, Comando Cibernético dos EUA e Serviço de Segurança Central perto da entrada de visitantes na sede da Agência de Segurança Nacional em Fort Meade, Maryland, em 14 de fevereiro de 2018 (Saul Loeb/AFP/Getty Images)

Ele cogitou que o briefing diria: “É isso que vemos os chineses fazendo. Queremos ter algum tipo de resposta agora mesmo, ou vamos deixar isso passar e vamos esperar para ver se eles continuam fazendo dessa forma?”

“É aí que você começa a receber informações de nível presidencial.”

Nicholas Eftimiades, especialista em operações internacionais do PCCh, vinculou as ameaças à estratégia mais ampla do partido de silenciar os críticos e aumentar sua influência global.

Nicholas Eftimiades, especialista em operações do CCP no exterior (cortesia de Nicholas Eftimiades)

“É coerção e intimidação, e é apenas parte das atividades de guerra irrestritas do PCCh contra o mundo, literalmente”, expôs Eftimiades, um veterano da CIA, DIA e Departamento de Estado.

De certa forma, segundo ele, as ações equivalem a terrorismo.

“Não lhes custou absolutamente nada fazer isso, e então você tem toda a interrupção por parte da parte receptora, mais as implicações para a ameaça entre outras organizações dissidentes”, avaliou Eftimiades ao The Epoch Times.

Para as vítimas, é “psicologicamente desgastante”, ele completou. “Você sabe, o velho ditado de ‘Mate um, assuste 10.000,’ esse tipo de coisa.”

Campanha coordenada

A campanha para sabotar o Shen Yun remonta a quase duas décadas, desde a fundação da empresa em 2006.

O Falun Dafa Information Center documentou mais de 100 casos de esforços de interferência chinesa. Diplomatas chineses pressionaram teatros e políticos que pudessem comparecer ou apoiar o show.

Os pneus dos ônibus de turismo do Shen Yun foram frequentemente cortados, fazendo com que a empresa aumentasse a segurança para proteger os ônibus 24 horas por dia, sete dias por semana. Mas, nos últimos dois anos, a campanha parece ter se expandido.

O Departamento de Polícia de Costa Mesa detalhou um “corte de aproximadamente 7 polegadas na parede lateral” de um pneu de um ônibus de turismo do Shen Yun, em 15 de março de 2024. O pneu foi cortado de tal forma que não esvaziaria, mas estouraria ao dirigir na rodovia (cortesia da segurança do Shen Yun)

Em dezembro de 2022, o líder chinês Xi Jinping instruiu diversas agências chinesas importantes a atacar entidades relacionadas ao Falun Gong globalmente com novas táticas, informou o Epoch Times em dezembro de 2024.

Especificamente, elas foram orientadas a se concentrar no uso de guerra jurídica e desinformação para prejudicar a reputação do Falun Gong.

Pouco tempo depois, dois agentes chineses começaram a executar um esquema para forçar a revogação do status de organização sem fins lucrativos do Shen Yun, tentando subornar o IRS (a Receita Federal americana). Uma rede de contas de robôs apareceu nas mídias sociais ocidentais para amplificar o conteúdo anti-Falun Gong.

De acordo com denunciantes, autoridades de segurança pública chinesas têm apoiado dois YouTubers, que estão proativamente tentando retratar o Falun Gong e o Shen Yun de forma negativa.

As ameaças de bomba e de morte começaram em março de 2024. Além do campus e dos teatros do Shen Yun, as ameaças tiveram como alvo a diáspora mais ampla do Falun Gong, alertando sobre violência contra legisladores e funcionários do Departamento de Estado que demonstrassem apoio ao grupo religioso perseguido.

A escala da campanha — um governo estrangeiro “exportando comportamento e atividade criminosa” para os Estados Unidos de forma “concertada, direcionada e organizada” — é “uma violação muito significativa das normas internacionais”, afirmou Ruskin.

“Frequentemente, pessoas que agem de forma ameaçadora forçam os limites para ver até onde conseguem escapar impunes. Uma escalada adicional é quase garantida se nenhuma ação for tomada e nenhuma fronteira razoável for estabelecida quanto ao tipo de comportamento aceitável ou não aceitável.”

Marc Ruskin, agente especial aposentado do FBI, na cidade de Nova York em 4 de outubro de 2019 (Samira Bouaou/The Epoch Times)

Shoemaker expressou uma opinião semelhante.

“Os chineses às vezes fazem isso como uma forma de sondagem”, ele observou. “Eles querem ver qual é a nossa resposta. Eles querem ver qual é a resposta de um governo em particular, [e] se houver uma resposta, quanto tempo eles levaram para responder.”

“Teríamos que enviar algum tipo de mensagem clara, neste caso, aos chineses: ‘Nunca tente isso.’ Dessa forma, eles impedem que isso aconteça antes que aconteça algo mais sério.”

Não é por acaso que o regime decide atacar o Falun Gong e o Shen Yun, constatou o deputado Rich McCormick (do Partido Republicano, pela Geórgia).

“Por que eles se preocupariam com algo que é basicamente entretenimento? Porque conta uma história”, ele declarou ao The Epoch Times.

Qualquer pessoa que tenha assistido ao show “percebeu que há uma história da cultura que existia antes do comunismo”, afirmou McCormick.

“O que o PCCh quer? Eles querem coisas que reforcem seu poder, que eles sejam os salvadores”, comentou. “Este é o porquê eles estão ameaçados por isso.”

Qualquer ditadura ou regime autoritário que queira permanecer no poder tentaria primeiro derrotar a religião ou fazê-la se conformar com seu governo, disse McCormick.

“Porque, caso contrário, isso ameaça seu governo, já que Deus pode ser mais poderoso do que eles, eles não querem isso”, avaliou.

O deputado Rich McCormick (Republicano-Geórgia) no Capitólio, em Washington, em 12 de outubro de 2023 (Madalina Vasiliu/The Epoch Times)

John Lenczowski, ex-assessor de assuntos soviéticos do presidente Ronald Reagan, concordou que a ideologia é “o cerne da questão”.

“Isso está explorando a abertura da nossa sociedade. E precisamos construir uma proteção maior”, ele pontuou ao The Epoch Times.

Investigação internacional

Alguns dos e-mails ameaçadores direcionados ao Shen Yun foram enviados usando endereços de e-mail que pertencem ao Ministério da Justiça de Taiwan (TMJ).

Os metadados do e-mail, revisados ​​pelo The Epoch Times, mostram que os e-mails foram processados ​​pelos próprios servidores de e-mail do ministério, indicando que alguém obteve acesso a essas contas de e-mail.

No entanto, vários especialistas em segurança cibernética disseram ao The Epoch Times que todas as informações de metadados podem ser falsificadas.

No entanto, falsificar as impressões digitais detalhadas de vários servidores de e-mail do TMJ parece desnecessário se o culpado for simplesmente uma pessoa aleatória empenhada em sabotar o Shen Yun, de acordo com os especialistas.

“Isso seria muito trabalhoso para um indivíduo que só tem problemas com o Shen Yun”, observou Casey Fleming, especialista em segurança cibernética e CEO da Black Ops Partners.

Ao examinar os metadados com sua equipe, ele concluiu que o PCCh era o culpado mais provável.

“Superficialmente, você tem que analisar quem tem mais a ganhar, quem tem mais problemas, e esse é o PCCh, provavelmente”, disse ele em uma entrevista anterior.

Gary Miliefsky, especialista em segurança cibernética e um dos membros fundadores do Departamento de Segurança Interna, expressou um sentimento semelhante.

“Se anda como um pato, se grasna como um pato, se parece com um pato, provavelmente é um pato”, ele afirmou por e-mail recentemente. “Não quero me envolver em política internacional, mas é óbvio que a fonte não está em Taiwan.”

Delegados chineses seguram documentos de reunião durante a sessão de encerramento do 14.º Congresso Nacional do Povo (NPC) no Grande Salão do Povo em Pequim em 11 de março de 2024 (Jade Gao/AFP/Getty Images)

Eftimiades avaliou que o uso de impressões digitais da ATM (sigla em inglês para “Automated Teller Machine”, que significa caixa eletrônico) sinaliza uma operação mais séria.

“Isso tende a indicar um maior envolvimento oficial do governo por parte da China”, defendeu.

Até mesmo e-mails de endereços falsos podem ser rastreados, apontaram os especialistas, embora, para o FBI, a investigação se torne mais complicada quando a trilha leva ao exterior.

“Quando você entra em servidores criptografados e internacionais, fica um pouco mais difícil obter essa evidência”, avaliou Williams.

O FBI tem contatos em embaixadas dos EUA ao redor do mundo que coordenam investigações internacionais com a polícia local, de acordo com Ruskin. Mas há pouca chance de que a China esteja disposta a cooperar.

É aí que a comunidade de inteligência entraria em ação.

As agências de inteligência estrangeiras têm “uma maneira diferente de obter informações” do que a que está disponível para o FBI internamente, observou Williams.

Matthew Shoemaker, ex-oficial de inteligência da Agência de Inteligência de Defesa (cortesia de Matthew Shoemaker)

Shoemaker confirmou isso.

“Quanto mais sofisticado você for, e quanto mais recursos tiver em mãos, mais fácil será para você mascarar isso, ou será mais fácil para você seguir a trilha. Só levará mais tempo e mais recursos”, comentou.

O problema é que, se o FBI encontrar os criminosos com a ajuda de recursos de inteligência, talvez não consiga usar essas evidências no tribunal.

“Muitas vezes você está lidando com problemas de classificação”, acrescentou Williams.

A comunidade de inteligência pode não estar interessada em revelar a que tipo de informação tem acesso, ainda mais se o culpado estiver na China, onde as chances de extradição para os Estados Unidos são nulas, constataram os especialistas.

Isso não significa, no entanto, que os atos devam ficar impunes, eles se posicionaram.

Pressão diplomática

Mesmo que os criminosos por trás das ameaças de bomba não sejam acusados, se a investigação confirmar o envolvimento do PCCh, o governo dos EUA pode querer abordar o assunto diplomaticamente, interpretaram os especialistas.

“Há todo um conjunto de possíveis ações diplomáticas que você pode tomar como resultado desse tipo de atividade”, afirmou Eftimiades.

Expor o envolvimento do PCCh seria um começo, segundo ele.

“Existe toda uma lógica de humilhação pública, especialmente de indivíduos ou governos, por se envolverem nesse tipo de coisa”, especificou.

No nível diplomático, o governo dos EUA não precisa provar a culpabilidade do PCCh além de qualquer dúvida razoável, como em um caso criminal, apontou Williams. Ele pode confiar em avaliações de inteligência e relatórios investigativos que não precisam revelar as informações confidenciais subjacentes.

As operações cibernéticas do PCCh geralmente são executadas por empresas de tecnologia chinesas, comentou Eftimiades.

“Você pode expor e sancionar aqueles”, indicou.

Autoridades do PCCh também podem ser sancionadas.

Caso os responsáveis ​​de repente se virem impossibilitados de deixar a China por medo de serem presos, isso pode ser uma “grande virada de jogo”, vislumbrou ele.

Recentemente, as autoridades americanas investiram mais recursos na repressão do regime chinês aos dissidentes nos Estados Unidos.

(E–D) As fotos de oito funcionários da empresa de tecnologia chinesa i-Soon: Wu Haibo, Chen Cheng, Liang Guodong, Ma Li, Wang Yan, Wang Zhe, Zhou Weiwei e Xu Liang, e dois oficiais do Ministério da Segurança Pública, Wang Liyu e Sheng Jing (FBI)

Um tribunal dos EUA condenou os dois homens envolvidos na tentativa de suborno do IRS.

O Departamento de Justiça processou um engenheiro que ajudou a coletar informações sobre praticantes do Falun Gong e outros; hackers que supostamente roubaram informações de críticos de Pequim baseados nos EUA foram processados, assim como pessoas de etnia chinesa acusadas de comandar uma delegacia de polícia secreta em Nova York.

O Departamento de Estado condenou recentemente a campanha contra o Shen Yun.

“Condenamos tais atos de intimidação e pedimos a proteção do direito à liberdade de expressão”, destacou um porta-voz do Departamento de Estado ao The Epoch Times, acrescentando que o departamento pede “ao Partido Comunista Chinês que encerre sua campanha de 25 anos para erradicar o Falun Gong”.

Mas especialistas que monitoram os abusos do regime dizem que mais ações são necessárias, ou Pequim provavelmente se tornará ainda mais descarada.

“Este é um manual que pode ser usado contra qualquer um”, alertou Levi Browde, diretor executivo do Centro de Informações do Falun Dafa, em uma conferência online em março.

Coerção e intimidação por parte de Pequim não são incomuns, ressaltou Eftimiades.

“É com isso que a comunidade dissidente convive há décadas”, relembrou.

“Talvez agora o mundo esteja prestando um pouco de atenção e nós faremos algo a respeito.”