A tendência de “netos em tempo integral” na China destaca desemprego juvenil

Especialistas dizem que o novo termo é apenas outra maneira de dizer que um grande número de jovens na China está desempregado.

Por Michael Zhuang
25/06/2025 14:28 Atualizado: 25/06/2025 14:28
Matéria traduzida e adaptada do inglês, publicada pela matriz americana do Epoch Times.

À medida que a economia chinesa continua em desaceleração e o desemprego entre os jovens permanece elevado, um número crescente de jovens está optando por uma carreira não convencional: tornar-se cuidadores em tempo integral de seus avós.

Apelidada de “netos em tempo integral”, essa tendência ganhou força nas redes sociais chinesas, onde membros da Geração Z desiludidos, especialmente aqueles nascidos após 2000, compartilham histórias de como abandonaram o mercado de trabalho urbano altamente competitivo para retornar às suas cidades natais e cuidar de parentes idosos.

A mudança segue fenômenos anteriores, como o dos “filhos em tempo integral”, em que filhos adultos permanecem em casa e são remunerados para cuidar dos pais.

Especialistas afirmam que a criação desses novos termos é apenas outra forma de dizer que um grande número de jovens na China está desempregado.

Um “trabalho” devido ao desespero

Para muitos, tornar-se um “neto em tempo integral” não é uma escolha de estilo de vida, mas uma retirada relutante do mercado de trabalho altamente competitivo da China, que oferece poucas alternativas.

Em uma história muito compartilhada nas redes sociais chinesas, Xiao Ru (apelido), de 23 anos, deixou seu emprego em uma grande cidade e voltou para sua cidade natal, no nordeste da China, para cuidar dos avós.

“Trabalhar lá [nas grandes cidades] esgotou todas as economias da minha família, e eu nem consegui economizar muito”, disse ela em um canal do WeChat. “Se eu não estivesse aqui, meus avós precisariam contratar uma cuidadora de qualquer maneira. Pelo menos sou da família e eles se sentem mais à vontade”.

Para Xiao Ru e muitos como ela, voltar para casa oferece conforto emocional e uma solução econômica modesta, já que suas despesas com moradia seriam basicamente cobertas pelos avós.

Em outras palavras, muitos jovens preferem morar com os avós de graça enquanto cuidam deles. Em alguns casos, aposentados com pensões generosas até pagam aos netos pelo trabalho de cuidar deles.

A tendência atual nas redes sociais chinesas mostra muitos jovens postando vídeos documentando suas rotinas diárias, incluindo compras de mantimentos, cozinhar, fazer tarefas domésticas, tomar chá com leite com os avós e até praticar ioga juntos.

Privilégio para poucos

No entanto, especialistas alertam que o papel de “neto em tempo integral” está disponível apenas para alguns privilegiados.

“Esta não é uma solução sustentável ou universal”, disse Geng Lutao, um ex-profissional da educação na China, ao Epoch Times. “Apenas famílias de classe média, especialmente aquelas com funcionários públicos aposentados ou funcionários de empresas estatais, podem pagar por esse arranjo. A maioria dos aposentados chineses recebe apenas algumas centenas de yuans (cerca de US$ 100) por mês, o que mal dá para se sustentar, quanto mais para sustentar um neto”.

Li Yuanhua, um estudioso chinês que agora vive na Austrália, disse ao Epoch Times: “Isso pode resolver alguns problemas familiares individuais, mas não é uma solução [para a sociedade]. Isso apenas alivia temporariamente os encargos financeiros das famílias com idosos que recebem pensões mais altas. Para a maioria dos idosos [da China], as pensões são extremamente baixas e eles não conseguem nem se sustentar”.

Oportunidades em desaparecimento

O aumento dos “netos em tempo integral” está ocorrendo em um contexto de um mercado de trabalho profundamente conturbado.

Os dados da Agência Nacional de Estatísticas da China mostram que o desemprego urbano entre pessoas de 16 a 24 anos (excluindo estudantes) ficou em 14,9% em maio, após meses oscilando entre 15% e 17%.

Em julho de 2023, o governo interrompeu abruptamente a publicação dos dados sobre o desemprego juvenil depois que eles atingiram um recorde de 21,3%. Embora a divulgação dos dados tenha sido retomada em janeiro de 2024, críticos argumentam que os números foram manipulados para minimizar o problema.

De acordo com um artigo de Zhang Dandan, professor associado da Universidade de Pequim, amplamente divulgado na mídia chinesa, se incluirmos os jovens chamados de “largados” — aqueles que desistiram de procurar emprego ou dependem inteiramente dos pais —, a taxa real de desemprego juvenil pode ter chegado a 46,5% no início de 2023.

“Deitado largado”, ou “tang ping” na gíria chinesa, é uma palavra da moda que surgiu na China em 2021. Refere-se a uma atitude passiva em relação aos desafios da vida e do trabalho.

“O mercado de trabalho está em colapso”, disse Geng. “As pequenas e médias empresas foram dizimadas durante os três anos de lockdowns devido à pandemia. Agora, com os altos preços da habitação e dos produtos de consumo, além dos salários estagnados, mesmo os jovens com alto nível de escolaridade não conseguem encontrar emprego. Os diplomas estão sendo desvalorizados e a mobilidade social ascendente está desaparecendo”.

Tanto Geng quanto Li apontam para questões estruturais mais profundas, citando a repressão do Partido Comunista Chinês (PCCh) às empresas privadas e à liberdade de expressão como fatores-chave.

“Esse tipo de opressão institucional é a verdadeira razão pela qual os jovens estão desistindo [dos mercados de trabalho urbanos] e voltando para casa”, disse Geng.

“Não é um retorno aos valores familiares tradicionais. [Em vez disso], é uma retirada silenciosa após o fracasso sistêmico [do PCCh]”.

Narrativa da propaganda estatal

Enquanto alguns meios de comunicação estatais chineses retratam os “netos em tempo integral” como um retorno da sociedade aos valores tradicionais chineses de devoção filial, os críticos argumentam que esse enquadramento serve para mascarar a gravidade da crise econômica e social do regime sob o PCCh.

“Esta é apenas uma versão embelezada de depender dos mais velhos para sobreviver”, disse Geng. “Não é uma solução. [Em vez disso], é um mecanismo de defesa, e o PCCh está usando isso para transferir a culpa e dizer aos jovens que eles podem ganhar a vida desde que obedeçam e não questionem as políticas do regime”.

Ele acrescentou: “O PCCh quer desviar a atenção de seu fracasso sistêmico vendendo essa ilusão de dignidade na dependência, mas isso é apenas outra forma de lavagem cerebral — treinar os jovens a aceitar uma vida de obediência passiva”.

Li também alertou para as consequências a longo prazo: “Quanto mais tempo esses jovens permanecerem fora da força de trabalho, mais difícil será para eles se reintegrar, mesmo que as oportunidades de emprego melhorem, porque eles estão sendo empurrados para uma aposentadoria precoce da própria vida”.

Xia Song e Yi Ru contribuíram para esta reportagem.